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Boemia

A verdadeira Boneca do Iguaçu

De 1951 a 1964, restaurante em São José dos Pinhais herdou parte da música e da freguesia do Cassino do Ahú, fechado por decreto. À frente da casa, Harry, Eva e uma menina quase esquecida

  • José Carlos Fernandes
Marli Feeken na frente do “Boneca do Iguaçu”, restaurante dançante que marcou a música paranaense nos “anos dourados”. Reduto de políticos, boêmios e artistas, local começou a perdeu o glamour em meados da década de 1960 |
Marli Feeken na frente do “Boneca do Iguaçu”, restaurante dançante que marcou a música paranaense nos “anos dourados”. Reduto de políticos, boêmios e artistas, local começou a perdeu o glamour em meados da década de 1960
 
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A verdadeira Boneca do Iguaçu

“Eu sou a Boneca do Iguaçu”, diverte-se a advogada Marli Feeken, 60 anos, diante da pilha de fotos de seu acervo particular. São documentos inéditos, ela sabe, mas apenas há pouco decidiu trazê-los à baila, desenterrando um capítulo importante do lazer e dos costumes em Curitiba e Região Metropolitana – a história do Boneca do Iguaçu, restaurante dançante que teve seu auge do início da década de 1950 a meados da década de 1960. O resto é pó.

“Todo mundo ia lá”, escreveu o pesquisador Apollo Taborda França num dos raros textos sobre o estabelecimento, publicado na Gazeta do Povo em 1993, por ocasião dos 300 anos de capital. Iam inclusive os cantores Orlando Silva e Emilinha Borba, para citar dois astros que se apresentaram na casa. Comia-se alguma poeira, mas valia o preço, dizem testemunhas.

FOTOS: Veja mais imagens do Boneca do Iguaçu

Falar no Boneca do Iguaçu – o preferido de ninguém menos do que o político Moysés Lupion – é necessariamente recorrer à “fonte oral” Marli Feeken, filha dos alemães Harry e Eva Feeken, figuras que renderiam um daqueles impagáveis filmes em preto e branco. Eram alemães – ele luterano, ela, tudo indica, judia, ambos foragidos da Segunda Grande Guerra e entregues às delícias do Mundo Novo. Harry mais do que Eva, diga-se. “Papai... um boêmio”, lembra ela. Antes de empresário da noite, Harry foi músico da Banda Trianon, das mais famosas dos pinheirais nos tempos do Cassino do Ahú.

Eva não gostava de esperar o marido voltar do mais famoso espaço de jogatina, cantoria e elegância do Paraná da primeira metade do século 20. Mas nada que demovesse Harry de trabalhar como pintor de dia e contrabaixista à noite. A não ser que ele tivesse sua própria casa noturna. Foi assim que tudo começou.

“Ele vinha de Hamburgo. Não me espanta que tenha construído um dique no terreno alagadiço que comprou em São José dos Pinhais”, calcula Marli, sobre a saga da construção do restaurante. Era todo em enxaimel, mas alagava a cada cheia do Rio Iguaçu e ficava longe da capital para os padrões da época. Mesmo assim, vingou. Motivos?

Harry cumpriu a promessa e parou de tocar na Banda Trianon. Mas levou as bandas até o Boneca do Iguaçu, que se tornou endereço de nomes como o negro Genésio Ramalho; Giuseppe Bertollo, o Beppi; Arlindo Montanari. E Cláudio Todisco, acordeonista de fina cepa, para citar só alguns. Mas nem só de boa música vivia o restaurante. Havia o sorvete, o pastel, o pudim caramelado, o bife a cavalo – uma picanha com dois ovos estrelados. “E tinha o cast”, soma Marli, sobre a legião de garçons, que dormiam no emprego.

Seria perfeito, mas não uma garantia de sucesso se não fossem Harry e Eva. Ela cuidava da cozinha e daqueles requintes da etiqueta alemã. Ninguém saía sem cartãozinho de agradecimento e coisa e tal. Ele respondia pelo sonho, atraindo as melhores cabeças da cidade até São José dos Pinhais. Só lhes faltava uma coisa – um filho, ou melhor, uma filha.

Os dois imigrantes esperaram 17 anos por uma criança. Eva engravidou só aos 38. O nome “Boneca do Iguaçu”, estampado na fachada, já existia na casa dos Feeken, ao se referirem ao rebento que queriam. Marli, a “Boneca”, veio em 1952. Mas teve de esperar uns bons 40 anos para falar desse assunto. É simples entender – Harry adoeceu em 1964 e arrendou o restaurante, que aos poucos mudou de perfil, passando a ser associado a uma espécie de rendez-vous. “Acho que meu pai morreu de desgosto ao ver aquilo”, lembra a filha, que chegou a sofrer bullying ao ser reconhecida como “a menina do restaurante”. “Boneca” ganhou sentido pejorativo. Ela se calou.

Mas agora é passado. De volta a São José dos Pinhais, onde passou a residir nos anos 2000, Marli se viu apresentada como “história viva”, com mimos. Animou-se a doar parte do acervo particular para o Museu Municipal Atílio Rocco. E está à disposição de quem queira saber mais. É só pedir pela Boneca do Iguaçu, a legítima.

As ciências da noite

O pesquisador Thomás Antônio Burneiko Meira, 29 anos, é autor da dissertação ... da força da grana que ergue e destrói coisas belas: uma etnografia dos circuitos de lazer noturno em Londrina, Paraná, a partir do Bar Valentino, defendida em 2009 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Com esse trabalho, alinha-se entre os paranaenses que começam a criar uma tradição de estudos sobre a noite. Thomás é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Confira entrevista dada à Gazeta do Povo por e-mail.

Por que as relações de sociabilidade ligadas à vida noturna são tão pouco pesquisadas? Trata-se de um preconceito? Há outras demandas na sociologia, antropologia e história que fazem com que esse campo interesse menos?

Infelizmente, ainda vejo certo preconceito acerca das pesquisas acadêmicas voltadas às relações de sociabilidade construídas sob a referência da vida noturna. Como se sabe, as grandes cidades, que normalmente comportam noites efervescentes, também são espaços nos quais as disparidades sociais, a luta de classes e a reprodução da força de trabalho se revelam de modo mais latente. Em muitos casos, essas últimas questões são vistas como fenômenos mais urgentes, nobres e complexos – dignos de investigação –, enquanto as temáticas que não possuem um corte político ou econômico muito nítido assumem um status meramente residual.

Isso não significa que a questão do lazer noturno não seja pesquisada, mas certamente o tema não assume a devida credibilidade em alguns círculos intelectuais. Talvez essa situação contribua para que as produções acadêmicas sobre a “noite” tenham uma disseminação relativamente menor entre o público mais amplo. Particularmente, não vejo sentido nessa hierarquização de objetos de pesquisa, já que o botequim, a roda de samba, o bingo, o baile, também compõem a rotina do trabalhador e podem revelar muito sobre suas estratégias de sobrevivência na cidade.

Em sua pesquisa, quais foram os maiores entraves? Em que aspectos você sentiu que há mais fragilidade? Qual a batalha enfrentada por um pesquisador que decida estudar “a noite”?

Em minhas pesquisas sobre a vida noturna, os grupos e indivíduos com os quais tive a oportunidade de me relacionar sempre se mostraram bastante solícitos e receptivos às práticas de investigação, que normalmente envolviam entrevistas, conversas informais e questionários, sempre realizadas ou aplicados durante os períodos de lazer dos “nativos”. Afora alguns inconvenientes práticos, como realizar os trabalhos durante as madrugadas, duas grandes dificuldades marcaram essas ocasiões. Em primeiro lugar, a bibliografia sobre a dinâmica social no espaço mais específico dos bares é ainda muito escassa, embora haja muita produção sobre as práticas de lazer como um fenômeno mais geral. Além disso, pelo próprio tema das análises, passei por uma provação constante e frequentemente fui obrigado a convencer outros pesquisadores de que meu propósito deveria ser levado a sério e envolvia coleta de dados, confirmação de hipóteses e experimentação de teorias, como em qualquer outro empreendimento desse tipo.

Você se sente parte de uma rede de pesquisadores devotada a estudar a noite?

Na realidade, a USP conta, no âmbito de seu Departamento de Antropologia, com o Núcleo de Antropologia Urbana (NAU), coordenado pelo professor José Guilherme Magnani, que reúne pesquisadores que se ocupam da investigação de práticas culturais nas cidades, e principalmente nas grandes metrópoles. Trata-se, portanto, de um órgão com objetivos mais amplos, mas que sempre vislumbrou o lazer, noturno ou não, como uma chave estratégica para a compreensão dos fenômenos urbanos. Por isso, muitos trabalhos realizados ali buscam abstrair dinâmicas citadinas, pouco contempladas, que se revelam a partir da “noite” ou das “baladas” metropolitanas. Fiz parte da equipe do NAU entre o início de 2006 e o começo de 2009. Ali encontrei um suporte teórico importantíssimo para minha formação, ao qual recorro constantemente para o desenvolvimento de meus trabalhos.

Que questões de sociabilidade na noite lhe parecem mais desafiadoras? Ou mais urgentes?

Estudar a sociabilidade noturna nos impõe o exercício, extremamente difícil, de um olhar mais tolerante para com as diferenças culturais. Pois, por trás de um hedonismo, à primeira vista, pejorativo e que não conhece outra moral para além da festa e do álcool, existem tramas de sociabilidade complexas e que exigem um olhar intensivamente treinado para que sejam abstraídas. Acredito que compreender as lógicas dessas relações significa apreender a riqueza do fenômeno urbano ou as infinitas possibilidades que o ambiente citadino comporta e estimula. Enquanto a cidade que se faz na “noite” permanecer presa à facilidade dos estereótipos, de alguma forma, desconheceremos o próprio lócus característico de nossas vidas.

Fotos antigas do Boneca do Iguaçu

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