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Inteligência Artificial

Remédio descoberto com IA pode reduzir sinais de envelhecimento, mostra estudo

O efeito observado nos pacientes reacende uma questão que a ciência ainda tenta responder: é possível interferir nos mecanismos do envelhecimento?
O efeito observado nos pacientes reacende uma questão que a ciência ainda tenta responder: é possível interferir nos mecanismos do envelhecimento? (Foto: Gizem Nikomedi/Unsplash)

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Um medicamento experimental desenvolvido com auxílio de inteligência artificial (IA) apresentou um resultado que chamou a atenção de pesquisadores que estudam o envelhecimento. O rentosertib, criado inicialmente para tratar a fibrose pulmonar idiopática, foi associado a uma redução da idade biológica prevista dos pacientes em seis diferentes modelos de avaliação.

Os resultados aparecem em um estudo publicado na Nature Biotechnology, que analisou dados de uma pesquisa clínica de fase 2a. Embora os sinais sejam considerados promissores, os próprios pesquisadores ressaltam que o trabalho ainda não demonstra que o medicamento seja capaz de reverter o envelhecimento ou prolongar a vida.

Como a IA ajudou a desenvolver o medicamento que ajuda a reverter marcadores do envelhecimento?

O rentosertib é um inibidor da proteína TNIK e foi desenvolvido com participação de ferramentas de IA usadas para identificar alvos biológicos e projetar moléculas capazes de atuar sobre eles. A estratégia adotada pela empresa Insilico Medicine buscou desde o início encontrar uma molécula que pudesse ter aplicações tanto contra a fibrose pulmonar quanto em mecanismos associados ao envelhecimento.

A análise de milhares de proteínas ajudou os pesquisadores a identificar mudanças associadas à idade biológica durante o tratamento.A análise de milhares de proteínas ajudou os pesquisadores a identificar mudanças associadas à idade biológica durante o tratamento. (Foto: Unsplash)

Em entrevista ao The New York Times, Alex Zhavoronkov, fundador da Insilico e um dos autores do estudo, comparou o processo a “escanear uma fechadura e gerar uma chave que se encaixe nela”. A analogia resume o uso da IA para identificar estruturas e combinações moleculares com potencial terapêutico.

Quantas pessoas participaram do estudo do rentosertib?

A pesquisa clínica que originou os dados foi conduzida entre 2023 e 2024, com pacientes diagnosticados com fibrose pulmonar idiopática. O estudo completo envolveu 71 participantes, mas a análise relacionada ao envelhecimento utilizou amostras de sangue de 42 deles.

Os pesquisadores acompanharam as alterações nas proteínas presentes no sangue ao longo de 12 semanas.

"Relógios biológicos" estimaram queda de até seis anos

Para avaliar possíveis mudanças relacionadas ao envelhecimento, os cientistas utilizaram seis “relógios” de idade biológica baseados no proteoma, conjunto de proteínas presentes no sangue. Esses modelos usam diferentes padrões de proteínas para estimar a idade biológica de uma pessoa, que não necessariamente coincide com sua idade cronológica.

Os seis relógios apontaram de forma consistente para uma redução da idade biológica prevista entre os pacientes tratados com rentosertib. O efeito foi mais evidente na quarta semana, especialmente entre os participantes que receberam 30 miligramas do medicamento duas vezes ao dia.

Em diferentes modelos, a redução estimada ficou em torno de três a quatro anos. Em um dos relógios, chegou a aproximadamente seis anos.

Quais proteínas mudaram após o tratamento?

A análise também identificou mudanças importantes no conjunto de proteínas do sangue. Dos 2.841 marcadores avaliados, 326 apresentaram alterações significativas nos pacientes tratados, enquanto apenas dois tiveram mudanças semelhantes no grupo placebo.

Alterações moleculares ajudam a explicar por que pessoas da mesma idade cronológica podem apresentar ritmos diferentes de envelhecimento.Alterações moleculares ajudam a explicar por que pessoas da mesma idade cronológica podem apresentar ritmos diferentes de envelhecimento. (Foto: Unsplash)

Para os autores, parte dessas alterações pode estar relacionada a processos envolvidos em senescência celular e metabolismo, além da própria ação contra a fibrose.

O resultado chamou a atenção de outros pesquisadores. Vadim Gladyshev, professor da Harvard Medical School que participou do desenvolvimento de um dos relógios utilizados no trabalho, afirmou ao The New York Times: “Este é o primeiro estudo que mostra, de forma muito clara, que a idade biológica prevista pode ser reduzida.”

Resultado, no entanto, não significa rejuvenescimento

Apesar da redução observada nos relógios, os dados não permitem afirmar que os pacientes tenham efetivamente rejuvenescido. Os modelos medem alterações em biomarcadores associados à idade, e não uma redução comprovada da idade dos tecidos ou um aumento da expectativa de vida.

Essa é uma das principais limitações do estudo. Como todos os participantes tinham fibrose pulmonar idiopática, não é possível saber se as mudanças identificadas representam uma ação direta sobre os mecanismos do envelhecimento ou se são consequência da melhora da doença provocada pelo medicamento.

Os próprios autores afirmam que os relógios proteômicos, isoladamente, não conseguem separar completamente esses dois efeitos.

Além disso, trata-se de uma análise pequena, com apenas 42 pessoas, e o acompanhamento durou 12 semanas. Os pesquisadores também precisam verificar se os resultados se repetem em pessoas saudáveis e se as mudanças nos marcadores permanecem por períodos mais longos.

Eric Topol, cardiologista e pesquisador que acompanha estudos sobre longevidade, resumiu a cautela necessária em entrevista ao The New York Times: “O medicamento parece promissor, mas ainda não temos um ensaio definitivo para fazer o julgamento final.”

O estudo, portanto, não demonstra que o rentosertib seja um “remédio antienvelhecimento”. O que ele mostra é que um medicamento desenvolvido com auxílio de IA foi associado a alterações consistentes em marcadores usados para estimar a idade biológica.

A hipótese de que essas alterações possam representar uma interferência real no processo de envelhecimento ainda precisa ser testada.

Por que os resultados ainda não comprovam um efeito antienvelhecimento?

Para Evelyne Bischof, professora de medicina da Universidade de Tel Aviv especializada em longevidade, a metodologia empregada pode ter importância para pesquisas futuras. “Esses são métodos que usaremos em futuros ensaios”, afirmou ao The New York Times.

Antes que um medicamento desse tipo possa ser considerado uma terapia contra o envelhecimento, serão necessários estudos maiores, com acompanhamento prolongado e diferentes grupos de participantes.

Também será preciso demonstrar que a redução nos marcadores biológicos se traduz em benefícios clínicos concretos, como menor incidência de doenças relacionadas à idade, melhora funcional ou aumento da expectativa de vida.

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