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O Fed (banco central americano) surpreendeu o mercado e decidiu manter os estímulos na íntegra. Grande parte dos investidores já esperava a retirada de ao menos US$ 10 bilhões por mês. A comunicação dessa gestão com o mercado não é das melhores.

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Em coletiva dada logo após o anúncio, o presidente do Fed, Ben Bernanke, afirmou que o cenário econômico não mudou substancialmente desde junho, quando foi divulgada a informação de que a redução dos estímulos poderia acontecer. “Concluímos que a redução dos estímulos poderia reduzir o crescimento, situação que seria exacerbada se as condições econômicas se apertassem no médio prazo”, afirmou Bernanke.

Os apelos de economistas como Paul Krugman falaram mais alto do que o bom senso. O fato é que o Fed parece totalmente refém de sua própria política expansiva. Até que ponto a tímida recuperação econômica depende de tais estímulos? Eis a questão: podemos estar diante de uma retomada artificial, de uma euforia temporária produzida apenas pela injeção de liquidez no sistema. É a “euforia Amy Winehouse”.

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Como o nome ironicamente já diz, a cantora curtia elevadas doses de álcool e outras drogas mais. No começo, seus vexames eram compensados pelo excelente desempenho nos palcos. Com o passar do tempo, o vício foi aumentando até o ponto de impedi-la de cantar. Confrontada com essa realidade, Amy não só rejeitou um tratamento mais intensivo, como chegou a escrever uma música enaltecendo sua decisão. Reabilitação? Não, não e não! Ela quis o vício. Acabou morta.

A analogia com o álcool não é nova. Benjamin Strong, que foi presidente do Fed, costumava dizer que daria mais uma dose de uísque para animar o mercado. E como ele gosta do malte! Para um bêbado, nada melhor no curto prazo do que mais uma rodada grátis. O problema é depois, quando a ressaca aumenta. A dose necessária para manter a euforia artificial é cada vez maior. Até o dia em que o organismo não aguenta mais.

Hoje foi dia de festa. As bolsas subiram no mundo todo, celebrando a continuidade dos estímulos, tal como um viciado comemora com fogos de artifício a chegada das drogas. O S&P 500 está no pico histórico em termos nominais.

Mas a alta do ouro hoje foi ainda superior a das bolsas. A “relíquia bárbara”, como dizia Keynes, não pode ter sua oferta manipulada, ao contrário das moedas fiduciárias. Diante de bancos centrais frouxos, os investidores correm para a commodity metálica.

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A música de Cazuza expressa bem a sensação predominante nos mercados financeiros do mundo todo atualmente:

Mais uma dose?

É claro que eu estou a fim

A noite nunca tem fim

Por que que a gente é assim?

Todos os olhares se voltam neste momento para os donos das impressoras de moeda fiduciária. Como Santo Agostinho, os investidores sabem que a castidade (austeridade) é fundamental, pois há excessos no organismo (endividamento insustentável), mas eles pedem em coro: não agora! Os ajustes seriam dolorosos demais. Deixem-nos curtir um pouco mais o aqui e agora como se não houvesse amanhã. A noite nunca tem fim…

E, como viciados em álcool ou heroína, todos lançam olhares suplicantes ao fornecedor da droga, implorando por mais uma dose. Sim, cada rodada produz efeito eufórico menor, e mais estragos no organismo. Sim, a ressaca pela manhã será forte. Sim, há o risco de que, em algum momento, o organismo acuse o golpe e a overdose seja fatal. Mas entre o sofrimento certo da abstinência hoje, e o risco de morte amanhã, o viciado “escolhe” jogar todas as fichas na sorte.

Isso explica as reações dos mercados após a decisão do Fed. É música para o ouvido dos dependentes “químicos”. O fornecedor deu o sinal: nova rodada de droga a caminho! Hora de celebrar. Até porque a euforia dura pouco. Cada vez menos. Por que que a gente é assim?