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Nem todos os eleitores possuem o devido conhecimento para compreender os elos causais da economia. Por exemplo, quando há uma bonança em todos os países emergentes por conta de um boom de commodities gerado pelo crescimento chinês, aqueles mais ignorantes sentem as vantagens disso e atribuem mérito indevido ao governo, como aconteceu no primeiro mandato de Lula. Ou, ao contrário, quando vem uma pandemia, e uma reação insana a ela, que produz desemprego e inflação, muitos culpam o atual governo e ponto.

A esquerda sabe disso e explora isso. É a velha máxima de "quanto pior, melhor". Os mesmos que defenderam os lockdowns repetindo que "economia fica para depois" agora responsabilizam o presidente Bolsonaro pela conta que chegou, conforme previsto por analistas sérios. A inflação está elevada no mundo todo, batendo recordes atrás de recordes, mas nossa oposição finge que nem existiu mais a tal pandemia, e que o estrago econômico é obra de políticas ruins do atual governo. Pura demagogia.

Mas, em que pese o grau cada vez maior de informação popular graças às redes sociais, claro que há impacto eleitoral negativo para o incumbente quando a economia vai mal. A esquerda conta muito com isso. E para Bolsonaro, não basta apenas explicar, comunicar de forma técnica o que se passou, lembrar da existência da Argentina. Ele precisa ser pragmático e dar respostas políticas aos eleitores. Foi exatamente isso que ele fez ao condenar a Petrobras por lucros excessivos e o aumento de preços, e trocar o ministro de Minas e Energia.

Bolsonaro tem resistido até aqui a tentação de dar uma canetada e intervir na estatal, o que Lula certamente já teria feito, com efeitos nocivos. Mas alguma resposta simbólica ele precisa dar. E entregar algumas cabeças é parte disso. Os caminhoneiros estão revoltados, com razão, mas não necessariamente com os alvos certos. Não importa muito: apontam para quem pode fazer algo por eles, dar um subsídio, marretar os preços do combustível para baixo. Trata-se de uma base importante de apoio, e também uma categoria que pode paralisar o país.

Em minha opinião, Bolsonaro está atendendo aos anseios deles da forma menos perniciosa possível para nossa economia a longo prazo. E a troca de comando no Ministério de Minas e Energia é prova disso. Adolfo Sachsida é um economista liberal, leal ao governo, e logo em seu primeiro pronunciamento falou em privatização - música para os ouvidos de pessoas sensatas, que entendem que não cabe ao governo ser empresário. Bolsonaro parece ter entendido o cerne da questão: o fato de a Petrobras ainda ter controle estatal coloca enorme pressão política nesses momentos de crise.

É preciso olhar para onde se escorregou, não onde caiu. Sabemos da situação delicada hoje, com alta cavalar nos preços de energia pelo mundo todo. Mas isso só se converte em pressão política para ingerência do Executivo na empresa porque a Petrobras tem esse controle estatal. Joe Biden também tem desgaste com a alta inflação, mas ninguém pede para ele controlar preços de diesel ou gasolina, pois nem teria como fazê-lo, uma vez que não existe uma PetroUSA por aqui. Só demandam uma grosseria de Bolsonaro porque ele tem tal prerrogativa por meio da Petrobras, o que seria um erro, ainda que tentador no curto prazo.

Dentro de uma visão liberal responsável, portanto, mas com doses aceitáveis de pragmatismo, ainda mais num ano eleitoral e disputando contra todo um sistema corrupto e pérfido, Bolsonaro tem se equilibrado bem nessa corda bamba. Acena para os eleitores, mas sem sacrificar a agenda reformista. Entrega algumas cabeças, mas sem promover mudanças essenciais na gestão prudente de Paulo Guedes. Política é a arte do possível.

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