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Viva a maconha e morte ao tabaco? As incoerências dos progressistas politicamente corretos
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Fonte: GLOBO

O politicamente correto é a nova forma de patrulha ideológica mundial, uma espécie de ditadura velada do pensamento. Em nome da tolerância plena, mostra-se intolerante com qualquer desvio do manual “progressista”. Denis Rosenfield tem sido um dos combatentes dessa tirania moderna. Em sua coluna de hoje no GLOBO, fez justamente isso.

Começou lembrando que nem toda mudança é positiva, e que nem tudo que é novo é melhor do que aquilo que havia antes, especialmente em termos de costumes. Não existe essa cronologia de progresso inexorável quando falamos de morais, ao contrário do que muitos acreditam.

Mas a turma do “bem” discorda, considera-se detentora de um tipo de missão divina, imbuída de um pseudo sentido histórico. Deseja impor uma agenda aos demais, daquilo que é considerado “progresso”. Um dos exemplos, citados pelo autor, é a luta pela legalização da maconha. Quem a defende é “do bem”, quem a condena ou tem ressalvas é reacionário.

Curiosamente, os mesmos que levantam essa bandeira, muitas vezes apelando para empulhações científicas, como a afirmação de que a maconha faz bem à saúde, demonizam o tabaco. Chegamos ao ponto de paranoia em que o fumante é visto como pária da sociedade, filmes devem evitar cenas com cigarros, mas o maconheiro é alguém avançado, descolado e progressista.

Desaparece o debate honesto calcado em custos e benefícios, em riscos concretos de mudanças desconhecidas, para dar lugar ao maniqueísmo que segrega todos entre os “bons” e os “maus”. Diz Rosenfield:

Uma repressão muito forte pode dar ensejo a formas violentas de reação. Uma tolerância indiscriminada pode levar à contaminação de toda a sociedade. Os extremos devem ser evitados. Já dizia Aristóteles que a virtude reside no termo médio.

Essa prudência é excluída do debate, e aqueles que levantam dúvidas são vistos como caretas ultrapassados. Eu, por exemplo, que sou liberal e, a princípio, favorável à legalização da maconha, tenho várias ressalvas quanto ao momento de se partir para tal mudança, especialmente no Brasil de hoje.

Seremos cobaias quando tantos países mais liberais e desenvolvidos ainda evitam dar esse passo? Vamos priorizar essa reforma quando tantas outras, infinitamente mais urgentes, são necessárias? Sem uma cultura de responsabilidade individual, indissociável da liberdade, criaremos a “estatização do maconheiro”, com os custos de seus atos recaindo sobre todos nós?

Se a legalização da maconha não for a panaceia prometida e não resolver nada em relação ao crime nas favelas, até porque os traficantes dominam hoje inclusive mercados legais, o próximo passo será legalizar a cocaína e o crack? Vão alegar que foi feito pouco na direção de liberar geral se a coisa não funcionar direito?

Sendo o Brasil um pioneiro, vamos atrair viciados de todos os tipos como um paraíso dos drogados? As Farc e os traficantes vão virar empresas oficiais? O consumo vai aumentar muito? Qual o impacto disso na sociedade? Será mais difícil evitar a venda para menores de idade, como ocorre hoje com o álcool?

São algumas questões, entre tantas outras, que demandam alguma cautela. Claro que o leitor pode refletir sobre todas elas e, ainda assim, concluir que é favorável à legalização, como eu mesmo já fui (hoje tenho, como disse, minhas dúvidas e ressalvas). Mas quando o debate descamba para a luta entre “progressistas” e “reacionários”, perde em qualidade. Rosenfield resume:

O contraste é ainda mais acentuado entre a maconha e o tabaco. Enquanto se procura legalizar a primeira, tornando o seu consumo um negócio como qualquer outro, passando o tráfico a mudar de natureza, sendo um produto comercializável, faz-se o processo inverso no que diz respeito ao segundo desses produtos.

O tabaco passa a ser fortemente tributado, criando um mercado negro, o do contrabando, que hoje já representa 30% do mercado total. Empregos estão sendo perdidos. O que antes era tido como tráfico passa a ser considerado como “legal”, enquanto o que era e é legal passa a ser objeto de “contrabando”, comércio ilegal, que só favorece, na verdade, o Paraguai. O consumo de álcool, a continuar essa tendência, seguirá pelo mesmo caminho.

Tudo isto se deve a uma espécie de cruzada do politicamente correto. Este toma o que considera “bom” ou “progressista” como algo que deve ser simplesmente imposto aos que não querem seguir a nova forma de “virtude”.

O que pode estar por trás desse paradoxo, alimentando essa incoerência dos politicamente corretos, é a visão ideológica anticapitalista. O tabaco e o álcool são vistos como produtos da Grande Corporação capitalista, e por isso detestados. Já a maconha é produto do traficante atualmente, despertando certo glamour naqueles que odeiam o “sistema”, que consideram a polícia “fascista”, que chegam a se encantar com os guerrilheiros revolucionários das Farc.

Enfim, é realmente algo muito estranho abraçar com tanta empolgação a legalização da maconha e, ao mesmo tempo, atacar tanto o tabaco e a bebida alcoólica, produtos tradicionais e enraizados em nossos costumes, como tantos “progressistas” fazem. Tal incoerência acende uma luz amarela sobre suas reais intenções…

Rodrigo Constantino

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