
Há pouco mais de quatro anos, quando o governo federal abriu as torneiras e voltou a financiar a construção de casas populares, um exército de recenseadores vestiu seus jalecos "azul Bic" e saiu favelas adentro, prancheta num braço, relógio no outro. Era preciso. A verba que só este ano pode chegar a R$ 12,7 bilhões só seria liberada para municípios que apresentassem dados consistentes sobre moradia, renda, escolaridade, saúde e trabalho. Não havia outra saída senão fazer expedições de beco em beco. E depressa, porque essa espécie de "segunda revolução habitacional" tem data para acabar, o sugestivo ano de 2012.
O que não se previa era que essa corrida do ouro geraria uma reviravolta no entendimento da pobreza no Brasil. As informações levantadas pela turma da prancheta acabaram sendo tantas e tão reveladoras que causariam calafrios em Josué de Castro, autor do clássico Geografia da Fome. Em 1946, o médico e ativista pernambucano fez miséria com as poucas informações disponíveis, retratando com maestria a exclusão no Brasil moderno. Da falta de estatísticas os pesquisadores de hoje quase não podem se queixar.
Graças aos índices conseguidos com as "palmas no portão", pode-se dizer que por pelo menos uma década estudiosos terão pasto para entender o que acontece com as famílias que descem em alguma rodoviária de capital com os filhos, as panelas, uns trocados e título frio rumo à favela mais próxima.
Detalhes
Os volumosos estudos da Cohab sobre as ocupações da Bacia do Rio Iguaçu, do Rio Belém, do Rio Formosa ou do Ribeirão dos Padilhas desfazem a imagem das favelas locais como um vasto território monótono de casas em penúria, onde milhares desfrutam a ilusão da informalidade. Esses espaços, ao contrário, abrigam a nova geografia social do país uma geografia que não se desfaz com casinhas brancas de alvenaria e telhado de barro.
Favelas são, por exemplo, lugares onde há mais portadores de deficiência física e mental do que no resto da população. Onde a organização comunitária é abundante. Onde os jovens estão fora da escola. Onde os negros são maioria. Nesses espaços, idem, homens cada vez menos ajudam a colocar comida na mesa. Quem manda na periferia são elas.
Não se trata se uma informação recém-saída do forno. Em 2008, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, desossou dados do IBGE e mostrou que entre 30% e 43% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, algo como 11,1 milhões de casas. Metade dessas matriarcas receberia pouco mais do que um salário mínimo. O resto, deduz-se.
O aumento das chefes de família começou a ser pesquisado na década de 1970. Em 1981, o estudo Sofridas e mal pagas, de Carmen Barroso e Maria Cristina Bruschini, deu caras e números ao problema. De 1992 em diante, passou-se a pensar a questão em porcentagem.
Os dados levantados pelos recenseadores da Cohab na periferia curitibana poderiam ser vistos como uma confirmação da tendência nacional. Não fosse um detalhe: as porcentagens são aqui tão ostensivas que se corre o risco de, nessas áreas, a história da costela de Adão perder a graça; e as palavras pai e marido virarem figuras de ficção.
Aos números: das 54 mil famílias cadastradas pela Cohab-Curitiba para participar do Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC, 25.125 famílias precisam ser reassentadas. São, com folga, as mais vulneráveis. Dessas, nada menos do que 17 mil contam com mulheres no comando da pia e do cofre, o equivalente a 70,4% do total. O PAC, aqui, é conjugado no feminino. E não se trata de uma notícia alvissareira, um sinal de que as revoluções sufragistas e sexuais do século 20 tenham encontrado eco entre as mais sofridas dentre as sofridas. Ser titular não é padecer no paraíso.
A "feminização da pobreza", como batizaram o fenômeno alguns pesquisadores, é um avanço, claro, mas têm um lado perverso. "Elas são mais emancipadas. Não sofrem abuso. Mas a que custo?", pergunta o arquiteto e urbanista da Universidade de São Paulo Renato Cymbalista, 41 anos, autoridade no assunto. "A mulher chefe de família na periferia só é um fato positivo se não recai sobre elas toda a responsabilidade de produção e reprodução. Essas mulheres não podem ser as únicas numa casa a ganhar dinheiro", polemiza.
O pesquisador só vê uma saída: medir a desigualdade em que vivem as mulheres chefes, produzindo dados, históricos, relatórios ou, como dizem nos círculos acadêmicos, "fazendo um recorte de gênero." As guerreiras do subúrbio, afinal, não são versões classes D e E de libertárias como Leila Diniz. Nem feministas graduadas e esclarecidas, capazes de fazer discursos sobre o corpo e o desejo, mas gente de baixa escolaridade, que consome o corpo trabalhando como diarista ocupação de uma a cada cinco chefes de famílias.
Ignorar essa condição é um perigo. Os dados da Cohab Curitiba, por exemplo, mostram que 60% delas oscilam entre 31 e 50 anos faixa propicia à condição das um dia chamadas "largadas": o casamento naufragou, o ex-companheiro pouco lhes provê e elas, sem qualificação, entregam-se ao trabalho possível para quem abandonou a escola no ensino fundamental (62% ). Com sorte, ganham por volta de R$ 500 (46%). E mais de 32% das "provedoras" curitibanas não têm renda. Esse absurdo é o resumo da ópera.
Cuidadoras?
A lista de desvantagens em não ter o companheiro por perto é tamanha que se chega a questionar se os assistentes sociais da Cohab fazem bem ao motivar as mulheres a assumirem o papel de titular nos financiamentos da casa própria.
A resposta é sim fazem. Não vale aqui o bordão "ruim com ele, pior sem ele". "Muitos homens trocavam a casa por um carro", conta a assistente social Rosângela Gomes, 34 anos, que atua em programas de regularização fundiária da Cohab. Embora não haja dados conclusivos, o vaivém do marido ou dos maridos tende a levar à perda da casa e ao agravamento das condições de pobreza.
Por essas, dentre os pesquisadores ouvidos pela Gazeta do Povo todos são unânimes em dizer que a política de afirmação da chefe do lar precisa ser complementada com políticas complementares. Do contrário, como observa Rosângela Gomes, corre-se o risco de fortalecer a imagem da mulher como "cuidadora" do lar uma heroína sem direitos. "Já vi mulher com título de propriedade que só olha para baixo, tamanha a servidão em que vive. A chave da casa é uma parte da história", reforça.
Rosângela criada numa ocupação no bairro Santa Quitéria e filha de mãe e avó coragem é mestranda em Gestão Urbana na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Com a autoridade de quem percorreu de cabo a rabo as comunidades da Bacia do Rio Formosa, ela se alinha entre os que entendem o direito à moradia como parte de um direito à cidade. Ou seja, só vale se incluir o acesso à escola, capacitação, geração de renda, orientação para a criação dos filhos.
Os cadastros da Cohab, nesse sentido, mostram que ainda se está no primeiro estágio da inclusão feminina a da mulher que está livre do mau homem, mas que arca com tarefas demais. Não é difícil identificá-las. Nice Maria Michalus, 40 anos, da Moradias Arroio, na CIC, figura entre as 17 mil heroínas resgatadas da zona de risco pela prefeitura. Sua história é a história por uma casa. (leia na página ao lado) Já morou de favor. Agora é titular: quase 40% do que ganha vai apenas no custeio de transporte público de quatro dos cinco filhos. O nome de Nice, claro, é "trabalho".
Não causa espanto que, há três anos, 68% das chefes tenham dito ao ao IBGE que se sentem impotentes para tantas funções. E que gastam quase 25 horas por semana para cuidar da casa depois do expediente. São 3,5 horas/dia é o que pagam para serem as donas da casa.








