| Foto: Alexandre Mazzo / Gazeta do Povo

Série chega ao fim após 22 entrevistas

Depois de cinco meses, a Gazeta do Povo encerra hoje a Série Entrevistas. Ao todo, foram publicadas 22 entrevistas, do dia 3 de julho até hoje. O projeto contou com a participação de 20 jornalistas e quatro colaboradores, que buscaram resgatar e registrar a palavra de figuras conhecidas – algumas nem tanto – dos paranaenses. A série pode ser conferida em http://www.gazetadopovo.com.br/entrevistas. Em breve será transformada também em livro digital.

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Não vá pelas aparências ao se deparar com irmã Rosa Martin. O corpo é franzino, mas a especialidade é lutar com gigantes. Feito Davi e Golias mesmo. Essa americana de 76 anos, desembarcada no Brasil há 50, não foge à luta quando está em jogo o interesse dos mais fracos. Primeiro afrontou a ditadura, acolhendo perseguidos políticos. Depois, mirou Itaipu ao defender os direitos dos desalojados. Mais tarde, juntou-se ao movimento dos sem-terra contra os grandes latifúndios. Recente­mente, tomou a frente da luta contra a construção da Usina de Mauá, no Rio Tibagi, entre Telêmaco Borba e Ortigueira.

Irmã Rosa nasceu em Tipton, Indiana, e logo cedo aprendeu no sítio da família que toda criatura tem nome, seja planta ou animal. Os ensinamentos do pai, sempre zeloso com a natureza, norteariam os caminhos da menina que se formaria bióloga. A verdadeira vocação, no entanto, estava no contato com outros povos. Entrou na Congregação das Irmãs de Santa Cruz, sendo enviada ao Brasil em 1961. Ficou em São Paulo até 1973, até ser transferida para Telêmaco Borba, nos Campos Gerais, onde mora.

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Cinquenta anos de Brasil não tiraram o sotaque carregado de irmã Rosa, nem a energia. Cada um dos 43 clubes de mães de Telêmaco tem suas digitais. Às voltas com causas ambientais, não faz ideia de quantas árvores já plantou, mas a meta é de uma por mês, no mínimo. Aposentadoria é algo ainda distante, embora um dia deva chegar. O plano, então, é passar o resto dos dias tomando chimarrão e visitando os muitos amigos para relembrar o passado. Histórias não vão faltar.

Quantas árvores a senhora já plantou?

Não faço a menor ideia. [risos] Foram 600 só no último mês. Varia bastante, dependendo do período. Mas tenho por norma plantar pelo menos uma árvore por mês.

Quando "nasceu" a mulher que ama a natureza?

Minha família era dona de uma pequena roça de cinco alqueires, em Indiana, nos EUA. Eu era a segunda mais velha de 12 irmãos. Meu pai tinha um grande cuidado com a natureza. Nos ensinou que cada criatura tem um nome. Foi algo que me marcou e me fez crescer com respeito ao meio ambiente e à humanidade. Hoje, quando alguém me diz "você trabalha com os pobres" eu respondo: "Não, eu trabalho com João, Maria e Marli".

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E quando "nasceu" a irmã Rosa?

Meu nome de batismo é Mônica. Quando chegou o período de trocar de nome (prática comum entre as religiosas no passado), eu falei que gostaria de me chamar Rosa Martin. Rosa, porque Rosa de Lima foi a primeira santa das Américas. E Martin tinha sido um irmão, que trabalhou com os pobres e estava para ser canonizado. Fiquei muito feliz ao conseguir virar Rosa. Pensei no dia: "Decerto eu vou para o Brasil um dia". Aqui estou.

O que é o Brasil para Rosa?

O grande coração verde do mundo.

Seu sotaque ainda é forte. Brasileira ou americana?

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Sou brasileira de coração, é o que sou. Uma certidão de papel tem pouco valor. Mais do que isso: tenho garra de viver e lutar pelo povo brasileiro.

Que país a senhora encontrou ao chegar, nos anos 1960?

Logo que cheguei, fui trabalhar no bairro de Jaguari, em São Paulo. Havia 40 famílias na favela, mas em pouco tempo viraram 400. Eu também cuidava de mais de 80 grupos Mobral [movimento de alfabetização]. Usávamos garagens e lugares abertos. As pessoas se protegiam do sol com guarda-chuva, queriam aprender. Aquela experiência foi meu despertar para a cidadania.

E a ditadura?

Eu trabalhava com grupos de teatro que passaram a ser perseguidos. Nosso colégio virou um refúgio para os procurados. Nunca fomos invadidos, mas a pedido do cardeal dom Paulo Evaristo Arns abrigamos muitas pessoas, inclusive quando saíam da cadeia. Era chocante, porque os militares sabiam tudo. Diziam: "E aquele teatro que vocês realizaram há dois anos? Onde está aquele fulano"? A gente trabalhava sob vigilância. Como dizia o cardeal Arns, tínhamos que trabalhar em silêncio, mas não poderíamos ser silenciados.

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Foi preciso coragem para enfrentar Telêmaco Borba...

Vim para cá em 1973. Logo depois, a Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) decretou a criação da Pastoral da Terra. E mais ou menos no mesmo período veio a luta em Itaipu: foram 12 mil agricultores expulsos de suas terras por causa da hidrelétrica. Mas havia a ditadura e não podíamos fazer reuniões. Mas a gente fazia. [risos] Cercavam as casas em que a gente se reunia. Cortavam luz e água. Às vezes ficávamos três dias incomunicáveis. Mas nunca fui agredida.

Alguma cena não dá para esquecer?

Numa ocasião, estávamos com um grupo de agricultores, tentando decidir o que eles fariam com o pouco dinheiro que receberam de Itaipu. A cena foi tão emocionante que fico arrepiada só de lembrar. O local acabou cercado pelo militares. Na hora em que deixamos o local da reunião, saímos cantando o "Hino Nacional", rezando o Pai-Nosso. Como naquele tempo ninguém era dispensado do serviço militar, do lado de fora estavam os soldados que, um a um, foram pedindo "a bênção pai, a bênção pai". Os agricultores reunidos eram pais dos soldados.

Podemos dizer que foi com Itaipu que nasceu a Rosa ambientalista?

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Desde São Paulo sempre trabalhei com espírito de amor à natureza. Mas foi por causa de Itaipu que nasceu a coragem de lutar por um mundo mais justo e igualitário. Lembro que, em 1974, no primeiro Dia do Agricultor, promovemos uma palestra e as pessoas ficaram impressionadas. O povo, bem caboclo, dizia: "Nossa, a gente tem que tratar os bichos como trata dos filhos. Tem que vacinar, tem de dar nome, tem de ter lugar de lugar de dormir, água fresca." Viam essa informação como se fosse algo de outro mundo.

Na primeira reunião que fiz no Clube de Mães, em Telêmaco, 41 mulheres vieram e 40 não tinham nem casinha (banheiro) no fundo de casa. Mas foi tão bom. A gente caminhou junto para mudar essa realidade. Tive o privilégio de ver essa transformação. Agora estou esperando para ficar bem velha e passar meu tempo visitando as pessoas, tomando chimarrão e revivendo as histórias do passado.

Irmã Rosa é uma entusiasta dos "clubes de mães"...

Aqui em Telêmaco nós temos um problema grande de violência contra a mulher. Procuramos fazê-las entender que elas merecem respeito. Às vezes, não conseguem denunciar na delegacia, porque a rede de proteção é falha. Nem casa de apoio funciona. Mas elas têm o Clube das Mães. É um lugar para, pelo menos, desabafar. Aqui os homens deixam suas mulheres virem.

A senhora participou da organização do MST no Paraná. Como foi?

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Difícil. O Paraná é muito tradicional. Cada um quer ser dono de sua propriedade. Não tinha como deixar o povo fazer favelas. Os militares estavam em cima, sabiam de tudo. Lembro que mesmo em 84, quando o período duro da ditadura já havia passado, fui chamada pelo delegado daqui. Ele me disse: "Você é uma das mulheres mais perigosas dessa área". A ordem era ficar de olho em mim. Queriam nos intimidar.

Em 1986, o José Richa deixou a gente realizar o 1.º Encontro Na­­cional de Sem Terra, no Parque Cas­­telo Branco, na região de Curi­­tiba. Chamávamos o local de Hotel Jesus, porque lá dormíamos onde dava. [risos] Mas tudo vinha cercado por aquela desconfiança. Achavam que a gente queria tomar terras indevidamente.

E tem muita coisa que o povo não sabe. Houve casos em que o banco chamava e dizia que havia uma terra, que gostariam que a gente ocupasse. O banco queria dinheiro. Invadindo, o Incra comprava a terra para a reforma agrária.

Sua luta mais recente foi contra a construção da Usina de Mauá. Como foi essa batalha?

Começamos essa luta oficialmente no Dia de São Francisco, 4 de ou­­tubro de 2006. Foi feito um trabalho de conscientização, mostrando que não era preciso devastar es­­sa área preciosa do Rio Tibagi. É a maior área de Mata Atlântica contínua, onde estão as maiores quedas no rio para oxigenar as águas. Aqui nós tínhamos 46% de todas as espécies do Paraná e toda essa vida está sendo sacrificada. Fo­­ram afetados os pescadores, os ga­­rimpeiros, apicultores, ribeirinhos... A gente tenta amenizar. Mas para a natureza, o preço é tão grande que não tem como consertar.

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Como a senhora se sente vendo a Usina de Mauá quase pronta?

O progresso, como o povo diz, tem que acontecer. Mas nós não podemos perder a oportunidade de melhorar em algumas áreas, como a parte de território, construindo estradas, indenizando quem foi prejudicado, criando corredores de biodiversidade para compensar o impacto da barragem. Uma lagoa de 84 quilômetros quadrados traz impacto para toda a região.

A senhora representa interesses de pessoas simples, como pescadores, diante de gigantes como Itaipu e Copel. Como é?

Ninguém é Deus na Terra. A gente tem que argumentar e tentar convencer. No debate sobre Mauá, havia as câmaras técnicas das quais eu participava. O nosso trabalho neste foi como o da viúva, que bate, bate até alguma coisa acontecer. E nós não estávamos sozinhos. Junto conosco estavam juízes e promotores.

Como é o trabalho realizado no Centro de Promoção Humana que a senhora coordena?

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Nós vivemos de doações. Dinheiro é pouco – não chega nem a R$ 400 por mês. Mas nós conseguimos ajudar as pessoas a partir de coisas desprezadas, que não servem mais, seja um berço, algo para costura, para cozinha. Repartimos essas doações. Fazemos a conexão entre quem tem algo sobrando e a pessoa que precisa.

O que sobra é vendido para cobrir custos, como combustível e outras despesas para mantermos o movimento funcionando. Para fazer a distribuição dos donativos, trabalhamos com 43 clubes de mães, de todos os bairros de Telêmaco. É um vaivém de donativos. Aqui funciona como uma gaita.