
Ouça este conteúdo
Alexandre de Moraes, conforme o esperado, resolveu dobrar a aposta. Mas desta vez exagerou na dose: acusou André Mendonça no inquérito das Fake News. O bandido, pego com o batom na cueca, partiu para cima do juiz. Segundo o Estadão, Moraes usou um relatório interno da Polícia Federal que se define como “sem valor probatório” para pedir investigação contra seu colega supremo por abuso de autoridade e interferências indevidas na condução de investigações.
No ápice da cara de pau, Moraes escreveu em sua peça bizarra que a Polícia Federal aponta que o resultado prático do comando realizado pelo ministro Mendonça “é a situação do julgador como investigador”, comprometendo a “cadeia de custódia” da prova. Sim, Moraes está acusando outro de ser julgador e investigador ao mesmo tempo! E faz isso para se proteger de uma investigação na qual, finalmente, é o possível investigado. Tudo absurdo demais, claro.
Juristas, espantados, falam em medida “sem precedentes”, e a oposição reage alegando que Moraes está “fora de si”. Eu, ao menos, fico satisfeito pelo fato da máscara de Moraes e seu inquérito do fim do mundo ter caído de vez. Não dá mais para fingir que esse troço servia para combater mentiras ou ameaças aos ministros.
Muitos têm pedido a cabeça de Moraes. Aceitam entregar os anéis para não perder os dedos.
Denunciei esse instrumento de opressão em corte internacional já em 2019 e sou investigado nele há 4 anos. As minhas companhias só melhoram. Tenho orgulho de ser alvo de Moraes, pois estou em ótimas companhias. Do outro lado, o criador do inquérito, Toffoli, e seu relator, Moraes, ambos metidos com o banqueiro responsável pela maior fraude da história brasileira.
Ou seja, chegou o dia em que o inquérito, já com sete anos, foi usado contra o próprio STF! Era questão de tempo. Quem estudou regimes autoritários sabe que, quando se abre a porteira para passar um boi, logo depois vem a boiada toda. Aberto o precedente de colocar adversários e desafetos num inquérito com “vício de origem”, era óbvio que tudo caberia ali. Mas muitos aplaudiram pois os alvos iniciais eram “bolsonaristas”.
Estamos diante de um cabo de guerra entre o Bem e o Mal. Mendonça tenta restaurar o Estado de Direito, sabe dos riscos que está correndo, mas tenta fazer a coisa certa. Moraes busca se defender como pode, enlouquecido como todo tirano que experimenta um poder absoluto e se sente ameaçado. Nosso Robespierre tupiniquim está tentando degolar tudo que é pescoço, ignorando a lição da história de que o próprio Robespierre acabou na guilhotina.
Se o sistema se unir para blindar Moraes, mesmo depois de tudo que ele já fez, o Brasil acabou. Podem entregar as chaves para os bandidos e fugir para as colinas. Quero crer que haja lideranças esclarecidas o suficiente para se dar conta do perigo.
VEJA TAMBÉM:
Enquanto isso, nesta quarta-feira, o presidente do STF, Edson Fachin, retirou a ofensiva de Moraes contra Mendonça do inquérito das fake news e abriu um procedimento separado, sob sua relatoria. Fachin deu cinco dias para que a PGR se manifeste sobre as acusações e outros cinco para que Mendonça apresente sua defesa. A decisão esvazia a tentativa de Moraes de usar o instrumento criado para perseguir adversários contra um colega da corte, mas não afasta a expectativa de que o plenário do Supremo termine por blindar o ministro.
Até mesmo esquerdistas têm se posicionado diante da situação caótica. Pablo Ortellado, no Globo, pediu para que salvem a democracia, não Moraes. Ele faz concessões aos “acertos” de Moraes para conter os “movimentos antidemocráticos”, uma premissa falsa e responsável pelo resultado de agora, mas afirma que o STF perdeu legitimidade. “Os vícios de origem talvez tenham sido a saída possível diante das circunstâncias”, comenta o autor, sem se dar conta de que essa postura é que alimentou o monstro. Mas conclui: ‘
"Se a reação seguir o padrão adotado na crise de Toffoli — um acordo entre os 11 para poupá-lo —, a Corte não terá defendido Moraes, terá se implicado no escândalo. Nesse caso, não restará à sociedade outra saída que não pressionar o Senado pelo impeachment. É uma saída traumática e muito exposta à captura pelos adversários da democracia liberal. A responsabilidade por termos de recorrer a ela será inteiramente do Supremo".
Ortellado não está sozinho à esquerda. Muitos têm pedido a cabeça de Moraes. Aceitam entregar os anéis para não perder os dedos. O rei está completamente nu, e ficou insustentável defender os abusos ensandecidos do ministro. Diante do quadro surreal que temos, tenho uma dúvida sincera: Moraes deveria ser preso ou levado pelos homens de branco?

Rodrigo Constantino é economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja, O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




