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Política é a arte do possível. Concessões serão sempre necessárias. Algum grau de pragmatismo é crucial. Mas qual o limite? Cada um terá o seu. Mas é preciso ter em mente o risco de se ser tão pragmático a ponto de confundir isso com adesão, com perda total de valores e princípios. Melhor perder de pé do que vencer de quatro? Depende do que está em jogo. Mas não pode ser vencer a qualquer custo, pois isso seria uma vitória de Pirro.
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Tais reflexões vêm à mente com a escolha do candidato do PL ao Senado por São Paulo. Eduardo Bolsonaro bateu o martelo e seguiu a indicação de Valdemar Costa Neto, presidente do partido. Para ficar menos feio, colocou-se como suplente, mas todos sabem quem será o senador de fato. É um ícone do centrão, alguém próximo de Márcio França, ex-ministro de Lula, de Geraldo Alckmin, vice-presidente de Lula, e de João Doria.
André do Prado, presidente da Alesp, não vai jamais enfrentar o abuso supremo. Todos sabem disso. No textão escrito por Eduardo para justificar a escolha, ele mesmo nada diz sobre STF, focando na “ficha limpa” de Prado. Ora, se ficha limpa é o novo critério, a nova régua, muita gente até com viés de esquerda pode ser escolhida. O senador Alessandro Vieira, por exemplo, é ficha limpa.
Pelo visto, tem muita gente na “coleira do Valdemar”, ignorando que o cacique do PL é um ícone do centrão fisiológico e mensaleiro dos tempos do PT
Vamos virar centrão para combater o sistema, e quem criticar é traidor e faz parte do... sistema! Ontem foi um dia difícil para eduardistas. Foi preciso muito malabarismo para defender o indefensável. Quer votar no candidato do centrão, no pupilo do Valdemar por que Eduardo pediu? Tudo bem! Faça isso. Cada um é livre. Mas por favor: só não venha tentar justificar que votar no André do Prado é o que um direitista deveria fazer, e que votar em Ricardo Salles ou Guilherme Derrite é coisa de "traidor".
Eduardo falava tanto em lealdade ao bolsonarismo, que chegou a perguntar: “Vocês vão deixar se seduzir pelo discurso do centrão?”. Pelo visto, quem se deixou seduzir foi ele mesmo. E pensar que sua turma chegou a “insinuar” que o deputado Nikolas Ferreira era do “sistema”, só porque teve uma decisão judicial favorável. Imagina a vida do sujeito que acusa Nikolas de ser do "sistema" e depois pede voto para André do Prado!
Pelo visto, tem muita gente na “coleira do Valdemar”, ignorando que o cacique do PL é um ícone do centrão fisiológico e mensaleiro dos tempos do PT. E a incoerência não para: o governador Tarcísio de Freitas era traidor até ontem para essa turma, que atacava quem queria o "trade Tarcisio" no lugar de Flávio Bolsonaro como candidato, mas agora ou defende seu candidato para o Senado em São Paulo ou é traidor! Quanta falta de coerência desse pessoal...
Ricardo Salles, que saiu do PL por não aceitar esses acordos do centrão e foi para o Novo, foi as forras: “Esse apoio ao nome do filhote do Valdemar é vergonhoso. O próprio Eduardo sempre verbalizou sua ojeriza ao centrão. Uma turma corrupta por natureza, fisiológica, patrimonialista. O padrinho foi apoiador do PT, do Lula, da Dilma, fizeram esquema em todos os lugares por onde passaram. [...] A criatura foi criada à imagem e semelhança do seu criador, Valdemar. É seu pupilo, seu protegido, seu preferido. Por que será?”.
Salles acrescentou: “Centrão é o câncer do Brasil. Pior que a esquerda, porque se finge de direita quando convém para poder obter espaço, poder, dinheiro, verbas, cargos, emendas e tantos outros esquemas que saqueiam nosso país há décadas. Por tudo isso, vejo com muita tristeza essa capitulação de um pragmatismo vergonhoso e contraditório com todo o discurso feito até hoje”.
O deputado estadual do PL em SP, Paulo Mansur, resumiu com perfeição o que tem sido a marca registrada de muitos bolsonaristas nesse momento delicado: “Eu não sou de direita conservador! Eu sou BOLSONARISTA porra”. Gosto dessa honestidade e dessa confissão, ainda que não entenda exatamente o que um bolsonarista desses defende: Jair, Flavio, Eduardo, Michelle ou Jair Renan? Afinal, “nem sempre” estão alinhados. Mas seja lá o que significa hoje ser um “bolsonarista”, o fato é que não se parece nada com a direita conservadora mesmo. Tem se transformado em algo bem diferente, um clã político com seguidores fanáticos e radicais que dizem “amém” para qualquer coisa que vem da família – ou de parte dela, escolhida de forma seletiva quando convém. Afinal, quando Jair e Flávio pedem paz e o fim dos ataques mútuos, são simplesmente ignorados por essa “matilha”.
A jornalista Fernanda Salles reagiu ao comentário de Mansur: “É disso que estou falando. O movimento perdeu o vínculo com o conservadorismo e com as pautas da direita. Há uma ausência clara de identidade ideológica. Sem esse eixo, o movimento deixa de girar em torno de valores e passa a orbitar apenas uma figura política. E aí a bússola perde o norte; ora defende uma coisa, ora outra, até mesmo bandeiras de esquerda ou políticos do sistema que sempre criticou”.
Enquanto Eduardo justificava porque o nome escolhido por Valdemar é bom, o centrão suspendia no Conselho de Ética da Câmara os mandatos de três deputados conservadores por dois meses. Marcel van Hattem, do Novo, Marcos Pollon e Zé do Trovão, do PL, foram punidos por ocuparem pacificamente a Mesa Diretora da Casa em agosto do ano passado. O centrão avança, a direita perde.
Felizmente, os paulistas ainda têm candidatos conservadores para escolher para o Senado. O próprio Salles, que ajuda o Movimento Endireita Brasil há duas décadas e era muito elogiado por Olavo de Carvalho, e Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança do governo Tarcísio e deputado que relatou o projeto de endurecimento contra a criminalidade. Espero que a fidelidade do eleitor seja para com os valores, não um partido ou um político qualquer.









