
Ouça este conteúdo
A ideia de que o ômega-3 protege contra Alzheimer ganhou força nos últimos anos, impulsionada por pesquisas que associavam o consumo do nutriente a um menor risco de desenvolver a doença.
Mas um novo estudo clínico publicado na revista científica EBioMedicine coloca um freio nessa expectativa: apesar de aumentar os níveis de DHA, principal ácido graxo ômega-3 presente no cérebro, a suplementação não melhorou a memória, a cognição e nem reduziu a perda de volume cerebral em idosos com maior risco de demência.
Os achados não invalidam os benefícios do ômega-3 para a saúde cerebral. Eles apenas sugerem que, até o momento, não há evidências de que a suplementação isolada do nutriente seja eficaz para prevenir a doença de Alzheimer.
O neurologista Philipe Cunha, da Afya Educação Médica Curitiba, explica que o estudo ajuda a esclarecer uma dúvida antiga da ciência.
"As evidências são mistas. Estudos observacionais sugerem que uma alimentação rica em ômega-3, especialmente em DHA, pode estar associada a uma redução aproximada de 20% no risco de Alzheimer. Já os ensaios clínicos randomizados, considerados o padrão-ouro da pesquisa científica, vêm apresentando resultados inconsistentes", explica.
VEJA TAMBÉM:
Estudo testa efeito do ômega-3 na prevenção do Alzheimer
O estudo acompanhou, durante dois anos, 365 adultos entre 55 e 80 anos que consumiam pouca quantidade de peixe e apresentavam pelo menos um fator de risco para demência. Os participantes foram divididos aleatoriamente para receber 2 gramas diárias de DHA ou um placebo, sem saber qual tratamento estavam utilizando.
Cerca de metade dos voluntários também era portadora da variante genética APOE4, considerada o principal fator hereditário de risco para o desenvolvimento da doença de Alzheimer.
Após seis meses, os pesquisadores confirmaram que o DHA havia chegado ao sistema nervoso central, com aumento de cerca de 17% da concentração do nutriente no líquido cefalorraquidiano.
Ainda assim, ao final dos 24 meses, não foram observadas diferenças entre os grupos nos testes de memória, desempenho cognitivo ou preservação do hipocampo, região cerebral fundamental para a formação das lembranças.
O que explica a falta de efeito do DHA no cérebro?
Para Philipe Cunha, um dos aspectos mais importantes do estudo foi justamente demonstrar que aumentar a quantidade de DHA no cérebro não significa, necessariamente, obter benefícios clínicos.
"O estudo mostrou que houve o chamado 'engajamento do alvo' bioquímico. O DHA realmente chegou ao cérebro, mas isso não se traduziu em melhora cognitiva ou em menor atrofia cerebral", afirma.
Segundo ele, a hipótese levantada pelos próprios pesquisadores é que a questão talvez não esteja na quantidade de DHA disponível, mas na forma como o cérebro consegue metabolizar e utilizar essa gordura.
"O problema pode não ser levar mais DHA ao cérebro, mas entender como esse nutriente é utilizado pelas células nervosas. Por isso, os próximos estudos devem investigar o metabolismo cerebral do DHA, e não apenas aumentar sua concentração", completa.
Qual o papel do gene APOE4 nos resultados?
Os resultados também foram semelhantes entre pessoas com e sem o gene APOE4, responsável pelo principal risco genético conhecido para Alzheimer.
Ter uma cópia desse alelo aumenta em cerca de três a quatro vezes a probabilidade de desenvolver a doença, enquanto duas cópias elevam esse risco para até 15 vezes. Ainda assim, o neurologista ressalta que possuir essa característica genética não significa que a pessoa inevitavelmente desenvolverá Alzheimer.

Suplemento não substitui alimentação e hábitos saudáveis
Apesar das conclusões do novo estudo clínico, especialistas afirmam que ele não invalida pesquisas anteriores que relacionam ômega-3 e Alzheimer.
A principal diferença está na forma de obtenção do nutriente. Enquanto muitos estudos observacionais apontam benefícios do consumo regular de peixes gordurosos, como salmão, sardinha e cavala, os resultados com suplemento de ômega-3 têm sido muito menos consistentes.
"O peixe oferece não apenas DHA e EPA, mas também proteínas, vitamina D, selênio e diversos outros nutrientes que atuam em conjunto. É diferente de consumir apenas um componente isolado", explica Cunha.
Quem ainda pode se beneficiar da suplementação?
Segundo o neurologista, algumas populações ainda podem se beneficiar da suplementação, como:
- pessoas com baixos níveis sanguíneos de ômega-3;
- mulheres, que apresentaram resultados favoráveis em alguns ensaios clínicos;
- indivíduos que iniciam o uso antes do surgimento de qualquer declínio cognitivo.
Hoje, os fatores que apresentam maior respaldo científico para a prevenção do Alzheimer continuam sendo os hábitos de vida.
Não fumar, praticar atividade física regularmente, manter alimentação equilibrada, especialmente padrões como a dieta mediterrânea, dormir bem, controlar pressão arterial, colesterol e diabetes e estimular continuamente a atividade intelectual estão entre as medidas mais eficazes.
"Pessoas que conseguem manter quatro ou cinco desses comportamentos saudáveis apresentam redução de aproximadamente 60% no risco de desenvolver Alzheimer. Esses benefícios, inclusive, permanecem mesmo entre portadores do gene APOE4", conclui o neurologista.
Assim, embora o ômega-3 continue sendo um nutriente importante para a saúde cerebral, o novo estudo reforça que não há evidências suficientes para recomendar a suplementação como estratégia isolada de prevenção da doença. O consenso atual aponta que a proteção do cérebro depende muito mais de um conjunto de hábitos saudáveis do que de uma única cápsula.



