• Carregando...

A humanidade levou milênios para superar o analfabetismo e espalhar o conhecimento letrado a amplas parcelas da população – o que inegavelmente trouxe desenvolvimento a todos.

Até poucas décadas atrás, saber ler era um diferencial tão grande que representava garantia de emprego certo. Mas a revolução do conhecimento, engendrada pelo fabuloso desenvolvimento tecnológico dos últimos tempos, alargou o conceito de alfabetização. Hoje em dia, buscamos estudar uma segunda ou terceira língua. Estamos sempre aprendendo algo novo em informática. Ou seja, procuramos superar nosso analfabetismo digital ou em idiomas estrangeiros. Caso contrário, o mercado de trabalho nos cobra um preço elevado: o insucesso profissional.

Mas, na correria por crescer em nossas carreiras, muitas vezes esquecemos de olhar aspectos de nossa existência pouco aparentes. Não vemos que somos analfabetos em outras linguagens da vida – não necessariamente relacionadas ao mercado de trabalho, mas igualmente importantes socialmente.

Em minha carreira como jornalista, entrevistei milhares de pessoas. Uma entrevista pode ter vários obstáculos, sobretudo extrair informações que a fonte tenta esconder por algum motivo. Mas dificilmente fazer-se entender é um problema quando ambos falam a mesma língua. Me lembro, porém, de todas as vezes em que uma simples conversa com um cidadão brasileiro – como todos nós – tornou-se um desafio de comunicação.

Foi o caso da entrevista que fiz com um empacotador de supermercado que tinha deficiência mental – justamente para produzir uma reportagem sobre pessoas com necessidades especiais. Que termos usar? Qual o nível de compreensão do entrevistado? Ele me entenderia? Será que teria de dirigir-me a ele como se fala com uma criança, mesmo sendo aquela uma conversa de adultos? Ou ele se sentiria humilhado por tratá-lo como um menino?

Na escola, havia aprendido as conjugações dos verbos em português e até em inglês. Estudei sobre as profundezas do mar e as estrelas do céu noturno. Mas nenhum professor nunca me disse como abordar uma pessoa com deficiência mental.

Percebi, naquele instante, que padecia de um tipo de analfabetismo não convencional. Um analfabetismo que, assim como o outro, exclui. Me exclui do universo dos deficientes e, por tabela, que os deixa à margem do mundo dito "normal". Sem comunicação, afinal, não há o que tornar comum; não há comunidade.

Confesso ainda ser absolutamente analfabeto na linguagem de sinais, com a qual os deficientes auditivos se comunicam. Posso conversar com um norte-americano ou com um inglês com relativa desenvoltura. Mas não conseguiria travar um diálogo com um brasileiro surdo e mudo.

Nosso sistema educacional esqueceu-se das pessoas com necessidades especiais. Não se lembrou de erradicar o analfabetismo que nos impede de fazer parte de um mundo que está ao nosso lado. Um analfabetismo altamente injusto, cujo maior prejudicado não é o analfabeto.

0 COMENTÁRIO(S)
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]