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O senador Davi Alcolumbre justificou ao Supremo Tribunal Federal, após provocação do senador Alessandro Vieira, que a demora para a sabatina de André Mendonça acontece por falta de consenso sobre a aprovação de seu nome. Oi? Mas não serve justamente para isso a sabatina? Ou só pode ser sabatinado para ver se é ou não aprovado quem já tem consenso garantido para ser aprovado?

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A desculpa é esfarrapada, e todos sabem que Alcolumbre prefere outro nome e usa a demora na CCJ para retaliar o Presidente Bolsonaro. Este, por sua vez, segue seguro de que Mendonça será aprovado, e repete o aspecto crucial de sua indicação: é alguém terrivelmente evangélico, conforme havia prometido. Esse discurso tem gerado reações e a lembrança de que o estado é laico.

De fato, o estado é laico, e o critério de escolha de um juiz constitucional não deveria ser a sua religiosidade. Bolsonaro pode estar simplesmente jogando para sua plateia, ganhando dividendos políticos com seus eleitores. Um juiz tem de ser um juiz, ou seja, alguém que coloca as leis acima de suas preferências pessoais. Afinal, ele não está lá para "empurrar a história" na direção que ele considera certa.

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Claro que a imprensa tem batido muito nessa tecla. Mas aqui ela, em geral, expõe seu duplo padrão também. Não houve grita quando Lula quis escolher alguém negro, e cor da pele tampouco deveria ser critério de escolha para o STF. Idem para quando a escolha visava colocar uma mulher no Supremo. O gênero não deveria importar.

Além disso, pode haver uma explicação razoável para se desejar alguém "terrivelmente evangélico", além da eleitoral: um crente cristão costuma ser mais humilde, se for crente verdadeiro, pois sabe que existe uma régua moral superior, acima dos homens, e que não cabe ao ser humano tentar usurpar o papel divino. O crente não é um revolucionário ungido que quer empurrar a história com seu ativismo, em suma.

Nietzsche anunciou a "morte" de Deus, e Dostoiévski, por sua vez, lembrou que se Deus está morto, então tudo é possível. Sem a bússola moral superior, vale tudo, resta o relativismo e o niilismo. Os jacobinos transformaram Notre Dame no "templo da razão" com base nessa visão arrogante, digna de um Prometeu que deseja roubar o fogo dos deuses.

O estado é laico, mas não é antirreligioso, ainda mais no Ocidente, no Brasil cristão. E quem costuma puxar da cartola a ideia do estado laico ignora que a religião secular e política, ou seja, a ideologia, pode ser a mais perigosa de todas. Seres "iluminados" que buscam monopolizar a fala em nome da razão e da ciência normalmente são os que mais ameaçam a ordem e as instituições.

Os ideólogos querem que os crentes guardem suas crenças espirituais apenas para o foro íntimo, mas é impossível deixar de fora do debate sobre a coisa pública os nossos valores mais elevados e essenciais. Como debater sobre aborto, por exemplo, sem levar em conta a premissa sobre a sacralidade da vida humana? De onde os moderninhos acham que veio a Declaração Universal dos Direitos do Homem? E o movimento abolicionista, será que sabem que foi um ato religioso, iniciado pelos quakers britânicos, cristãos que reforçavam que todos somos iguais perante Deus?

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Não foram poucos os pensadores importantes que enxergaram os pilares da liberdade ocidental como indissociáveis do cristianismo. Tocqueville foi um deles, entre tantos outros. Os pais fundadores da América estavam seguros de que a república que criavam não sobreviveria numa sociedade sem os valores cristãos.

A tendência que temos observado, portanto, representa uma ameaça ao próprio legado ocidental. Querem ter o efeito sem a causa. Acham que podem preservar o individualismo e a igualdade sem aquilo que colocou o foco no indivíduo e destacou que todos somos iguais diante de Deus. Confundem estado laico com antirreligioso, e na verdade não toleram a concorrência do cristianismo, pois a ideologia totalitária "progressista", assim como seu antecessor comunismo, demanda a destruição da fé em Cristo. É preciso, afinal, colocar em seu lugar a "fé no deus estado".