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Rodrigo Constantino

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Pirâmide de ponta cabeça

  • Rodrigo ConstantinoPor Rodrigo Constantino
  • 05/03/2020 09:51
Pirâmide de ponta cabeça
| Foto:

Por Percival Puggina

Antigamente, nas aulas de língua portuguesa, estudavam-se sinônimos e antônimos. Os sinônimos eram chatos, repetitivos como certos discursos. Responder corretamente aos exercícios de sinônimos implicava um esforço dos neurônios para encontrar outras maneiras de dizer a mesma coisa. “Quem se pode interessar por algo tão inútil?”, pensava eu. Já com os antônimos as coisas não se passavam assim. Os antônimos eram divertidos, envolviam um antagonismo frontal, curto e certo. A professora dizia uma palavra e a gente a contrariava. Mesmo que ela reservasse os melhores vocábulos para si, era engraçado responder “burrice” quando ela proclamava “inteligência”. Dona Elvira dizia “estudar”, eu respondia “vagabundear” e a turma caía na gargalhada.

Suponho que os exercícios de antônimos tenham, de algum modo, contaminado a minha geração. Emitimos, ao longo das décadas, fortíssimos sinais de que nos comprazemos em fazer tudo pelo avesso, como se a vida fosse uma camiseta “descolada”. Organizamos a vida nacional, em quase tudo que importa, pelo inverso do que é certo. Luciano Huck, de tanto distribuir caminhões com prêmios em bairros pobres, já dá entrevista como presidenciável. Há eleitores convencidos de ser isso o que políticos devem fazer em âmbito nacional. E há congressistas, nestes dias, querendo fazer o mesmo com o dinheiro do Orçamento. Mas pergunto: você já assistiu uma coisa dessas fora da América Latina, em país bem organizado?

Bolsonaro quer o antônimo dessa regra. A estrita confiança em seu Posto Ipiranga o fez reconhecer que essa é uma das causas da baixa eficiência dos investimentos públicos quando passam pelas mãos dos políticos. O dinheiro é arrecadado nos municípios e nos estados, em penitente silêncio dos cidadãos, e segue para Brasília. Lá circula, todo dia, uma espécie de versão luxuosa do caminhão do Huck, sustentando favores eternos, cardápios, mordomias, plano de saúde para filhos marmanjos de 30 anos, e tonifica a maioria parlamentar. Quem, na base da pirâmide dos contribuintes, recebe algo em retorno (quando retorna), vê seu dinheiro chegar enxugado e apoucado, ao som das trombetas eleitorais.

Sob o ponto de vista institucional, federativo, político e jurídico construímos, aqui, as pirâmides do Egito de cabeça para baixo. Um dos mais importantes princípios da organização social é o princípio da subsidiariedade, inspirado no conceito de que a prioridade das iniciativas deve ser atribuída às instituições de ordem menor, à base da pirâmide, agindo as demais, subsidiariamente, na medida da necessidade. Em resumo, a União só age naquilo que os Estados não possam agir, estes só atuam naquilo para que os municípios estejam incapacitados de atuar e, dentro do município, a prioridade das iniciativas flui, pela mesma regra, até o cidadão.

O princípio da subsidiariedade, portanto, é um princípio moral, na medida em que preserva a autonomia da pessoa humana e sua liberdade. É um princípio jurídico porque estabelece – e estabelece bem – a ordem das competências. É um princípio político porque delimita – e delimita bem – a ação do Estado. E é um princípio de administração porque vai organizar – e organizar bem – as competências, encurtar os caminhos e os vazamentos do dinheiro, determinar a forma e o tamanho do Estado e orientar a ação do governo de modo a fazer parcerias com a sociedade.

Mas, convenhamos: é divertido assistir o contrário disso tudo e ouvir as loas da imprensa à “autonomia do Legislativo”. E (mais absurdo de tudo), elites políticas aplaudirem o retorno, em poucos frascos e muita publicidade, da dinheirama que parte embarcada em contêineres. Clap, clap, clap!

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Comentários [ 3 ]

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  • I

    Irineu Berestinas

    ± 2 dias

    Corrijo: Meu amigo, o presente texto não é de Rodrigo Constantino, mas sim de Percival Puggina, um dos mais lúcidos e articulados analistas políticos dos nossos dias. Sobre as palavras elogiosas a respeito do retorno de Constantino aos seus velhos tempos, assino embaixo.

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    • I

      Irineu Berestinas

      ± 3 dias

      Meu amigo, o presente texto não é do Rodrigo Constantino, mas sim de Percival Puggina, um dos mais lúcidos e articulados analistas políticos dos nossos dias. Sobre as palavras elogiosas sobre o retorno Constantino aos seus velhos tempo, assino embaixo.

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      • R

        Raimundo Rabelo Lucas

        ± 3 dias

        Esse é o Rodrigo Constantino que conheci quando escrevia na outrora Globo, hoje globo lixo. É o Rodrigo do ESQUERDA CAVIAR. É o Rodrigo que, através dele, passei a conhecer e assinar a Gazeta do Povo. Meu Prezado Rodrigo, não sou, ainda, bolsonarista, mas se ele continuar com a verdade, talvez eu passe a ser. A travessia do rio para chegar ao outro lado, é muito difícil. O rio está infestado de tubarões, piranhas, cobras, lagartos e outros bichos. É preciso a união de todos os brasileiros honestos e de bem. Dia 15, pode ser um marco nas mudanças que tanto queremos para o nosso país.

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