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O destino não cessa de nos enviar os bons e os maus augúrios, o que nos falta é tempo para traduzir o que o bem-te-vi fica gritando na janela.

O voo 1447 para o Rio de Janeiro, às 13h40 de terça-feira, tinha todos os augúrios de uma viagem inesquecível: a delegação do Clube Atlético Paranaense, a decisão da Copa do Brasil e a primeira vez que o meu filho Pedro iria pisar no glorioso Maracanã. Não o velho Maraca que eu conheci em 1960, levado por meu pai.

Paulo Baier, ao contrário do que se possa imaginar, não entrou na fila prioritária, dos veteranos. Quem embarcou primeiro foi o supervisor e ex-técnico Antônio Lopes. Também conhecido como Delegado ou, mui respeitosamente, professor. Ao chegar a minha vez, entrei no avião com o professor aguardando um técnico de manutenção consertar sua poltrona, a 2C, no corredor. A minha e a do meu filho eram a 2A e 2B, justamente na frente da aeronave e ao lado do Delegado.

Sempre elegante, gentil e cerimonioso, o professor Antônio Lopes não se fez de impaciente. Muito menos arrogante, como certas celebridades de ocasião. A cada um que passava meio que atravessado pelo início do corredor, Lopes devolvia sorrisos e cumprimentos de boa sorte. A boa sorte que o supersticioso professor sempre carrega numa medalhinha pendurada no pescoço.

Atrás de Mario Celso Petraglia passaram o goleiro, o zagueiro, o lateral, o meio de campo, o atacante e nada de o técnico de manutenção dar um jeito na poltrona 2C: "Professor, ela não está reclinando. Vou deixá-la na posição vertical, assim ela tem condições de uso. Caso contrário, por medida de segurança, o senhor deve se acomodar em outra poltrona". Antônio Lopes consultou com o dedo indicador a sua medalhinha: "Sento em outra, sem reclinar fica desconfortável!" Como prova de seu valor, um torcedor rubro-negro prontificou-se: "Vamos trocar de lugar, professor?"

Todos acomodados, a comissária conferiu as poltronas em posição vertical e o comandante se fez ouvir na aeronave: "Senhores passageiros, temos a bordo a delegação do Clube Atlético Paranaense, que amanhã vai decidir a Copa do Brasil com o Flamengo. A todos, uma boa sorte!" Tripulantes e passageiros aplaudiram: "Húúúú, Furacão!", bradou a galera.

Antônio Lopes fez o sinal da cruz, beijou a medalhinha de ouro que puxou do peito e olhou para o alto, já que estava tão pertinho de Deus. Pena que naquelas alturas seria impossível um bem-te-vi gritar na janela do avião: "Professor, não é só a poltrona que está defeituosa. Tem mais alguma coisa errada!"

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