Nas ruas de Arapiraca, as pessoas usam expressões de espanto e de repulsa quando comentam as denúncias que vieram à tona no mês passado envolvendo três padres da cidade alagoana, acusados de terem abusado sexualmente, durante anos seguidos, de coroinhas de suas paróquias. "Não consigo acreditar", disse o aposentado José Pedro de Oliveira, que conhecia e admirava um dos padres há 20 anos. "Um choque. Foi um choque", definiu o comerciante Moacir da Silva, dono de uma lanchonete na região central.

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Essa é a visão da gente que conhecia os sacerdotes por meio de aparições públicas, missas e orações. Mas, entre as pessoas que têm ou já tiveram acesso às sacristias, casas paroquiais, seminários e outras dependências do mundo eclesial, os comentários mudam. Ganha corpo ali outro tipo de perplexidade, que envolve a demora da Igreja na adoção de medidas que impeçam o surgimento dos abusos e, pior ainda, sua continuidade. Em Arapiraca não se leva muito tempo para descobrir que os possíveis abusos sexuais cometidos pelos padres denunciados são tema de conversas há mais de dez anos nos bastidores da Diocese de Penedo - a província eclesiástica que engloba a cidade.

O que se pergunta aqui é: por que a Igreja não tomou providência? Por que deixou se repetir nesta cidade nordestina de pouco mais de 200 mil habitantes o mesmo tipo de inoperância que já foi seguidas vezes observado em diversas partes do mundo, desde meados dos anos 80, quando eclodiram nos EUA as primeiras denúncias de pedofilia envolvendo sacerdotes? Uma das possíveis respostas é que a Igreja ainda se vê como um mundo à parte, capaz de resolver sozinha, com seus códigos e normas religiosas, atos que a sociedade considera criminosos.

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Os transgressores de Arapiraca usaram a seu favor essa atitude da Igreja. Pareciam tão seguros da impunidade que chegaram a tratar o assunto publicamente. Anderson Faria, de 21 anos, um dos três ex-coroinhas que decidiram denunciar os abusos a que teriam sido submetidos, relatou ao Estado que, seis anos atrás, quando decidiu se afastar do monsenhor Raimundo Gomes Nascimento um dos acusados, foi surpreendido com a reação dele. No púlpito diante de fiéis que não entendiam exatamente o que estava acontecendo, ele atacou o rapaz que desejava se livrar dos abusos, acusando-o de ingrato. "Disse que eu estava indo para o caminho do mal", lembrou o ex-coroinha. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.