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Vícios, carência e prostituição nas ruas

Desilusão amorosa, problemas familiares, drogas e prostituição são os principais motivos que levam as pessoas a optar por viver na rua. Mas grande parte que recebe ajuda, dentro dos programas sociais de cada município, consegue sobreviver e voltar a ter uma vida normal. Em Londrina, graças ao programa da prefeitura, chamado de Sinal Verde, Marildo Pires Cardoso, 23 anos, conseguiu abandonar as drogas e retornar para casa. "Quando meu pai morreu e minha mãe passou a viver com um outro homem me distanciei da família. Passava mais tempo na rua do que em casa. Até que conheci as drogas. Comecei com cigarro, tinner e gasolina até chegar na maconha e no crack. Larguei o crack, mas a maconha foi muito difícil. Você precisa ter muita força de vontade."

Marildo já passou fome, roubou e foi preso. Dos 12 aos 20 anos conheceu uma vida bem diferente do que esperava. "Quando bate a vontade de comer, você não pensa muito no que está fazendo. Se precisar roubar, você rouba. Vi muitas pessoas nessas condições e, hoje, posso dizer que várias delas foram mortas pela polícia, pelos amigos e pela própria droga", diz. Apesar das dificuldades, Marildo consegue ter perspectivas bem diferentes. "Larguei meus vícios e com a ajuda do programa conquistei meu primeiro emprego com carteira registrada", afirma. Ele trabalha na Zona Azul, orientando o trânsito da cidade. Ganha R$ 250 por mês, mas já tem esperanças de ter uma vida melhor. "Se não fosse a ajuda que recebi, não estaria a salvo. Precisei ir ao psicólogo e recebi um tratamento especial para melhorar. É isso que as pessoas mais carentes necessitam."

Londrina tem hoje quatro unidades de abrigo com programas especiais para a população de rua. "Já tivemos pessoas que saíram daqui e alugaram um quarto para recomeçar. Quem não consegue essa independência, acaba ficando no abrigo por mais tempo", explica a gerente do Sinal Verde, Sandra Coelho. Em Maringá existem albergues e duas entidades conveniadas que ajudam a resgatar quem está na rua, conta a secretária de Assistência Social, Sandra Franchini da Costa. Curitiba conta hoje com seis unidades de assistência social. (PM)

O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), em parceria com a Unesco, começou um censo inédito no país. A partir desse mês, as 60 maiores cidades do Brasil (com população superior a 300 mil habitantes), das quais 22 capitais, terão o número de moradores de rua contados. São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre ficaram de fora porque já fizeram o levantamento. No Paraná, participam da contagem Curitiba, Maringá e Londrina.

O objetivo do censo é embasar novas políticas públicas que ajudem as prefeituras e o governo de cada estado a lidar com a situação de vida de pessoas como Valdir dos Santos Jesus, 59 anos, e Maria da Glória Gomes dos Santos, 40 anos. Eles são moradores de rua, em Curitiba, há apenas cinco dias. Vieram de Governador Valadares, Minas Gerais, com o mesmo sonho de muitos que hoje não têm lar: conseguir emprego e uma vida melhor em uma grande cidade.

Valdir e Maria deixaram na cidade natal quatro filhos e os netos. Sem emprego e com fome, o casal conseguiu abrigo debaixo do viaduto do Capanema, no bairro Cristo Rei, onde ambos dormem e deixam guardados os documentos e as poucas roupas que trouxeram em sacolas de plástico. Em Minas Gerais, Valdir trabalhava na agricultura e ordenhava vacas. Ele decidiu vir para Curitiba porque, em 1987, tinha conseguido um bom emprego em São José dos Pinhais, na região metropolitana. "Naquela época voltei para minha terra (Minas Gerais) porque queria trazer toda minha família para cá. Mas acabei demorando e hoje chego aqui e tenho essa desilusão. Não consegui nada até agora. Achei que seria mais fácil", diz. Se não encontrar um trabalho, ele e a esposa pensam em voltar para Governador Valadares.

A história do casal mineiro ilustra um dado constatado pela Central de Resgate Social de Curitiba, entre março de 2006 e março deste ano. Das 1.034 pessoas de rua atendidas nesse período, 97 vieram de outros estados com o sonho de melhorar de vida. Em Londrina e Maringá, esse número é ainda maior: 406 e 520, respectivamente (veja tabela acima).

Os números são uma amostra do que o MDS deve descobrir sobre a realidade da população de rua nos 60 municípios brasileiros escolhidos. Em Londrina e Maringá, as equipes de recenseamento já começaram o trabalho de campo.

Em Curitiba, o grupo está mapeando a cidade e encontrando as regiões mais críticas para começar a abordagem, que é feita principalmente à noite.

Até o fim desse mês o trabalho deve chegar ao fim.

Cada morador de rua terá de responder a duas questões simples, que vão apontar de onde eles vieram, se possuem documentos, contato com a família e qual a escolaridade. Um questionário mais longo, com quatro perguntas, vai ser direcionado a apenas 10% de todos os moradores de rua entrevistados. "Nesse caso, o objetivo é abordar com maior profundidade temas como os serviços que essa população consegue ter acesso", explica Flávio Eduardo Silveira, diretor-geral do Instituto de Pesquisa Meta, de Porto Alegre, escolhido para fazer o censo.

Mesmo que algumas cidades já tenham o levantamento, o objetivo da pesquisa é igualar e conseguir obter com precisão as mesmas informações para cada município. "O método utilizado é exaustivo, contudo vai ajudar na elaboração de políticas públicas mais abrangentes. O que existe hoje são os albergues, que nem sempre são eficazes. Muitos moradores de rua se recusam a ir nesses locais, preferindo a rua do que a ajuda dos assistentes sociais", afirma Silveira.

Para Eliana Oleski, coordenadora do Resgate Social, o problema da população de rua é que grande parte ainda não conseguiu abandonar essa vida porque apresenta problemas psiquiátricos e, por isso, muitas vezes é abandonada pela própria família. "Também temos casos graves de alcoolismo e drogadição. Tem aumentado o número de viciados em crack", diz. A questão mais importante, porém, ainda está por conta das esmolas que a população de cada cidade dá para os pedintes. "Ela é a nossa principal inimiga. A esmola reforça a situação do cidadão na rua. Quem tem fome e não ganha dinheiro, vem nos procurar. Agora, se encontra subsídios na rua, com certeza vai permanecer nessa vida por muito tempo", relata.

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