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Balneário Piçarras

Cidade de 27 mil habitantes fica à frente de Balneário Camboriú na busca por imóveis de alto padrão

Balneário Piçarras ficou à frente de Itapema e de Balneário Camboriú na procura por imóveis de alto padrão no primeiro trimestre de 2026
Balneário Piçarras ficou à frente de Itapema e de Balneário Camboriú na procura por imóveis de alto padrão no primeiro trimestre de 2026. (Foto: José Santos/Prefeitura de Balneário Piçarras)

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Balneário Piçarras, município de cerca de 27 mil habitantes no litoral norte de Santa Catarina, ficou à frente de Itapema e de Balneário Camboriú na procura por imóveis de alto padrão no primeiro trimestre de 2026. A cidade aparece na 41ª posição nacional do Índice de Demanda Imobiliária (IDI Brasil), enquanto Itapema ocupa a 51ª e Balneário Camboriú, a 60ª — uma inversão de hierarquia entre municípios separados por menos de 50 quilômetros de BR-101.

O índice é produzido pelo Ecossistema Sienge, por meio da plataforma CV CRM, com metodologia do Grupo Prospecta e parceria institucional da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Ele mede intenção de compra, e não tamanho de mercado: Piçarras não passou a lançar mais, nem a vender mais caro que as vizinhas.

O que o recorte capta é interesse relativo dentro de um segmento específico, o de compradores com renda acima de R$ 24 mil e imóveis a partir de R$ 811 mil. É justamente aí que a distância entre as três cidades encolheu.

Como Piçarras passa a disputar comprador

Durante duas décadas, quem buscava alto padrão na região tratava Balneário Camboriú e Itapema como resposta automática. O avanço dos preços e da verticalização nesses dois mercados empurrou parte da procura para cidades em estágio anterior de ocupação e Piçarras, com orla ainda pouco adensada e projetos novos, entrou na conta.

"Piçarras deixou de ser uma opção periférica e passou a fazer parte da primeira rodada de análise de muitos compradores", afirma Laurício Leal, sócio-proprietário da Imobille, uma das maiores imobiliárias do litoral norte catarinense. Segundo ele, a cidade aparece tanto como escolha inicial de quem procura um ambiente mais tranquilo quanto como destino que ganha protagonismo durante a comparação com Itapema, Balneário Camboriú, Itajaí e praias do Paraná.

O perfil observado na carteira da imobiliária ajuda a explicar por que a procura não se comporta como demanda de veraneio. Um perfil de compradores identificado concentra-se entre moradores de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e do Centro-Oeste brasileiro, na faixa dos 35 aos 60 anos, em boa parte proprietários de outros imóveis.

"A segunda residência continua muito forte, mas moradia definitiva e investimento vêm ganhando participação de forma consistente", avalia o corretor, que atribui o movimento ao trabalho remoto e à melhora da infraestrutura regional. Essa procura mais permanente altera o que se constrói na cidade e o resultado começa a aparecer nas obras entregues.

The Wave, da Vetter Empreendimentos, tem 48 unidades em 19 pavimentos, com 11,2 mil metros quadrados de área construídaThe Wave, da Vetter Empreendimentos, tem 48 unidades em 19 pavimentos, com 11,2 mil metros quadrados de área construída. (Foto: Divulgação/Vetter Empreendimentos)

Um caso recente é o The Wave, da Vetter Empreendimentos, entregue em maio no bairro Itacolomi. São 48 unidades em 19 pavimentos, 11,2 mil metros quadrados de área construída e plantas de três suítes que chegam a 170,90 m² de área privativa.

Segundo a incorporadora, o empreendimento tem Valor Geral de Vendas (VGV) de R$ 84,7 milhões, foi comercializado integralmente e acumula valorização média anual de 20,4% desde o lançamento, no terceiro trimestre de 2021. Os dados são da própria empresa e não constam do índice.

"O comprador entendeu que a cidade reúne localização, infraestrutura, proximidade do mar e uma margem de valorização relevante quando comparada a mercados vizinhos mais consolidados", afirma Maicon Oliveira, sócio e diretor comercial e de operações da Vetter. O prédio foi entregue com infraestrutura para carros elétricos nas garagens e estação de recarga para scooters, item que, segundo o executivo, deixou de ser diferencial no segmento.

Para urbanista, o crescimento exige infraestrutura

Na leitura do arquiteto e urbanista Carlos Vinicius Bortolato, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da UniAvan, o desempenho de Piçarras no índice decorre menos de uma vantagem competitiva do que do estágio em que a cidade se encontra. Ele aponta que Balneário Camboriú é o mercado mais maduro da região, e Itapema já opera em patamar semelhante de preço e ocupação; Piçarras ainda dispõe de área de expansão.

"A questão imobiliária acelerou esse processo de amadurecimento", avalia. O urbanista situa o início do movimento como recente, entre 10 e 15 anos atrás, quando a cidade cumpria para Itapema o mesmo papel que Itapema cumpriu para Balneário Camboriú: alternativa de preço.

A diferença, agora, é que o volume de investimento privado pressiona o poder público a acompanhar em pavimentação, saneamento, saúde e educação. "O poder público tem que estar muito atento, porque a velocidade da expansão urbana é rápida", alerta.

A transformação, diz ele, é imperceptível para quem mora e brutal para quem retorna à cidade duas vezes por ano. Bortolato cita como exemplo o bairro Morretes, em Itapema, onde a prefeitura conclui só agora a rede de esgoto de uma área que já foi verticalizada.

Para o arquiteto e urbanista, o sinal considerado decisivo em municípios pequenos que passam a atrair alto padrão não é o preço do metro quadrado, mas o equipamento urbano: escola, rede de saúde, mobilidade e drenagem capazes de atender tanto o morador antigo quanto o novo. Na região entre Itajaí e Balneário Camboriú, observa ele, o adensamento de renda já começou a puxar investimento privado em saúde, um tipo de serviço que Piçarras ainda não concentra.

O próprio mercado admite que o ciclo não está fechado. "Piçarras já consolidou sua presença no mapa do alto padrão, mas ainda está em processo de consolidação como mercado", pondera Laurício Leal. É esse intervalo, entre a demanda que o índice já registra e a cidade que ainda precisa ser construída, que os próximos trimestres devem medir.

Prefeitura diz que crescimento está atrelado a contrapartidas

Para o município, a avaliação é que o avanço de Balneário Piçarras no mercado imobiliário já era previsto quando o atual Plano Diretor foi ajustado, em 2020. Segundo o secretário de Planejamento Urbano, Rodrigo Meirinho Morimoto, a norma buscou ordenar uma procura que vinha de construtoras e investidores de cidades como Balneário Camboriú, Itajaí, Joinville, Blumenau e Jaraguá do Sul.

Ele explica que a estratégia é condicionar novos empreendimentos à capacidade da cidade de absorver o crescimento. “Nós gostaríamos que as construtoras não usassem a cidade como um balcão de mercado de negócio, mas ajudassem a construir a cidade”, diz. Segundo Morimoto, estudos de impacto de vizinhança passaram a orientar exigências de infraestrutura aos projetos de maior porte, especialmente em drenagem, pavimentação e mobilidade.

Na prática, quando a rede existente não comporta a nova demanda, o empreendedor pode ser obrigado a ampliar tubulações, refazer a pavimentação e executar intervenções antes de obter o habite-se. “Se não fizer isso, o habite-se do empreendimento não vai sair”, afirma o secretário.

Morimoto diz que cerca de 30% do território do município é atendido por rede coletora de esgoto — justamente a área que concentra os maiores empreendimentos — e cita também a estrutura de abastecimento de água como um diferencial da cidade. A prefeitura prepara ainda projetos para duas novas conexões sobre o Rio Piçarras, uma delas com elevado (via expressa que passa em cima da rodovia) no bairro Santo Antônio, para ampliar a circulação viária.

A diretriz, apontada pelo secretário municipal, não é liberar verticalização sem limite, mas ajustar a densidade à infraestrutura disponível. “A receita é buscar alinhar essa demanda do crescimento com a infraestrutura existente. Não tem a infraestrutura, quem está vindo investir vai ter que ajudar a implantar e não só vir colher”, resume.

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