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Rodrigo Constantino

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Trotski na Netflix: uma mistura de serial killer com fanático religioso

Último dia do ano, momento cultural para uma dica imperdível: assistam a série Trotski, disponível na Netflix. Ela conta a conturbada história do revolucionário russo Leon Trotski, que usurpou até o nome de outra pessoa, desnudando mitos criados para poupar aquele que era tão monstruoso quanto Lenin e Stalin.

O fato de Trotski ter sido morto no México a mando de Stalin, e ter sido mais “idealista” do que os outros dois, fez com que muito comunista preservasse seu nome da sujeira histórica da revolução bolchevique. Mas a verdade é que Trotski era tão ruim quanto seus companheiros de utopia, e se tivesse concentrado o poder que Lenin e depois Stalin tiveram, o resultado teria sido o mesmo: genocídio, miséria, escravidão.

Foi Trotski o intelectual por trás dessas ideias, aquele que deu verniz ideológico à matança desenfreada. Afinal, não se faz um parto sem dor e sangue, e Trotski, movido por uma mistura de ressentimento de judeu deslocado e ambição lunática de se tornar uma espécie de deus, era o líder da revolução, aquele que colocava em marcha os desesperados e indignados. A metáfora desse dinamismo está muito bem representada na imagem do trem, seu escritório móvel.

Nas palavras de Freud, Trotski era uma mistura de serial killer com fanático religioso. E tudo a série russa expõe de forma brilhante. O rancor, a inveja, o niilismo, o desprezo pelo próximo de carne e osso, a megalomania, tudo isso formou o caldeirão psicológico do obstinado agitador de massas, o falastrão intelectual que queria destruir o mundo existente, imperfeito, em nome de suas fantasias.

O sonho igualitário sempre serve de desculpa para dar vazão ao sentimento destrutivo desses revolucionários. Mentiras, intrigas, egomania, ambição desmedida, assassinatos: esses são os reais instrumentos daqueles que buscam o poder a todo custo, e acham que seus “nobres fins” justificam quaisquer meios.

Há inúmeros diálogos fantásticos nos oito episódios da série, e dá vontade de anotar. O pai de Trotski “toca a real” para o filho num momento marcante, lembrando que para criar seu “novo mundo” ele irá destruir tudo de bom que existe. Em outra ocasião, Trotski, tendo uma das visões de fantasmas que tinha com frequência, é alertado de que não teme a morte pois já está morto.

Claro que a série não desceu bem em meios “intelectuais” esquerdistas. Durante décadas houve uma hegemonia socialista na narrativa da história, a ponto de a suástica nazista causar asco, como deveria, mas a foice e o martelo comunista ainda serem um símbolo utilizado oficialmente por aí, com orgulho de seus adeptos.

O que fica claro, porém, para quem estudou História de fato, é que Lenin, Stalin e Trotski não eram essencialmente diferentes de Hitler ou Mussolini. Ao contrário: eram parentes ideológicos bem próximos, totalitários, insanos, frios e cruéis, a ponto de encarar a pilha de cadáveres que vai se formando ao longo de seus governos como um pequeno preço a ser pago pelo amanhã maravilhoso que há de chegar um dia.

Em nome desse futuro idealizado, o presente se transforma num inferno. Não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos. Alguns, ou dezenas de milhões, quem liga? É o resultado inevitável de quem faz da política uma seita religiosa, para criar o paraíso terrestre. Trotski era mantido de fora dessa lista de monstros ideológicos assassinos, e a lista de seus seguidores é enorme, todos buscando manter a chama da utopia acesa com base no fato de que o líder revolucionário não teve condições de se tornar outro Stalin.

A série russa na Netflix resgata a realidade e derruba essa fantasia. Trotski era igualmente monstruoso. Talvez até mais, pois se Stalin era simplesmente um brutamontes psicopata, Trotski tinha o refinamento intelectual que servia de escudo para sua sociopatia, e lhe dava uma obstinação completamente insana na busca desses ideais. O trem da revolução, com o respaldo das ideias igualitárias, não se importava de atropelar quem quer que fosse que estivesse no caminho da sua terra prometida…

PS: Outro aspecto que a série mostra bem e que costuma ser bastante ignorado é o antissemitismo russo. Sim, muitos comunistas eram judeus, como o próprio Marx, mas a “judeofobia” era enorme no país, e os “kikes” eram desprezados como capitalistas sujos. Marx e Trotski, ambos judeus, encontraram no comunismo uma forma de apagar seus traços de origem: se todos são iguais, então eles não precisam mais ser judeus. O desprezo do próprio Marx pelo judaísmo é conhecido. Eis mais um elo que liga comunismo bolchevique ao nacional-socialismo alemão.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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