Caros leitores, desde já aviso que este artigo tem prazo de validade. Não no conteúdo. Mas na forma. O novo acordo ortográfico da língua portuguesa, assinado pelo presidente Lula na última segunda-feira, vai tornar obsoleta a grafia de muitas de nossas palavras – algumas delas usadas neste texto.

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As novas regras começam a valer em 1º de janeiro. Até o fim de 2012, a norma atual ainda será aceita. Mas já começo a sentir saudades dos tremas que se vão. Aprendi a apreciar a precisão dos dois pontinhos. Eles são como bons professores: nos fazem dizer o que tem de ser dito, nem que seja tão-somente o som do "u". O acordo vai me roubar, literalmente, a eloqüência da escrita. Provavelmente com o tempo me acostumarei à ideia... assim mesmo, sem o acento, como manda a nova regra.

Talvez vocês, leitores, estejam achando que estas mal traçadas linhas sejam lamúrias de alguém saudosista, até mesmo enjoado. Talvez tenham razão. Mas me deixem com meu enjôo. Afinal, será um dos últimos. Em breve, só terei direito a enjoos, sem acentuação. Admito que me apeguei às palavras tal qual me acostumei a lê-las e escrevê-las. Só quem sabe o que é perder aquilo do que se gosta sabe do que falo.

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Mas o mundo tem de andar para frente. E, nessa jornada, parece não haver espaço para o sentimentalismo. Com a nova ortografia não poderia ser diferente. Ela foi criada para ser racional. Seu objetivo é unificar a grafia nos oito países lusófonos. Mas, mesmo no campo da racionalidade, o acordo deixou pontas desamarradas. Diversas exceções de dupla grafia foram abertas e serão aceitas: econômico/económico, bebê/bebé, fato/facto, seção/secção – só para ficar em alguns casos.

Os críticos dirão que, para toda regra, há de haver exceções. Mas como explicar, então, a racionalidade das novas normas de uso do hífen, que mandam unir palavras como auto-estrada (que será autoestrada) e separar microondas (que terá de ser micro-ondas)?

Também confesso estar intranqüilo – deixem-me aproveitar o trema enquanto ele ainda existe! – com relação à regra que trata da eliminação do hífen em palavras compostas cujo sentido de composição se perdeu no tempo. O texto do acordo cita apenas dois exemplos: manda-chuva, que passa a ser mandachuva; e pára-quedas, que será paraquedas. Quem vai definir quais são os outros casos? Pára-raios terá de ser junto? E guarda-chuva?

Creio que a reforma ortográfica, se tivesse de ser feita, que fosse mais ampla logo de uma vez. Assim, seria mais duradoura. Meus avós – que escreviam pharmacia, orthographia, fructo, estylo, archaico e theatro – tiveram que reaprender a grafia na década de 40. Meus pais, na década de 70, deixaram de redigir êle e sòmente. Sou a terceira geração e passo pela terceira grande revisão ortográfica. Talvez meus filhos tenham de enfrentar uma quarta porque essa foi uma reforma meia-sola. Ou seria meiassola?

Fernando Martins é jornalista.

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