O escritor Millôr Fernandes marcou sua posição sobre o Referendo do Desarmamento (2005) com o seguinte poema: Pedem-me um Não, eu digo "Pois sim"/ Exigem um Sim, digo "Pois não"/ E entre o sim e o não/ Eu me mantenho na contramão.

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Millôr põe em evidência duas expressões da nossa língua que significam o contrário do que parecem sugerir ao pé da letra: o "pois sim" significa não, o "pois não" significa sim.

Apresentarei duas linhas de explicação para o fato de tais expressões terem adquirido sentidos aparentemente "incoerentes". Vejam lá: são duas hipóteses.

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A primeira sugere que tanto a expressão "pois sim" como a expressão "pois não" teriam sofrido uma redução fonológica. Vejamos: 1) Você pode me ajudar? Depois sim. Isto é: nesse momento "não". Com o tempo, desapareceu o "de" da palavra "depois" e ficou só o "pois sim". Aplicando ao "pois não" teríamos: 2) Pode me ajudar? Depois não. Ou seja: só se for agora. É o mesmo que dizer sim, eu posso.

A segunda linha de explicação sugere que no começo de tudo tínhamos estruturas como estas: 1) Você pode me emprestar uma grana? Pois você acha que eu não emprestaria? Com o tempo houve um corte de quase todas as palavras e sobraram apenas o "pois" e o "não". O mesmo teria se passado com o "pois sim": 2) Eu sou o melhor de todos. Pois só você pensa que sim.

Independentemente de as explicações estarem certas ou não, o fato é que as duas expressões sempre ocorrem com sentidos bem precisos – por isso não temos dúvidas de que um "pois não" (a expressão mais usada) sempre é uma resposta positiva. E mais: o contexto em que tais expressões ocorrem é fundamental. Como sabemos, as possibilidades de dar sentidos à comunicação são infinitivas. Tanto que, quando dizemos "eu não acredito nisso", talvez estejamos dizendo: "eu acredito".