• Carregando...
Mortalidade na UTI geral do Evangélico beira os 20%, segundo dados do Datasus | Hugo Harada/ Gazeta do Povo
Mortalidade na UTI geral do Evangélico beira os 20%, segundo dados do Datasus| Foto: Hugo Harada/ Gazeta do Povo

Outro lado

O Hospital Evangélico informou, via assessoria de imprensa, que não iria comentar o levantamento sobre as mortes ocorridas nas UTIs da instituição. E reforçou que a comparação com outros hospitais "não é adequada", pois cada um tem um perfil. O hospital informou ainda que uma sindicância interna tem até o fim de março para apurar eventuais irregularidades cometidas na UTI geral, que era chefiada pela médica Virgínia Helena Soares de Souza, presa há uma semana. O advogado dela, Elias Assad, afirmou que não tinha como comentar dados técnicos, mas que oportunamente falará sobre o assunto.

Habeas Corpus

O desembargador Antônio Loyola Vieira, da 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Paraná, analisa o pedido de habeas corpus de três das cinco pessoas presas por suspeita de participação em supostas mortes ocorridas na UTI geral do Hospital Evangélico. Os pedidos são da médica Virgínia Helena Soares de Souza e dos médicos Anderson de Freitas e Edison Anselmo da Silva Júnior. Segundo o advogado Elias Mattar Assad, o inquérito contém muitos erros, como degravações incorretas de diálogos. "Querem demonizar a médica", criticou.

  • Veja dados de atendimento em UTIs dos hospitais de referência em algumas capitais do Sul e Sudeste em 2012

O detalhamento da taxa de mortalidade na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulto do Hospital Evangélico revela que, em 2012, 60% dos pacientes internados pelo SUS morreram já nos três primeiros dias de internamento. Esse porcentual ficou bem acima do registrado por outros hospitais de referência das grandes capitais do Sul e do Sudeste: as taxas variaram entre 10% e 43%. Os dados, consultados e tabulados pela Gazeta do Povo, constam da base de dados do Departamento de Informática do SUS (Datasus).

Com essa taxa, o Evangélico recebeu mais pacientes para tratamento intensivo. Em média, cada leito dos 25 existentes na UTI adulto da instituição recebeu 105 pessoas em 2012 – número bem acima dos demais hospitais.

Apesar de as autoridades de saúde sustentarem que a comparação entre diferentes hospitais pode conter imprecisões, a reportagem selecionou instituições que também são referência em pronto-atendimento de politraumatizados e no atendimento a queimados. Foram selecionados o Hospital de Pronto Socorro (HPS) em Porto Alegre; o Hospital de Clínicas (HC) em São Paulo; o Souza Aguiar, no Rio de Janeiro; e o João XXIII, em Belo Horizonte. Também foi analisado o Hospital do Trabalhador, que recebe pacientes de emergência na capital paranaense. Os dados se referem à UTI adulto de cada instituição e englobam leitos de várias especialidades (clínicos e cirúrgicos).

De acordo com o presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), José Mário Teles, uma maneira de avaliar diferentes UTIs seria por meio do índice prognóstico – que avalia a gravidade dos pacientes internados e a taxa de mortalidade. A adoção do índice é obrigatória, de acordo com a Instrução Normativa n.º 4/2010 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (An­­visa), em vigor há três anos. "A intenção é avaliar se a qualidade do serviço é boa. No exterior é fácil ter acesso, mas não se tem essa cultura no Brasil", explicou. A UTI do Evangélico, por exemplo, não tinha relatórios sobre o índice prognóstico, de acordo com o auditor Mário Lobato da Costa, responsável pela sindicância do poder público que apura eventuais irregularidades na unidade.

Óbitos

Os dados obtidos no Da­­tasus revelam que A UTI adulto do Hospital Evangélico teve uma taxa de mortalidade de 17,4% em 2012, próxima ou inferior ao registrado em outros hospitais. A principal causa de morte foi septicemia (infecção), que vitimou 99 pessoas das 459 que faleceram. Em seguida aparece insuficiência respiratória, com 58 casos.

No HC paulista e no Souza Aguiar, a septicemia também foi a causa da maioria das mortes nas UTIs. No João XXIII e no HPS, a causa de morte mais frequente foi traumatismo intracraniano e, no Hospital do Trabalhador, doenças das cordas vocais e da laringe.

Morte rápida pode indicar falha no PS

O presidente da Associação de Medicina Intensiva Bra­­sileira (Amib), José Mário Teles, diz que a comparação dos dados sobre permanência podem diferir bastante dependendo do tipo da Unidade de Terapia Intensiva (UTI). "A UTI geral recebe pacientes graves, que podem ser clínicos ou cirúrgicos. Há as UTIs exclusivamente cirúrgicas, que recebem apenas pacientes de pós-operatório, e nessas a saída é muito rápida", explica.

Segundo ele, quando há um número elevado de mortes na UTI nos primeiros dias – que deve ser contabilizada conforme seu perfil – isso pode revelar falhas no atendimento inicial feito no pronto-socorro (PS). "A pessoa nem tem tempo de usufruir dos cuidados da UTI e acaba morrendo."

Sobre o caso específico do Hospital Evangélico, Mário Lobato, auditor do SUS, reforça que é preciso avaliar os prontuários dos pacientes. "Não dá para falar nada sobre essa mortalidade precoce sem saber em que condições eles estavam", diz. A sindicância coordenada por Lobato terá de analisar todos os prontuários desde 2006, quando a médica Virgínia Helena Soares de Souza assumiu o comando da unidade. "Não estamos usando os dados como bíblia e nem os prontuários vão comprovar algo por si só. A investigação terá de usar dados médicos, depoimentos e gravações telefônicas para eventuais comprovações", explicou.

0 COMENTÁRIO(S)
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]