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Saudades do encontro que não tive com Olavo
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Peguei um avião com minha mulher em Miami e, pouco mais de duas horas depois, já estávamos a caminho da casa de Olavo em Richmond, Virgínia. Lá fomos recebidos com grande hospitalidade pelo filósofo e sua esposa, Roxane. Fomos encaminhados logo para seu escritório, o santuário dos livros, do estoque do vasto conhecimento adquirido ao longo de uma vida de estudos.

Conversamos sobre filosofia, conservadorismo, governo Bolsonaro, ameaça comunista e globalismo. Também falamos sobre a vida em geral, felicidade, armas e caça (nesse ponto minha mulher lançou um olhar torto para o caçador de ursos, mas ele se saiu bem em seus argumentos). A conversa fluía, regada a café e cigarros.

Falamos também de nossas "tretas" do passado, desde os tempos de Orkut. Lembrei com nostalgia dos meus primeiros textos publicados no Mídia Sem Máscara, pelo intercâmbio feito por Heitor de Paola. "Terror Vermelho", uma resenha do Livro Negro do Comunismo, e "A galinha vermelha", uma sátira do socialismo igualitário, foram os dois primeiros artigos oficiais que deram início ao meu ofício de escritor.

Só tinha encontrado Olavo duas vezes na vida antes desse encontro: nessa fase mesmo, numa palestra para a comunidade judaica no Centro do Rio, em que me apresentei como o jovem articulista do MSM; e numa palestra dele na UniverCidade, que levei meu irmão e ficamos, ambos, bastante impressionados. Eu era leitor ávido de suas colunas nessa época.

Depois disso, vieram as trocas de farpas, e também tivemos a oportunidade de falar bastante disso. Eu era um libertário ateu seguidor de Ayn Rand, e tive de admitir - como já fizera em público - que naqueles debates, quando eu puxava Voltaire da cartola e Olavo defendia o legado cristão, eu estava errado. Ou seja, Olavo tem razão.

Com o tempo - e trocando o café por um uísque - fui me sentindo mais à vontade para tecer algumas críticas também. Falei da imagem de vaidoso que formei dele, talvez bem equivocada, e reclamei que ele descia demais o nível dos ataques pessoais muitas vezes. Minha mulher foi testemunha que minha jugular saltava quando eu rebatia alguns desses ataques, lá nos idos do Orkut, já tarde da noite. Mas pode ser estilo, tática. Olavo admitiu que julga a maturidade de alguém pela capacidade de lidar com o deboche. Gargalhamos com o Rodrigo Cocô Instantâneo, e ainda brinquei que o Constinha seria, então, o cocozinho. Minha mulher não achou tanta graça assim, mas cedeu diante da bobeira masculina.

Mencionamos nomes de pessoas que admiramos em comum, como o saudoso embaixador Meira Penna, o querido Percival Puggina, Flavio Morgensten, Paulo Briguet, entre outros. Mostrei a Olavo um email que enviei a Puggina em 2017, com um texto meu sobre Chesterton e o legado cristão, com esses dizeres: "Aquele seguidor meio fanático de Ayn Rand não existe mais, faz tempo. Aproveito para dizer que a postura de certos conservadores de boa estirpe, como a sua, sempre mostraram uma sabedoria e paciência que admiro. Sabem reconhecer um anseio dos mais jovens por respostas simplistas, e dar tempo ao tempo. O amadurecimento normalmente ocorre. Mas nem sempre, claro".

Puggina se disse comovido, e mergulhamos ali num debate sobre a importância de estilos diferentes, cada um com sua função. Puggina sempre foi muito educado comigo, e Olavo era o ranzinza que puxava a orelha, o tio chato que xinga e coloca o dedo na ferida. Mas ambos, certamente, contribuíram para esse amadurecimento - assim espero. O libertário ateu virou um liberal conservador, com respeito pelas tradições, pelo legado cristão e pelo incognoscível divino.

O tempo passou tão rápido que nem sentimos, e já era hora de pegar o voo de volta para Miami. Nos despedimos, prometendo um retorno em breve - não tinha a esperança de que o professor trocasse o aconchego de Richmond para uma visita à aprazível Weston. No caminho, comentei com minha mulher que chegava a ser engraçado tanta rixa nossa em público, mas um visível respeito mútuo sincero, apesar de tudo - ou seria por causa disso tudo?

Quando cheguei em casa, dei-me conta de que tudo não passou de uma ilusão. Esse encontro, infelizmente, jamais aconteceu. Havia a intenção, revelada à esposa. Mas temos esse péssimo hábito de ir postergando, partindo da premissa de que sempre teremos tempo. Ah, o tempo! Ele passa, e rápido. E hoje fica apenas essa saudade do encontro que não tive com o professor Olavo.

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