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Pedidos de voto de artistas para a reeleição do presidente Lula (PT) no segundo turno estão produzindo o efeito contrário ao desejado? A hipótese foi levantada pela cantora Anitta, apoiadora do petista, no dia 7, ao reagir às cobranças para que gravasse um vídeo pró-Lula. Para a cantora, esse tipo de manifestação tende a pregar para convertido e ainda dá matéria-prima para os adversários debocharem das celebridades.
“Só piora, na verdade, porque dá material para as pessoas do outro lado utilizarem a minha cara justamente para fazer campanha opositora”, escreveu Anitta em um comentário nas redes sociais. A artista reclamou de quem “jura que fazer um vídeo com a minha cara falando agora vai ajudar em alguma coisa a sair da bolha e não falar só para quem já concorda com meu posicionamento”.
No mesmo comentário, a cantora disse que buscava atuar por outros caminhos que considerava mais eficazes. Apesar da resistência inicial às cobranças, Anitta cedeu dois dias depois e publicou um vídeo declarando voto em Lula e criticando apoiadores de Flávio Bolsonaro.
As declarações de Anitta ocorrem em meio à pressão pública de apoiadores de Lula para que artistas e celebridades se manifestem no segundo turno. Um dos principais envolvidos é o ator José de Abreu, que publicou um vídeo cobrando nominalmente atores como Selton Mello, Danton Mello, Giovanna Antonelli e Carolina Dieckmann. Ele questionou o silêncio dos colegas diante da ascensão do que chama de “fascismo”. “Não me conformo com colegas omissos! A vida quer é coragem!”, escreveu.
Abreu ainda foi até os perfis pessoais de artistas para fazer cobranças. Questionou a atriz Deborah Secco, por exemplo, em uma postagem sobre uma viagem e cobrou Giovanna Ewbank ao comentar uma publicação sobre sua vida sexual com Bruno Gagliasso. A apresentadora respondeu que já havia declarado voto em Lula diversas vezes.
Parte da classe artística já entrou na mobilização. Entre os nomes que manifestaram publicamente apoio a Lula estão alguns de sempre, como Adriana Esteves, Malu Mader, Taís Araújo, Débora Bloch, Leandra Leal, Marjorie Estiano, Reynaldo Gianecchini, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Maria Bethânia.
A defesa da cultura e da produção artística aparece com frequência nas alegações dos artistas, ao lado de referências à ideia de defesa da democracia, aos direitos das minorias e ao combate ao que chamam de intolerância e fascismo.
Em entrevista ao jornalista Junior JL, que viraliza no Instagram abordando esquerdistas nas ruas, o ator Paulo Betti justificou sua posição pró-Lula dizendo que o presidente “sabe da importância dos artistas”. Questionado sobre valores milionários destinados a certos projetos pela Lei Rouanet e sobre a dificuldade crescente que o brasileiro médio tem para fazer as compras, respondeu que “a cultura é tão valiosa quanto o trabalho, quanto a comida”.
Capacidade de artistas de influenciar diretamente a escolha do eleitor diminuiu, diz marqueteiro
No fim de setembro, Lula realizou no Rio de Janeiro um ato com artistas como Chico Buarque, Zeca Pagodinho e Daniela Mercury. Até políticos aliados questionaram a eficácia do evento, avaliando que ele apenas “pregou para convertidos”.
O vice-presidente nacional do PT e prefeito de Maricá, Washington Quaquá, declarou ao site Poder360: “O Lula não ganha nenhum voto com isso. Nós precisamos ganhar voto de quem não vota no Lula. Ele precisa procurar o voto do gospel, do sertanejo. Política é agregar com quem não tem.”
O marqueteiro político Leonardo Matedi, ex-assessor de comunicação do Palácio do Planalto no governo Jair Bolsonaro, avalia que a capacidade das celebridades de influenciar o voto costuma ser superestimada. Segundo ele, as mudanças na comunicação política reduziram essa influência: o eleitor já não absorve as mensagens de campanha de forma tão automática e passou a analisar e discutir as estratégias por trás delas.
“Antes, as campanhas chegavam prontas e não havia espaço para discuti-las em lugar nenhum. No máximo, se comentava nas conversas informais, mas ninguém debatia estratégia como se debate hoje. Agora, uma parcela considerável das pessoas que usam a internet faz isso abertamente. Dizem que a estratégia do Flávio está errada, que a do Lula está errada, opinam sobre o que deveria ser feito. Elas se sentem parte da campanha, de uma forma não convencional. É o que eu chamo de metacomunicação política. O eleitor não consome só a mensagem, ele analisa a forma como ela foi construída”, observa.
Com essa nova camada de complexidade na comunicação, os pedidos de voto de artistas perdem força para influenciar diretamente a escolha do eleitor. “Antes, a lógica era simples. O fulano que eu admiro está pedindo voto para o Lula, então vou votar nele. Hoje, a pessoa olha aquilo de fora e pensa que talvez funcione para alguém, mas não para ela. A fatia de gente que decide o voto por causa de um artista diminuiu muito.”



