| Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

A Casa do Vovô, instituição de longa permanência da Fundação de Ação Social (FAS), começou a funcionar oficialmente nesta terça-feira (3) em Curitiba, mas há seis meses começou a receber idosos em situação de rua como seus moradores. A casa, que fica no bairro Pinheirinho, tem 20 habitantes entre 61 e 78 anos que se acostumaram a passar vários deles sem um lugar para chamar de casa. Todos eles foram transferidos da Central de Resgate Social, que ficava próximo ao Terminal Guadalupe e foi fechada em janeiro de 2015.

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De acordo com a FAS, as 400 vagas fechadas se transformaram em 1100, com 10 unidades gerenciadas pela própria prefeitura e oito que operam em convênios com outras entidades, como é o caso da Casa do Vovô, que é administrado pela Confederação Evangélica de Assistência Social do Paraná - Lar Esperança. Lá, os idosos têm cama, comida e roupa lavada - literalmente - além de cuidados com a saúde 24 horas, que depois de vários anos vivendo na rua, acaba ficando mais frágil.

 
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De acordo com a diretora de Proteção Social Especial da FAS, Angela Mendonça, o atendimento que os idosos recebem é ideal para essa fase da vida, onde se busca tranquilidade. “Mesmo tendo passado por muita coisa, todo idoso sonha em ter uma vida tranquila nesta época. Isso não era possível no atendimento anterior, já que 400 pessoas eram atendidas todos os dias”, explica. Na Casa do Vovô, os quartos são menores e os banheiros têm espaços individuais para dar aos idosos mais privacidade na hora de tomar banho. “Muitos tinham vergonha até de tomar banho, já que o tempo na rua deixa muitas marcas pelo corpo”, comenta a diretora.

Autonomia

No lar, os idosos contam com a companhia um dos outros e mantêm a autonomia, podendo sempre sair para passear, ir à missa ou até buscar um trabalho, sabendo sempre que terão um lugar quando retornarem. “Além do acolhimento, eles começam a sentir novamente que pertencem àquele lugar, que aquela é sua casa”, conta Angela. Quando eram recepcionados em outros abrigos, os idosos recebiam a roupa que lhes era disponibilizada e não tinham como guardar seus pertences. Hoje, na nova casa, cada um tem o seu guarda-roupa e ganharam de volta o direito de decidir o que vestir pela manhã. “Nós não pensamos o quanto isso faz diferença porque sempre tivemos isso. Mas esta autonomia é imprescindível para a qualidade de vida”, diz.

A relação com a comunidade também tem uma importância muito grande na vida dos idosos. Além do sentimento de pertencimento, os vovôs passaram a ser percebidos de uma outra forma e com pequenos gestos, começaram a reconstruir vínculos - seja com uma possível família ou com os novos amigos. A cada 15 dias, membros da comunidade vão até o local para promover a noite da pizza, que são assadas e distribuídas entre os moradores. Os funcionários da casa contam que percebem a ansiedade e a alegria dos idosos em comer uma pizza que não tenha sido encontrada no lixo, já que muitos nem lembravam há quantos anos isso não acontecia.

Cantinho para chamar de seu

Um dos moradores transferidos da Central para a Casa do Vovô foi Raul Sérgio Jordão, de 61 anos. Seu Raul viveu parte desta idade na rua, mas não gosta de falar quantos e muito menos dos motivos que o levaram a considerar a calçada do Terminal Guadalupe, no centro da capital, sua casa. “A gente fica pensando no que podia ter feito diferente, não gosto de lembrar disso não”, afirmou. Nascido na cidade da Lapa, Raul trabalhou como porteiro por dez anos e foi depois do falecimento da esposa - que menciona quase sem querer - que tudo mudou. “Ai eu me perdi mesmo, comecei a beber muito e sem parar”. Com a bebida em excesso, seu Raul perdeu o foco, mas não a capacidade de fazer amigos. “Não sei porque, mas as pessoas sempre gostaram muito de mim”, diz. Em uma das várias manhãs em que dormia no terminal, o idoso foi acordado por uma senhora, Dona Marli, que lhe ofereceu um emprego. “Eu fui trabalhar com ela, mas eu bebia muito, as vezes não voltava para lá. Mesmo assim, ela nunca me deixou na mão. Até hoje eu trabalho para ela”, conta Raul, que faz companhia à amiga duas vezes por semana.

 
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Mesmo deixando de beber, o idoso continuou vivendo na Central de Resgate Social e dividia o quarto e os grandes banheiros com diversos outros moradores em situação de rua, o que, de acordo com ele, nem sempre era bom. “Eu não reclamo, porque eles sempre me acolheram. Mas lá a gente não tinha privacidade. Sempre mexiam nas coisas”, conta. Além disso, via sempre o desrespeito dos jovens com os mais velhos e diz que se mantinha afastado para não se meter em confusão. Depois que se mudou para a Casa do Vovô, seu Raul passou a ter o próprio guarda-roupa, onde mostra com orgulho seus pertences bem organizados. O idoso tem o mesmo cuidado com a horta comunitária, que é uma de suas responsabilidades.

A mudança na rotina é perceptível e nem a timidez de seu Raul, que não quer aparecer nem para a foto, é capaz de esconder o sorriso no rosto. O idoso, porém, afirma que, apesar da vida ter melhorado, ainda busca um cantinho para chamar de seu. “Ah, eu ainda vou ter o meu lugar, onde eu possa ficar bem tranquilo, só comigo”, conta. Para isso, ele sai pela comunidade em busca de um emprego. “Não sou tão velho assim, ainda posso trabalhar muito bem. Tenho certeza que vou conseguir um emprego e retomar a vida de onde eu parei, sem olhar para trás”, sonha o idoso.