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Jacy se surpreendeu com a rapidez do exame em Curitiba: esperou apenas três dias e fez a mamografia no Hospital São Vicente | Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo
Jacy se surpreendeu com a rapidez do exame em Curitiba: esperou apenas três dias e fez a mamografia no Hospital São Vicente| Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Parceria

Curitiba tem um aparelho, o resto é convênio

Apesar de Curitiba ter 11 ma­­mó­­grafos que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS), apenas um equipamento, que está no Hospital Erasto Gaertner, pertence ao município. Ele foi adquirido com verba da União há exatos dez anos e foi cedido ao hospital em troca de uma parceria: o hospital fornece a mão de obra para operá-lo, usa o equipamento e atende as pacientes pelo SUS também. Os outros dez equipamentos estão em clínicas e hospitais particulares que atendem a prefeitura por meio de convênio. "O SUS subsidia 100% dos exames e nós pagamos os convênios com este dinheiro. É a melhor escolha, pois assim conseguimos manter toda a estrutura funcionando e o serviço acaba sendo uma referência porque garante a qualidade do diagnóstico", explica a diretora do Centro de Informação da Secretaria Municipal de Curitiba, Raquel Cubas. A Secretaria de Estado da Saúde também tem apenas um equipamento, que está no Hospital de Clínicas. O resto é convênio.

A radiologista Maredith Pereira Ribeiro Sell, do Hospital São Vicente (que também atende pacientes pelo SUS), lembra que manter o mamógrafo funcionando não é uma questão fácil. "Além da manutenção, é preciso ter material para operá-lo e mão de obra qualificada. Só isso garante um diagnóstico de qualidade", afirma.

No relatório do Tribunal de Contas da União, feito no ano passado, consta que 11 estados brasileiros, incluindo o Paraná, têm 80% de sua produção de mamografias (pelo SUS) realizadas por estabelecimentos privados, o que comprova a preferência pelo convênio com clínicas e hospitais particulares.

Interior

41 km para fazer o exame

Sem um mamógrafo no serviço público de saúde, pacientes de Marechal Cândido Rondon, no Oeste, precisam viajar cerca de 41 quilômetros até Toledo para realizar a mamografia. A viagem é feita em carros particulares ou em veículos da Secretaria Municipal de Saúde. De acordo com Rosane Lindner Ost, diretora da Unidade de Saúde 24 Horas, onde é desenvolvido o Programa da Mulher, a cota mensal atende 52 pacientes.

A dona de casa Joraci da Cruz, 50, nunca fez uma mamografia e cita como um dos impedimentos a distância. "É difícil porque a gente é pobre, às vezes não sobra nada (do salário)", diz.

Para marcar a mamografia, a paciente precisa realizar uma consulta médica em um dos 16 postos de saúde do município ou no Programa Saúde da Família. Com a solicitação médica, a paciente procura o Programa da Mulher, responsável por agendar o exame.

Mal. Cândido Rondon Luiz Carlos da Cruz, correspondente em Cascavel

  • Das 46 cidades paranaenses que dispõem de mamógrafos, dez não atendem pelo SUS

Mulheres que moram no interior do Paraná e precisam fazer o exame de mama para detectar um possível câncer encontram duas realida­­des: enquanto em poucos municípios sobram vagas para fazer a ma­­mo­­grafia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), na maioria deles as mulheres precisam viajar a outra cidade para ter acesso ao mamógrafo. Apenas 36 cidades paranaenses dispõem do equipamento pe­­lo SUS, ou 9% dos municípios. No Brasil, o câncer de mama é o que mais causa morte entre as mulheres: o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que morrem, por ano, 11 mil mulheres na faixa etária de 40 a 69 anos e que apenas para 2010 são esperados 49,4 mil novos casos da doença no país. A má distribuição dos mamógrafos é um problema que existe em todo o Brasil e, no Paraná, não é diferente. Relatório feito pelo Tri­­bu­­nal de Contas da União (TCU), no ano passado, levantou quantos equipamentos existem no país e onde eles estão funcionando – a conclusão é que não faltam aparelhos, mas que eles não estão espalhados de maneira homogênea. Em Pato Branco (com 70 mil ha­­bitantes), por exemplo, há cinco mamógrafos que atendem pe­­lo SUS. Foz do Iguaçu, que tem quatro vezes o número da população (325 mil), tem apenas quatro equipamentos. Já cidades como Mare­­chal Cândido Ron­­don e Rio Negro padecem pela fal­­ta do aparelho: quem vive em Ma­­rechal precisa viajar 41 quilômetros até Toledo para conseguir fazer o exame de mama. As mu­­lhe­­res de Rio Negro enfrentam 117 quilômetros porque só conseguem o exame gratuitamente em Curitiba.A discrepância na distribuição dos mamógrafos faz com que al­­guns municípios tenham fi­­la de es­­pera e em outros sobrem va­­gas para o exame – sem contar aqueles 363 que nem ofertam o ser­­viço. A prefeitura de Toledo tem par­­ceria com duas clínicas particulares que atendem os exames de ma­­ma pelo SUS – são nestes dois lugares que as mulheres de Ma­­re­­chal Cândido Rondon também são re­­cebidas. Em uma das clínicas há uma cota de 39 mamografias por mês para esse público, na outra são 27 – em ambas a cota quase nunca é preenchida. Detalhe: o Inca afirma que o ideal seria que cada ma­­mó­­grafo produzisse 25 exames por dia (e não por mês), ou seja, além de os equipamentos serem subutilizados, a baixa procura é mais uma prova de que as mulheres de Mare­chal não estão em busca do serviço porque ele está longe de suas casas. Em Pato Branco não há filas pa­­ra o exame e mesmo assim a procura é pe­­quena. Os cinco mamógrafos produzem oito vezes menos do que o esperado pelo Inca: ao invés de 25 exames por dia, cada um dos cinco faz cerca de três exames diários.

Em Curitiba a de­­manda é bem maior: os 11 locais que atendem pelo SUS fazem, por dia, cerca de 50 a 60 exames por ma­­mógrafo, ou seja, o dobro do es­­perado pelo Inca.

A paciente Jacy de Moura, 53 anos, foi ao posto de saúde em no­­vembro do ano passado para tentar marcar a mamografia e só conseguiu exame para abril deste ano. Desistiu. Voltou no final de abril e teve uma surpresa: três dias depois já poderia fazer a mamografia. "Antes demorava um monte, agora foi superrápido", diz.

Desde que a prefeitura lançou o programa Mulher Curitibana, no fim do ano passado, as mulheres de 50 a 69 anos conseguem fazer o exame facilmente. "Estamos atrás das mulheres dessa faixa etária pa­­ra que elas fa­­çam o preventivo do colo de úte­­ro e a mamografia", diz a diretora do Centro de Informação da Se­­cre­­taria Municipal de Saúde, Raquel Cubas.

A data de corte para o exame também gera polêmica no estado. Enquanto Curitiba concede o exame gratuito de mama apenas para as mulheres com mais de 50 anos, os outros municípios atendem pa­­cientes pelo SUS a partir dos 40 anos. A exceção de Curitiba é aberta apenas para as mulheres mais novas que têm histórico familiar de câncer de mama ou que já têm nódulos no seio. "O grupo técnico da prefeitura de Curitiba, junto com o Inca, decidiu que o exame de rastreamento é mais eficiente nas mulheres com mais de 50 anos, porque a incidência de câncer neste público é dez vezes maior do que nas mulheres mais novas", explica Raquel.

A oncologista e coordenadora-geral do Hospital Erasto Gaertner, Claudiane Minari, acredita que se adota 50 anos como idade de corte por uma questão de saúde pública: como o recurso é finito, concentra-se a atenção no público em que mais ocorre a incidência do câncer. "As mulheres que puderem fazer a mamografia a partir dos 40 anos, melhor", afirma. No ano passado, uma lei foi aprovada garantindo o acesso à mamografia pelo SUS às mulheres a partir dos 40 anos – a lei ficou apenas no papel em grande parte do país.Sesa diz que quantidade é suficiente

No ano passado, a Secretaria de Es­­tado da Saúde (Sesa) realizou 232.531 exames de mamografia no estado, um número que tem aumentado gradativamente. Esse resultado, segundo a Sesa, mostra que o Paraná tem cumprido as me­­tas propostas pelo Instituto Na­­cional do Câncer (Inca) de mamografias realizadas por município.

O fato de haver 363 cidades sem mamógrafos, de acordo com a Se­­sa, se deve à possibilidade, ou não, de o município dar contrapartida na instalação e na manutenção do equipamento, que custa caro. E no interior, principalmente, a maioria dos municípios não apresenta essas condições econômicas. Por isso, conforme a Secretaria, foram criados os Centros de Saúde da Mu­­lher e da Criança (em algumas ci­­da­­des eles ainda estão em fase de implantação). Eles servem como apoio para atender a população das cidades menores e encaminhar as pessoas que necessitam de um tratamento ou exame médico específico para municípios próximos que dispõem do serviço. Segundo a Sesa, não existe notificação de pacientes que não conseguiram fazer o exame de mama.

A Secretaria lembrou ainda que a maior parte dos exames é fei­­ta por convênio com clínicas particulares que atendem também pa­­cientes do SUS: elas recebem R$ 45 por exame – dificilmente cidades apresentam um número grande de mamografias que possibilite a com­­pra e manutenção de um ma­­mógrafo a custo inferior aos R$ 45 pagos atualmente por convênio.

A falta de mamografias gratuitas em algumas cidades também pode ser explicada pelo fato de al­­gumas clínicas particulares não aceitarem o convênio com o SUS – existem dez cidades paranaenses que têm mamógrafos, mas que não fazem o exame gratuitamente.

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