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Durante décadas, uma araucária de proporções incomuns dominou a paisagem da Estação Experimental da Embrapa em Caçador, na região do meio-oeste catarinense. Com 44 metros de altura e 2,45 metros de diâmetro à altura do peito, o “pinheirão” não era apenas uma referência visual: tratava-se de um dos maiores exemplares da espécie no país e objeto permanente de interesse científico.
A queda da árvore, registrada nas últimas semanas, encerrou esse ciclo. Ao mesmo tempo, deu início a uma mobilização para tentar preservar aquilo que ela ainda pode oferecer: seu material genético. Pesquisadores da Embrapa Florestas foram acionados logo após a constatação do tombamento.
O objetivo era avaliar se ainda havia tecidos viáveis para clonagem, um procedimento que pode permitir a reprodução de características raras da árvore. “O ideal é que a coleta ocorra entre cinco e dez dias após a queda. Ainda assim, encontramos brotações viáveis”, explica o pesquisador da Embrapa Florestas Ivar Wendling.

O material foi coletado na copa da árvore, região que concentra tecidos mais jovens e ativos. Paradoxalmente, o acesso só se tornou possível após a queda. “Em função da altura, a coleta seria inviável com a árvore em pé”, explica Paulo César, bolsista da equipe.
As amostras foram encaminhadas para enxertia em laboratório. O processo deve levar cerca de cem dias até a confirmação de sucesso. Caso seja bem-sucedido, permitirá preservar o patrimônio genético de um exemplar considerado fora do padrão da espécie.
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Apesar da relevância científica, a idade do "pinheirão" nunca pôde ser determinada com precisão. O tronco oco impediu a aplicação da dendrocronologia, método baseado na contagem dos anéis de crescimento.
Em condições normais, a técnica utiliza amostras retiradas do tronco com o uso de um trado, na altura de 1,3 metro do solo, padrão internacional conhecido como DAP. Em árvores caídas, a análise pode ser feita com discos do tronco.
No caso do "pinheirão", os pesquisadores devem coletar um disco a cerca de cinco metros de altura, onde a madeira ainda está preservada. O resultado indicará apenas uma idade mínima, já que os primeiros anos de crescimento não estarão registrados nesse trecho.

Ainda assim, os especialistas apontam que o porte da árvore sugere um desenvolvimento ao longo de muitas décadas, possivelmente séculos. O gerente da Estação Experimental da Epagri em Caçador, Anderson Feltrim, explica que a mobilização atual não reflete apenas o valor científico, mas também o vínculo construído ao longo dos anos.
Isso porque desde o início dos anos 2000 a presença do "pinheirão" funcionava como um marco dentro de uma área voltada ao estudo da Floresta Ombrófila Mista, integrando a rotina de pesquisas conduzidas na estação experimental. O exemplar era frequentemente visitado por equipes técnicas e delegações internacionais.
Instituições como a FAO, a Universidade Politécnica de Madri, centros de pesquisa da Costa Rica e organizações canadenses incluíam a árvore em suas agendas. O interesse extrapolava a ciência.
Em novembro de 2025, o fotógrafo Zé Paiva e o cinegrafista Gustavo Fonseca registraram a árvore para o projeto “Reinvenção da Natureza”, do Sesc. As imagens, produzidas poucos meses antes da queda, devem integrar uma exposição prevista para este ano. “Há uma sensação forte de termos sido os últimos a documentá-la em pé”, diz Paiva.
Árvores gigantes sob pressão
A queda do "pinheirão" ocorre em um contexto mais amplo de aumento da vulnerabilidade de árvores de grande porte no Sul do Brasil. Estudo recente coordenado pelo professor Marcelo Scipioni, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), aponta que eventos de chuva extrema têm desempenhado papel central nesse processo.
“O fator determinante não é o vento, mas a saturação do solo, que compromete a ancoragem das raízes”, explica ele. Segundo o levantamento, episódios associados ao El Niño elevam o volume de precipitação e tornam o solo, especialmente o argiloso, menos estável.
Árvores de grande porte, com copas amplas e elevado peso, tornam-se mais suscetíveis ao tombamento nessas condições. O estudo também integra um esforço de mapeamento de árvores gigantes no Sul do país.
Coordenada por Scipioni, a iniciativa identifica exemplares com mais de 1,5 metro de diâmetro, que são cada vez mais raros, e contribui para estratégias de conservação. Entre a ciência e a memória, o desafio agora é garantir que histórias como a do "pinheirão" não se tornem apenas registro.













