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Patrimônio

As cidades invisíveis da região metropolitana de Curitiba

Ausência de legislação e vontade política varre história da RMC

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Pinhais figura entre os municípios mais novos da região metropolitana de Curitiba (RMC). Foi emancipado de Piraquara em 1992, o que lhe dá oficialmente 15 anos. Mas as aparências enganam. A cidade carrega pelo menos três séculos de vida paranaense nas costas. Era velha conhecida dos colonizadores e, no século 19, tornou-se a primeira parada de viajantes rumo à Serra do Mar. Hoje, a jovem Pinhais, com 121 mil habitantes, continua no meio do caminho, mas pouca coisa lembra a farta floresta de pinheiros à qual deve seu nome. Exceto uma capelinha de 80 anos, dedicada a Nossa Senhora da Boa Esperança, e um pinheiro tricentenário, tão antigo quanto Pinhais. Eis a questão.

Apesar de oficialmente ter pouca idade, Pinhais agiu como gente grande e criou, em 1999, uma lei municipal de tombamento de patrimônio histórico. A capela e o pinheiro já fazem parte do acervo e estuda-se colocar a velha estação na lista – antes que seja tarde. À revelia de seu minúsculo inventário, o município é um Vaticano se comparado às demais cidades da região metropolitana. Leis de tombamento são raras, quanto mais num lugar tão jovem.

Levantamento

A reportagem entrou em contato com dez prefeituras da RMC – além de Pinhais, Araucária, Rio Branco do Sul e São José dos Pinhais têm legislação específica para o patrimônio histórico. Piraquara e Colombo estão em fase de implantação. Campo Largo, Quatro Barras, Almirante Tamandaré e Balsa Nova não contam com leis específicas. A própria Curitiba – que conta com 50 bens tombados pelo Estado – não tem um tombamento municipal, mas uma política de preservação em torno das unidades de interesse de preservação, as UIPs, sob encomenda para áreas particulares. O proprietário recebe orientação sobre como fazer conservação e restauro, e recebe benefícios como troca de potencial construtivo e desconto no IPTU.

O modelo curitibano enche os olhos de muitos administradores, que o vêem como uma saída para as cidades que não têm como comprar áreas históricas privadas – ou seja, todos –, mas não é uma unanimidade. Rosina Parchen, diretora do setor de Patrimônio do governo do estado e autoridade reconhecida internacionalmente no setor, considera a política curitibana frágil, já que não defende o bem de fato. "A UIP é um decreto. O tombamento municipal é mais seguro e gera um efeito cascata junto ao Estado e União", comenta. Numa corrente para frente com outros profissionais do ramo, ela sonha com o dia em que as administrações vão peitar as dificuldades, imitar Pinhais e definir que bens serão tombados.

Tomara não demore muito. Em Campo Largo – onde a lei não está nos planos – é comum ouvir de moradores mais antenados a rapidez com que os velhos casarões italianos, como o Puppi, vão abaixo, sem chance nem de uma última foto. Mas a voz do povo é um breve adeus. No poder público, com exceção dos solitários secretários e diretores de cultura, o assunto empolga menos que jogo de várzea e é escorado sempre no mesmo argumento: "tombar é caro." Não é o único senão. Além do suposto preço, diz-se que bens tombados esperam sentados por recursos enquanto assistem à vitórias das goteiras e dos cupins. Sem falar que boa parte das cidades da região metropolitana não sabe muito bem se o que tem merece tamanho sacrifício.

Enquanto as dúvidas não são respondidas, a expectativa é que a União e o Estado façam o serviço, o que corresponde a viver à espera de um milagre: a política de tombamento cada vez mais é vista como um encargo do município, já que cabe aos administradores imediatos a identificação do bem histórico, como garantia de reconhecimento posterior. Em outras palavras, vigora o empurra-empurra.

Parcerias

Mas tem remédio. Nada impede que um prefeito tombe um imóvel, mesmo sem uma lei que o respalde. O assunto, contudo, causa calafrios e esconjuros já que nada mete mais medo do que um proprietário em pé-de-guerra com a prefeitura. Não à toa, os municípios consultados só tombaram até agora bens que pertencem à coletividade. Os bens particulares são vistos como uma bomba armada da qual se deve passar longe. Para Parchen, trata-de se outro mito: foi-se o tempo em que um patrimônio morria à míngua no aguardo de caraminguás do governo. Parcerias com a iniciativa privada são moeda corrente no setor. Só não tem jeito mesmo quando a preservação histórica não está em pauta. "É preciso combater a idéia de que tombamento é desapropriação", reforça Rosina.

Em Piraquara, onde o tombamento está em vias de se tornar um fato, a estação da extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA) foi pintada com as cores da bandeira de Portugal – vermelho e verde – pondo a perder a fachada das casas ferroviárias que tanto encantam os turistas e que compõem a paisagem da Serra do Mar. Disparates como esse – à prova de argumentação com os proprietários – têm uma explicação. Há cidades que viraram periferias gigantescas, vendo ser atropelado, da noite para o dia, o coreto da pracinha e o caminhão do leite. Bolsões de pobreza e rodovias foram levando o passado, deixando o sentimento de que não há muito o que preservar.

Mudar o rumo dessa prosa exige habilidade para convencer que patrimônio não é só sinônimo de riqueza arquitetônica, estilo e antiguidade. E método, identificando lugares que guardam algum significado para a população. Não fosse assim, o Oratório São Carlos Borromeo, uma capelinha beira-chão em Almirante Tamandaré, não seria tombado pelo estado. Nem o pinheiro de Pinhais. Pena a lista ser tão curta para uma memória tão grande.

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