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Expedição Paraná

Campos Gerais: sonhos e reflexões

Campos Gerais do Paraná. "Pradarias ondulantes, fora dos trópicos, que avançam para o interior entre os meridianos 25º e 26º, a uma altitude média de 750 metros acima do nível do mar". Assim como a descrição dos engenheiros alemães Joseph e Franz Keller em 1865, a região foi rota de grandes viajantes ao longo da história. "Paraíso terrestre" diria o francês Saint’Hilaire ou simplesmente "belezas campestres" percebidas pelo médico germânico Robert Ave-Lallemant. Limitados ao norte pelo Rio Itararé e ao sul pelo Rio Negro, os Campos Gerais são separados do Primeiro Planalto pela escarpa devoniana. Seu relevo de pequenos morros, vez por outra, apresenta grotas escavadas por arroios, lajeados com muitas cachoeiras e remansos, oferecendo um maravilhoso espetáculo e refresco ao corpo e espírito. Para os índios do Paraná, este paraíso terrestre é o Paiquerê, uma região escondida "nas terras altas", de campos e pinheirais.

Entre as povoações que surgiram nos Campos Gerais no decorrer do século XVIII, devido à intensa movimentação de tropas de gado do sul para o centro do país, Ponta Grossa é a que mais se destacou. Localizada à margem do antigo Caminho do Viamão, a cidade tem suas raízes fincadas no ciclo do tropeirismo, na pluralidade étnica dos grupos de imigrantes e na rede de caminhos cortados pela estrada de ferro. Centro de um importante entroncamento rodoferroviário, Ponta Grossa congrega também em seu entorno muitos atrativos naturais, culturais e históricos. É a porta de entrada para um dos principais pontos turísticos do Paraná, o Parque Estadual de Vila Velha.

Em muitas áreas dos Campos Gerais aflora o arenito que levou Dom Pedro II, quando visitou a província em 1880, a falar que os campos constituem "um tapete verde sobre uma grande mesa de pedra". São campos limpos (gramíneas com capões de matas ciliares) e cerrados (estepes arbustivas) que, na maior parte, foram atualmente substituídos por lavouras de soja, milho, trigo, pastagens artificiais e culturas de Pínus. No Parque Vila Velha, longe do circuito turístico aberto ao público, existe uma formação arenítica chamada de Fortaleza, que ainda mantém características dessa vegetação original. Percorrendo os aceros de Vila Velha – estradas abertas no parque com objetivo de delimitar incêndios – chega-se aos paredões da Fortaleza, com quase 30 metros de altura, que guardam perto dali pegadas de suçuaranas, veados, catetos e outros bichos do mato. Segundo o ambientalista e professor João José Bigarella, a formação arenítica é o resultado do depósito de um grande volume de areia há aproximadamente 340 milhões de anos, quando a região estava coberta por um lençol de gelo. Com as mudanças climáticas, o gelo começou a derreter e se deslocar, levando com ele toneladas de fragmentos rochosos. Mais tarde, abandonados sobre a superfície e com a ação erosiva dos ventos e das águas, acabaram por originar os arenitos de Vila Velha.

Por ser um ambiente muito frágil e sensível, recentemente o Parque Estadual de Vila Velha esteve fechado por quase dois anos para uma reavaliação. Todo o processo vem do ano de 1978, quando uma ação popular foi ajuizada pelo advogado René Dotti, encabeçada pelo próprio Bigarella, tendo como réus o estado do Paraná e outros órgãos envolvidos. Os autores venceram a ação em primeira instância e ficou decidido que o estado realizaria uma série de medidas para preservação do parque. Diante de intermináveis recursos e execução de honorários, apenas em janeiro de 2002 o parque foi fechado para a elaboração de um plano de manejo de impacto ambiental. "Infelizmente Vila Velha lembra para mim degradação, onde sapos de gesso eram colocados na paisagem em vez de cuidarem dos nossos animais. Outro fato que me entristece é a ausência de monitores-guias no parque, já que o compromisso acertado com o governo do estado era de transformar o local numa escola de natureza", desabafa Bigarella.

Assim mesmo, Vila Velha ainda constitui um espetáculo digno de ser visitado e admirado. Semelhantes às furnas que estão no parque, os Campos Gerais de Ponta Grossa escondem uma atração única que justifica toda a beleza desse cenário. Localizado no distrito histórico de Itaiacoca, a 26 km do centro da cidade, o Buraco do Padre é uma espécie de anfiteatro subterrâneo, onde apresenta em seu interior uma imponente cascata, formada pelo Rio Quebra Perna, que caprichosamente despenca de uma gruta. O pesquisador e pedagogo Ney Albach, nascido e criado em Itaiacoca, conta que o nome do lugar está intimamente ligado à história dos jesuítas que ali estiveram. "Os jesuítas dos Campos Gerais eram oriundos das Santas Missões de Guairá, onde trabalhavam com os índios da tradição Umbu. A origem do nome Buraco do Padre vem do costume dos padres jesuítas se dirigirem ao alto do platô para meditarem e descansarem". Apesar de ser uma propriedade particular, o Buraco do Padre está praticamente abandonado. Não existe nenhuma orientação ao visitante que chega no local, muito menos controle disso. O lixo facilmente encontrado nas trilhas e as pichações nas paredes de pedras ofuscam toda a beleza do lugar.

Apesar de todos os contrastes que envolvem o potencial turístico da região, quem visita os Campos Gerais se rende a contemplação e reflexão. É como a lenda indígena do Paiquerê. Os que ali penetram ficam sempre moços, as mulheres, bonitas e os homens, vigorosos. É a morada da felicidade, sonho de todos os homens e que ninguém alcança. Nas palavras do poeta pontagrossense Eno Theodoro Wanke, "eu canto os Campos Gerais / os campos cor de esperança / por onde eu andei criança / os Campos do Nunca Mais!".

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