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José Carlos Fernandes

Alegres memórias de um craque

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Alegres memórias de um craque

Se bem lembra, o ex-craque Amauri Fernando dos Santos Ferreira, 71 anos, as alegrias do futebol lhe chegaram quando menino, pelo alto-falante da torre da igreja. Era dali que, depois da missa de domingo, um morador convocava o povo para os jogos no campinho do Vila Inah, um dos times do Santa Quitéria, em Curitiba. Ele atendia os chamados. Foi seu Amarcord de Fellini.

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O pai de Amauri, Cecílio – funcionário da RFFSA –, sonhava ver o filho um jogador no Ferroviário F.C, clube pelo qual daria a vida. Para encurtar caminho, conseguiu uma vaga para o guri no “Flamenguinho”, agremiação nascida para entreter os meninos da vila. Não fez feio. O piá era bom de fato, o que mexia com os nervos da mãe, Olga, respeitada professora da rede pública, experiente o bastante para prever que o futebol mexeria com o juízo do garoto.

Palpite certo. Nos tempos em que o Santa Quitéria ficava longe e tinha a maior população de sapos do planalto, Amauri jogava até de noite, debaixo dos poucos postes de luz dos arrabaldes. Peladeiro. “Se ouvia alguém gritar ‘gol’ eu saía desembestado”, conta. Para prevenir-se, Olga raspou o tacho das economias e o matriculou no melhor colégio da cidade – o Bom Jesus. Quem sabe desse doutor e largasse as bolas de meia. Foi meio caminho andado... com vantagem para o futebol.

Não demorou até que os graúdos da família Thá e Pugsley percebessem a catimba do recém-chegado, único negro da escola, ao lado de Ozeil Moura, hoje cônsul do Senegal. Um dia, os colegas o intimaram a ir a um treino do Atlético Paranaense, pó de arroz e coisa e tal. Fez-se de bobo. De nada adiantou a desculpa esfarrapada de que não tinha chuteira: os colegas lhe arranjaram uma.

Se você pensou em destino, não se culpe: o jogador também acha que foi. A cena merece ser perpetuada em livro, película, poesia e samba-enredo. “Que cê tá fazendo aqui, neguinho?”, disparou um grandão, nem bem Amauri havia pisado no estádio. Tinha 12 anos, mas já sabia falar, bem e bastante – outra de suas habilidades para além das embaixadinhas. Respondeu que viera, oras, para jogar. Ouviu de troco se não sabia que “naquele clube não jogavam negros”.

Foi quando se deu o “milagre de Berna”, em plena Baixada. Como já disseram tantos pensadores da vida comum, as grandes revoluções nascem de pequenos gestos. Eis o caso. A carraspana durou menos de um minuto. Amauri não foi, ficou. O sujeito mandou a tal da norma às favas e deixou que o moleque baixinho e magrela seguisse se equilibrando em cima dos cambitos. Talvez achasse que nunca daria jogador. Por pouco, não deu.

Acabou sendo o último escolhido para o Infantil. Faltava um ponta-direita. Ele levantou a mão, disse que jogava nessa posição. Um blefe – claro, lá na vila era atacante, mas ninguém desconfiou, principalmente quando o viram fazendo misérias no gramado. Assim permaneceu, com acréscimo, no futuro, dos overlaps, seu mimo à torcida. É longa história.

Nosso herói se sagrou campeão pelo Juvenil, em 1960. Permaneceu “seco”, mas comprido, com mais de 1,80 m. Profissional, esteve entre os cogitados para a seleção brasileira de 1966. Em 1968, dividiu o gramado com Bellini, Djalma Santos, Pepe, Durval, Zito. Em 1972, depois de um entrevero com a diretoria, largou passe, largou tudo. Assoprou, passou. Mas, graças ao rompante, cumpriu o sonho de dona Olga e se formou em Educação Física na UFPR. Foram mais de 30 anos em sala de aula – sorte da gurizada.

Faz pouco tempo que um amigo – o Adílson “Cachaça” – saiu com a frase: “Sabia que você foi o primeiro jogador negro do Atlético?” Talvez soubesse, mas estava mais interessado na bateria da Mocidade Azul e da Realeza. Diz que nunca se sentiu discriminado, talvez por vir de uma família de educadores. Sabe de racismo nos campos – mas, qual o piá do Santa Quitéria, ainda prefere falar de futebol.

Conta que lhe ofereceram uma fábula pela camisa do Atlético da década de 1950. Mordam-se, ainda lhe serve. Mostra fotografias, às pencas. No meio da pilha, uma bem amarelada: é do seu timeco de bairro, num dos capões da Vila Inah. Quando lhe perguntam qual a maior de todas as glórias, manda à queima-roupa: “Ter jogado no Flamenguinho”. Depois se emociona, qual David Luís – é do jogo, que é que tem. [silêncio]

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