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A coronel Glauce Anselmo Cavalli tomou posse nesta quarta-feira (29) como comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, tornando-se a primeira mulher a ocupar o posto em quase 200 anos de corporação.
A cerimônia na Academia do Barro Branco foi conduzida pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que exaltou a trajetória da nova comandante e atribuiu a ela a missão de combater o feminicídio e melhorar a sensação de segurança no estado.
O que o discurso oficial não explica é o que motivou, de fato, a saída do coronel José Augusto Coutinho — e por que essa é a terceira troca de comando da PM numa gestão que ainda não terminou.
Tarcísio acumula três comandos da PM em menos de quatro anos
Em São Paulo, há um certo padrão: governadores costumam fazer, no máximo, duas trocas no comando da PM durante um mandato. Tarcísio de Freitas, com três anos e quatro meses de governo, vai para a terceira.
As duas primeiras trocas têm explicação mais direta: a saída do coronel Cássio Araújo de Freitas ocorreu quando Guilherme Derrite assumiu a Secretaria da Segurança Pública, em 2023, e a entrada de Coutinho acompanhou uma reorganização do primeiro escalão.
A terceira troca, porém, é que concentra os bastidores considerados mais relevantes. O coronel Coutinho está sob investigação do Ministério Público por suposta omissão em caso envolvendo policiais militares com ligações com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
Com a investigação em andamento e o risco de o caso ganhar mais reverberação, o governo paulista teria optado por antecipar a saída. A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com o coronel Coutinho e com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, mas não obteve resposta até esta publicação. O espaço para manifestação segue aberto.
Do ponto de vista institucional, a troca responde a outro ruído acumulado: o perfil mais ostensivo do comando anterior havia gerado desgaste público após uma série de casos de violência policial.
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A escolha de Glauce e o que ela representa dentro da PM
A nova comandante da PM de São Paulo assume uma corporação com mais de 81 mil integrantes, que recebeu 2,5 mil viaturas novas e formou quase 10 mil policiais desde 2023. Segundo dados da corporação, são 11.620 policiais femininas, com ampliação progressiva da participação das mulheres nos seus quadros.
A própria Glauce, em discurso de posse, sinalizou que o enfrentamento à violência doméstica será prioridade, com cabines lilases nos centros de operações, atendimento por videochamadas e abertura dos quartéis para acolhimento de vítimas em todo o estado.
A escolha de uma mulher para comandar a PM em ano eleitoral, com os índices de feminicídio em alta e a oposição atacando a gestão paulista nessa frente é também um movimento estratégico. Para o delegado André Santos Pereira, presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Adpesp), reduzir a escolha ao simbolismo seria um equívoco. "Não se pode simplificar a nomeação de uma mulher para um cargo de liderança pelo simples fato de ela ser mulher. O que conta é a qualificação, a história, a competência", diz.
"Eu arriscaria dizer que a Polícia Militar agora tem grandes chances de enxergar um novo horizonte", afirma o especialista em segurança pública Ronaldo Marzagão, que avalia ser este o nome de melhor reputação no comando desde o início do governo de João Doria (PSDB), em 2019.
"É a primeira pessoa no comando de quem se pode dizer isso com certeza — que é correta e honesta. A Polícia Militar estava precisando demais disso", complementa ele.
A troca ocorre num momento de tensão na relação entre o governo e os policiais. Tarcísio de Freitas prometeu, durante a campanha eleitoral de 2022, colocar a PM paulista entre as três melhores remunerações do país. De acordo com entidades representativas da corporação, o reajuste linear de 10% concedido no fim do ano passado, embora significativo, ficou aquém do prometido.
Quem é Glauce — e o que se espera dela
Com 33 anos de carreira e 32 condecorações — entre elas a Medalha Brigadeiro Tobias, a mais alta honraria da corporação —, a coronel Glauce Cavalli chegou ao posto mais alto da PM por uma trajetória que combina comando operacional e gestão estratégica.
Chefiou o Comando de Policiamento de Área Metropolitana Sudoeste (CPA/M-2), responsável pelo policiamento de uma das regiões mais densamente populosas da capital, dirigiu a Diretoria de Logística e a Diretoria de Finanças, e comandou o Centro de Comunicação Social da PM. É mestre e doutora em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, além de graduada em Direito e em Educação Física.
Ex-secretário nacional, o coronel José Vicente aponta que Glauce quebra uma sequência de comandantes oriundos das forças de choque — e que a expertise administrativa é um dos ativos mais relevantes da gestão que se inicia. O coronel José Eduardo Bexiga, vice-presidente institucional da Associação dos Oficiais da Polícia Militar, concorda.
"A especialização dela em gestão é algo admirável. A parte administrativa da polícia vai dar um salto com ela — na eficiência de compras, de equipamentos, de alocação de pessoal e de treinamento", acredita.
Bexiga acrescenta que o perfil da comandante tende a se refletir no trato com o efetivo: "A gente observou em muitas unidades que, quando uma mulher comanda, há uma visão mais humanizada, mais cuidadosa com as pessoas — sem que isso mude nada no trabalho policial em si."
Para o coronel José Vicente, a continuidade do trabalho depende de um fator simples: tempo. "Para fazer valer as mudanças necessárias, é preciso ficar pelo menos dois anos no comando", avalia.












