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Sempre admirei muito a coragem do juiz Sergio Moro à frente das importantes prisões da operação Lava-Jato, e nunca escondi isso. Cheguei a considera-lo um herói nacional, pelo grau de sacrifício pessoal exigido em tais decisões. Alguns colegas repetiam que ele não fez mais do que sua obrigação, desmerecendo o heroísmo, mas prefiro enxergar virtudes raras onde elas existem.

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Como ministro da Segurança e da Justiça, também vi muitos méritos na atuação de Moro. Os dados falam por si só: a redução de mais de 20% na taxa de homicídios no primeiro ano de governo teve o dedo do ministro sim, com aval do presidente, seu chefe. Moro simbolizava esse combate à criminalidade e à corrupção no governo, o lava-jatismo, e sempre disse que este era mais forte do que o bolsonarismo.

Mas as coisas começaram a mudar com a saída de Moro, mais pela forma do que pelo fato em si de sair. Em meio a uma pandemia, tomar uma decisão drástica dessas era sinal, para mim e outros milhões de brasileiros, de que ele soube de coisas inaceitáveis, de crimes terríveis cometidos pelo presidente. Não foi bem isso...

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Após acompanhar na íntegra a tal reunião ministerial que o próprio Moro desejou tornar pública, vimos um presidente duro com seus ministros, cobrando mais unidade, parceria na defesa do governo, informações corretas, e alinhamento com a pauta vencedora nas urnas. Moro estava desconfortável o tempo todo, sentindo-se atingido, mas não há razão tão objetiva para tanto.

O que percebemos é que o ex-ministro utilizou muito mais motivos pessoais, subjetivos, para sair. Não estava satisfeito com o "empenho" do presidente no combate à corrupção, e deu como exemplo o projeto de lei anticrime. Moro parece ignorar que há uma distância entre o quadro técnico e o político, e que a política não é o local mais adequado para utopias perfeccionistas.

Bolsonaro tampouco endossa integralmente as agendas de seu Posto Ipiranga na economia, e nem por isso Paulo Guedes abandonou o barco em meio a uma pandemia, o que só serviria para prejudicar o país. Românticos e ingênuos idealistas não deveriam ingressar na vida política, pois ali o ótimo é inimigo do bom e do possível.

Moro não viu na reunião espaço para o contraditório, e ainda mencionou o caso do armamento. Mas essa foi a visão vencedora nas urnas! E o presidente nunca escondeu isso. Ao contrário: o que o vídeo expôs foi o lado genuíno e sincero do governo, sem máscaras, sem filtro politicamente correto quando se dirige ao público.

Mas Moro resolveu pular fora mesmo assim, inconformado em ver o presidente disposto a usar sua prerrogativa legal para interferir nos ministérios todos, e inclusive apontar cargos que são, do ponto de vista legal, de sua alçada. Moro preferiu dar entrevista ao Fantástico, o programa mais sensacionalista da emissora claramente opositora do governo. Diz que trouxe "verdades inconvenientes", como "falta de apoio à agenda anticorrupção" ou "alianças políticas duvidosas".

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Com isso, Moro se mostra claramente um político adversário do presidente. Na entrevista, ele citou a saída de Mandetta como grande decepção, ele que era um político que vinha usando a pandemia como palanque. Condenou a bandeira do armamento da população ordeira, algo que Bolsonaro sempre defendeu. Ou seja, Moro "tucanou", eis o fato.

Alguns bolsonaristas, com visão tribal maniqueísta, precisam pintar Moro como traidor ou cuspir em sua trajetória. Não é justo. Moro tem um legado importante, e saiu por suas razões pessoais, talvez por um idealismo purista demais para a polícia nacional. Mas é legítimo se mostrar decepcionado com sua postura, principalmente agora que está bem mais politizada.

Moro tem agido mais como Mandetta do que como Nelson Teich, que demonstrou maior elegância e talvez espírito público. E em vez de se mostrar simpático demais à emissora que vem tentando derrubar o presidente, deveria ter aprendido com Teich também como retrucar o veneno midiático:

Esse foi apenas um trecho em que Nelson Teich enquadrou os entrevistadores, que pareciam buscar desesperadamente alguma intriga entre o ex-ministro e o presidente. Talvez a passagem pelo governo Bolsonaro garanta uma dose extra de estamina, de testosterona. Mas não para todos. Moro, pelo visto, preferiu falar manso com a mídia que detona de forma injusta o governo. Isso diz muito sobre o lado que escolheu na política. A decepção não é só minha, e sim de milhões de patriotas...

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