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 | JOSE ROBERTO CUSTODIO/Arquivo Jornal de Londrina
| Foto: JOSE ROBERTO CUSTODIO/Arquivo Jornal de Londrina

A falta de armamento e a sensação de insegurança – principalmente o medo de assaltos a bancos – fez com que o Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) de pelo menos seis cidades do interior do Paraná arrecadasse dinheiro entre os próprios moradores para comprar fuzis e munições para a Polícia Militar (PM). Os fuzis foram adquiridos a um custo médio de R$ 7,6 mil a unidade e devem chegar aos policiais dos municípios em abril. Nesta semana, associações militares denunciaram que o Paraná cortou pela metade a verba destinada à compra de armas.

Em quatro anos, comunidade de Mandaguari pôs R$ 1 milhão na segurança

Não é de hoje que a comunidade de Mandaguari, no Noroeste do Paraná, põe a mão no bolso para resolver problemas de segurança ou para reforçá-la. Nos últimos quatros, o Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do município destinou cerca de R$ 1 milhão para melhorar as condições de trabalho das polícias Civil e Militar. A intenção da cidade é continuar recorrendo ao financiamento coletivo para aportar dinheiro na segurança.

Localizada a 36 quilômetros de Maringá, o município tem pouco mais de 32 mil habitantes. A economia gira em torno de algumas indústrias e da agricultura. Apesar de pequena, a cidade começa a sofrer com o tráfico de drogas e consequências atreladas ao consumo. Como forma preventiva, os moradores preferiram se organizar.

“Nós excluímos a questão política-partidária e imprimimos uma gestão empresarial ao Conseg. As polícias aqui estavam abandonadas. A gente viu que precisava fazer algo”, disse o presidente do conselho, Márcio Augusto Oliveira Santos.

Além de doações de empresários, o Conseg realiza evento como bazares para arrecadar fundos. Os recursos financiaram a reforma da sede do Batalhão da PM e da delegacia da Polícia Civil. Os prédios também foram mobiliados e equipados até com ar condicionado. Mesmo as refeições dos policiais militares são pagas pela comunidade.

“O policial precisa estar bem. Tem até café da manhã. Tudo de primeira”, garante Oliveira Santos.

O esforço da comunidade tem sido responsável ainda pela reforça de veículos que são usados como viatura. Recentemente, uma caminhonete foi reformada e cedida para uso da PM. “Vamos falar a verdade. Essas Duster não servem pra segurança. Os bandidos estão muito mais equipados”, observa o presidente do Conseg. “Hoje o empresariado entendeu que esse modo de gestão é a uma boa forma de se agir preventivamente. O caminho é esse”, acrescentou.

Falta de armamentos coloca segurança em xeque

Sesp vai comprar mais de mil novas armas

As cidades que recorreram à vaquinha para comprar os artefatos são Sarandi (que tem 90 mil habitantes), Mandaguari (32 mil moradores), Ivaiporã (32 mil), Faxinal (17 mil habitantes), Borrazópolis (7 mil) e Lidianópolis (3,7 mil habitantes), todas localizadas na região Noroeste.

Em geral, o principal problema de segurança desses municípios são pequenos delitos relacionados ao tráfico e consumo de drogas, mas, de uns tempos pra cá, os moradores vivem assombrados com a onda de assaltos a agências bancárias, nos quais as quadrilhas usam armas longas. Nas cidades menores, ficam apenas dois policiais por turno, armados com pistolas. Com os problemas estruturais crônicos das forças policiais, os Consegs decidiram agir.

“Diante da omissão do Estado, nós tivemos que resolver o problema. O empresariado foi assimilando isso e hoje toda a comunidade ajuda”, disse o advogado Márcio Augusto de Oliveira Santos, presidente do Conseg de Mandaguari. Além dos dois fuzis já comprados, a entidade pretende adquirir mais uma metralhadora e duas carabinas 9 milímetros. “O perigo está aí. O Estado precisa demonstrar força”, justificou.

Em Faxinal, o Conseg também fechou a compra de um fuzil para fazer frente às quadrilhas e o pretende instalar, nos próximos meses, câmeras de segurança nas entradas da cidade. O conselho prepara ainda um estudo sobre a viabilidade de montar uma guarda municipal. O exemplo de Faxinal motivou as cidades vizinhas a se articularem e também comprar armas longas.

“O Estado não dá esses armamentos de calibre mais pesado para cidades pequenas. Nossa intenção é fortalecer o poder de fogo dos policiais, que arriscam a vida para nos defender”, apontou o presidente do Conseg local, Cláudio Aparecido Aleixo, que também é secretário de obras de Faxinal.

Aquisição

Os fuzis que serão repassados pela comunidade aos policiais são do modelo AI2, calibre 5,56, fabricado pela Imbel. Além do armamento, os Consegs compraram munições para treinamento e uso. Mandaguari, por exemplo, adquiriu dois mil projéteis para treinar os policiais e 300 para uso em operações.

O caminho para a compra é longo. Depois de manifestar interesse na aquisição, o Conseg precisa de aprovação da Polícia Militar (PM). Em seguida, a compra precisa ser autorizada pelo Exército. O Conseg adquire o armamento e só depois disso a empresa fabrica o artefato.

Falta de armamentos “coloca segurança em xeque”, diz associação

Associações militares se manifestaram, nesta semana, denunciando a defasagem de armamentos da Polícia Militar (PM). Segundo a Associação dos Oficiais da PM (Assofepar), o governo reduziu pela metade o orçamento destinado à aquisição de armas e munições em 2016.

“Estamos desde 2012 pedindo. Tem ‘n’ processos administrativos solicitando compra de equipamento”, disse o porta-voz da Assofepar, coronel Edson Paredes. “A segurança pública não pode sofrer cortes [de orçamento]. Isso é uma piada de mau gosto. [A falta de armamento~] está colocando em cheque a segurança da tropa na rua”, emendou.

A Assofepar disse que não pode quantificar a defasagem, alegando que a informação é sigilosa. Mas o porta-voz destaca que não há armas longas suficientes e a qualidade do armamento também não é boa. Ele criticou ainda o fato de municípios dependerem de doações da comunidade.

“Isso é uma vergonha para uma polícia que já foi considera a melhor do Brasil”, apontou. “Não dá pra brincar de polícia (...) Temos que ter um armamento mais moderno e mais adequado à realidade. Os marginais têm as armas mais modernas do mundo. Não pode ficar uma garrucha contra uma metralhadora”, afirmou.

Vítima

A Associação dos Praças do Paraná (Apra-PR) destaca que os problemas envolvendo os armamentos não se restringem ao interior do estado. A entidade menciona o caso do soldado Lisandro Lara, que morreu ao reagir a um assalto no início deste ano. “Houve uma falha no armamento dele. A pistola ‘engasgou’ e ele acabou atingido e, infelizmente, veio a falecer. O advogado da família tem laudo que comprova”, disse o presidente da associação, Orélio Fontana Neto.

Fontana Neto aponta ainda que boa parte dos coletes balísticos da corporação estão vencidos. Só em Curitiba e região metropolitana, pelo menos 2,5 mil policiais estariam sem o equipamento de segurança. “Os policiais são obrigados a deixar os coletes que ainda estão dentro da validade no Batalhão e ir pra casa desguarnecidos”, expôs Fontana Neto. Nesta semana, a Gazeta do Povo mostrou que os coletes vencidos estão colocando operações da Polícia Civil em risco.

Sesp vai comprar mais de mil novas armas

A Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) informou que estão em tramitação três processos para compra de armamentos novos para as polícias Civil e Militar do Paraná. Segundo a pasta, serão investidos R$ 4 milhões na aquisição de mais de mil novas armas, entre as quais, metralhadoras portáteis calibre 9 milímetros, espingardas calibre 12, fuzis e pistolas Glock – importadas; hoje as policiais estaduais usam a marca Taurus.

A Sesp disse que considera “como uma atitude positiva” a aquisição de armas por meio dos Consegs, mas desta que “dentro da realidade de todo o Paraná, são atitudes isoladas”. A Secretaria acrescenta ainda que a pasta “não está se furtando a suas obrigações de fornecer equipamentos e armamentos necessários às polícias”.

Distribuição

A Secretaria apontou que os armamentos pesados, como os fuzis, só são repassados a policiais que já tenham passado por “treinamento específico e diferenciado”. Essas armas, explica a Sesp, são destinadas a equipar principalmente grupos especiais, como o Bope, o Cope e o Tigre.

A pasta aponta ainda que a distribuição dessas armas são feitas de acordo com o fator criminalidade. “Onde há maior incidência criminal e necessidade de reforçar o aparato – seja ele humano ou equipamentos – recebe mais recursos”, consta da nota. Como exemplo, a Sesp menciona Ivaiporã, que registrou um único homicídio em 2015 e dois roubos de veículos, e que não sofreu nenhuma explosão de caixas eletrônicos ou assalto a banco.

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