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A Nova Jerusalém do Contestado

Povoados em memória do monge José Maria foram formados pelos sertanejos durante a Guerra do Contestado. Objetivo era contrapor a República dos latifundiários e coronéis

  • Diego Antonelli
Comboio da coluna do Norte do poder militar em Canoinhas, em março de 1915 |
Comboio da coluna do Norte do poder militar em Canoinhas, em março de 1915
 
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Duzentos seguidores do monge e curandeiro José Maria refugiam-se em Irani. Sertanejos simples, eles não desejam encarar uma batalha contra as forças do governo. Mas mal sabiam que uma simples reunião numa região tomada por conflitos fronteiriços já significava um desafio às autoridades. Um grupo de 58 soldados do Regimento de Segurança do Paraná invade o local. O saldo é de 21 mortes, entre elas as dos chefes dos dois grupos em confronto: o coronel João Gualberto Gomes de Sá e o monge José Maria.

Conhecido como Batalha do Irani (localidade então pertencente ao município de Palmas, no Paraná), a luta de 22 de outubro de 1912 foi o marco inicial da Guerra do Contestado, uma longa e sangrenta batalha que se estendeu até 1916 entre seguidores do monge e forças militares. Morto, José Maria foi santificado pelos sertanejos. Reunidos em nome dele, dezenas de redutos foram formados para combater as forças militares.

INFOGRÁFICO: Veja os principais redutos do Contestado

O início desses agrupamentos parte de uma menina de 11 anos. Já era final de 1913, quando Teodora relata sonhos com o monge. “Nesses sonhos José Maria ordenava para que eles voltassem a se reunir em Taquaruçu”, explica o historiador e escritor Paulo Pinheiro Machado, que é professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Um ano antes, o grupo de José Maria havia sido expulso dessa localidade, pertencente então a Curitibanos em Santa Catarina, a mando do prefeito e coronel Albuquerque, seguindo para Irani – onde as batalhas começaram.

Ao retornar a Taquaruçu, o grupo de sertanejos instalou na localidade em memória do monge a primeira “cidade santa”, chamada por alguns adeptos como a Nova Jerusalém. Mas desta vez, eles sabiam estar desafiando as autoridades locais e estaduais. Além do grupo inicial de seguidores de José Maria, dirigiram-se a Taquaruçu opositores políticos dos coronéis que governavam em Lages, Curitibanos, Campos Novos e Canoinhas. “O objetivo maior era ter uma comunidade livre, justa e longe das forças políticas. Todos deviam trabalhar pela sobrevivência e em defesa da comunidade.”, salienta Machado.

Segundo ele, a invenção da “cidade santa” dava um sentido novo ao que eles chamavam de “monarquia”. “Negava a República vigente, dominada pelos latifundiários e coronéis. Era uma espécie de uma monarquia ‘celeste’ sem rei”, aponta. Os sertanejos adotaram um corte de cabelo rente e usavam chapéus com fitas brancas na aba.

Mas entre dezembro de 1913 e fevereiro de 1914, uma série de três ataques das forças militares pôs fim à Nova Jerusalém de Taquaruçu, que chegou a abrigar 400 pessoas. “No terceiro ataque só havia mulheres no local. Muitos já haviam se dirigido a outros locais, como Caraguatá, onde deram continuidade a outras cidades santas que existiram ao longo do Contestado”, ressalta Machado.

Os motivos da Guerra do Contestado

A Guerra do Contestado foi um conflito social, ocorrido nos planaltos catarinense e paranaense entre 1912 e 1916, que colocou de um lado coronéis, latifundiários e governo e, de outro, posseiros, pequenos lavradores, ervateiros e tropeiros. O conflito teve início com a perseguição policial ao grupo de sertanejos que se reunia em torno do curandeiro José Maria, em Taquaruçu.

O professor Paulo Pi­­nhei­­ro Machado explica que a disputa pela terra é a causa principal da guerra, em decorrência da tentativa de expropriação de posseiros e ervateiros caboclos, que aconteceu em três processos diferentes. No primeiro deles, houve a gradativa concentração fundiária promovida por pecuaristas, que transformavam em agregados os posseiros e sitiantes que viviam independentes, nos limites das fazendas. Posteriormente houve a concessão de até 15 km de cada lado do leito da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande para a empresa norte-americana Brazil Railway Company. E também a grilagem de coronéis da Guarda Nacional do Paraná sobre os territórios contestados por Santa Catarina.

Ainda havia uma longa disputa de limites entre os dois estados. Os catarinenses reivindicavam, como suas divisas com o vizinho do norte, os rios Iguaçu e Negro. Os paranaenses consideravam que toda a região dos campos de Palmas, de União da Vitória até o rio Caçador e das saliências do Timbó, de Três Barras, Rio Negro, Itaiópolis e Papanduva, constituía parte de seu território. “Os catarinenses já possuíam três sentenças do Supremo Tribunal Federal a seu favor (de 1904, 1909 e 1910), mas a execução destas decisões era inviabilizada por pressão política dos paranaenses”, explica Machado.

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