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Tragédia aérea

“A dor maior é ver a dor da minha filha”

Viúva de vítima do vôo da Gol, Rosane Gutjhar relembra o sofrimento de enfrentar um acidente aéreo

Familiares e amigos cobram lista de passageiros no balcão da TAM no Salgado Filho | José Ernesto/Correio do Povo
Familiares e amigos cobram lista de passageiros no balcão da TAM no Salgado Filho (Foto: José Ernesto/Correio do Povo)

Curitiba – A queda do avião da TAM, na noite de terça-feira, trouxe de volta às famílias das vítimas do acidente com o Boeing da Gol, em setembro do ano passado, a lembrança de todo o sofrimento vivido pelos parentes e amigos das 154 vítimas do vôo 1907. Rosane Gutjhar, viúva do empresário Rolf Gutjhar, ainda tenta colocar a vida em ordem depois de ter perdido o marido, com quem vivia há 23 anos.

Emocionada com mais esta tragédia, Rosane disse saber exatamente o que as pessoas envolvidas com o acidente estão sentindo e as dificuldades que ainda vão enfrentar a partir de agora. Ela conta que os primeiros momentos são de dor, incerteza e de falta de atenção da companhia aérea e das autoridades. "No nosso caso, a Gol levou dois dias para divulgar a lista de passageiros", lembra Rosane.

E ela ainda teve de lidar com o sofrimento de contar para a filha de 4 anos sobre a morte do pai. Rosane diz que a menina percebeu a movimentação na casa da família, em Curitiba, e fez três perguntas: se não teria mais o "travesseirinho gostoso", porque a menina costumava deitar na barriga do pai; se não ganharia mais malas de presentes, que o pai sempre trazia para ela quando viajava; e confirmou com a mãe que ela não iria mais casar porque não queria outra pessoa no lugar do pai. "A dor maior é ver a dor da minha filha", afirma Rosane.

Assassinato

Cuidar da menina é uma tarefa que toma conta de 50% do tempo da vida de Rosane. Os outros 50% são dedicados a lutar pela punição dos pilotos norte-americanos do jato Legacy que bateu no Boeing da Gol. Ela diz que a grande diferença entre o caso da TAM e da Gol é que nesta terça-feira aconteceu um acidente e em setembro do ano passado, um assassinato. Rosane lembra que já foi provado que os pilotos desligaram o transponder e não respeitaram o plano de vôo.

A viúva de Rolf conta que o momento mais difícil que enfrentou, depois da queda do Boeing, foi quando recebeu o que restou do corpo do marido. "Eu não tive a chance de me despedir dele, que morreu sozinho." O corpo de Rolf Gutjhar foi o segundo a ser identificado. E isso foi possível porque encontraram num bolso dele, intacto, o telefone celular de Rosane. Mesmo tendo sido encontrado e identificado rapidamente, o corpo só foi entregue à família mais de uma semana depois. Ele foi sepultado em Curitiba.

A família tem uma empresa instalada em Manaus (AM), onde Rolf ficava de terça a sexta-feira, todas as semanas. Rosane conta que esteve lá, a última vez, no começo de setembro do ano passado, antes do acidente. "Só em março voltei a trabalhar, mas ainda são meus dois sócios que cuidam de tudo."

Rosane ainda tem dificuldade para retomar sua rotina sem a presença do marido. "Ele era um homem forte, pesava quase 100 quilos, tinha 50 anos, mas era muito divertido e brincalhão." Ela diz que ainda está naquela fase em que tudo lembra o marido: as roupas, as jóias, os móveis e objetos dentro de casa e todos os lugares que freqüenta.

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