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 | Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo /Arte: Felipe Lima
| Foto: Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo /Arte: Felipe Lima

“Eu fiz castelos com as pedras que me atiraram”, dispara a aposentada Marlene de Oliveira, 59 anos, no portão da casa onde mora. Fica no Jardim Acrópole, às margens do Parque dos Peladeiros, Cajuru. Ela veste uma saia de cigana cravejada de balangandãs. No peito, uma bandeira do Brasil, por trás da qual se pode ler a frase “Quem ama não mata”. Guarda sinais de que foi uma bela mulher. Difícil não reparar nos seus pálidos olhos azulados. Nem nas pontas dos dedos em martelo, pontificados por grandes unhas em forma de goiva. Guardam algum mistério de Wolverine. “São as garras que nasceram em mim...”

As mãos de Marlene ganharam facas por volta de 2006, quando ela recebeu o diagnóstico de fibrose pulmonar. Disseram-lhe ser um efeito colateral, o que lhe pareceu o menor dos prejuízos. “Eu estava cansada de tudo.” Tinha chegado ao fim do expediente. Assim seria, não fosse a carraspana que levou do médico que a socorreu, Carlos Eduardo do Valle Ribeiro. “Você vai escrever. Você vai pintar” – sentenciou à paciente de poucas letras, calada feito uma montanha, e nenhum talento para o desenho. A vida tem dessas coisas.

O livro de memórias Valle dos sonhos: um passado real, lançado em 2011 pela J.M. Editora, é dedicado, como não, ao dr. Valle Ribeiro. Difícil sair impune das 120 páginas. A obra poderia figurar no arquivo mundial de autobiografias de anônimos, colecionadas pelo intelectual francês Phillipe Lejeune. Causa impressão. E dor. “Para mim, ela é a nova Carolina de Jesus”, elogia o poeta e ativista Geraldo Magela, um de seus descobridores, comparando-a à autora de Quarto de despejo. Lançado em 1960, o texto é o mais citado em se tratando de relatos de mulheres pobres, pouco escolarizadas, alvos de porrada seguida de rasteiras.

Com perdão à frase de gosto duvidoso, Marlene encontrou mais algozes do que anjos. Aos 8 anos, foi dada a uma gente de posses – “virei babá de um poodle”. Despachada de volta para a casa da mãe – uma espécie de calvário 24 horas –, encontrou consolo no jogo das contas de vidro, o que faz dela personagem de um Hesse tropical. Alegria passageira. Nas lides das bolinhas de gude conheceu o homem a quem chama de “sujeito”.

Sabe-se que tudo o que ela descreve existe. O que não se considera é que alguém pudesse carregar cruz tão pesada sem virar uma doida varrida

Talvez a Lei Maria da Penha não contemple todas as sevícias a que se viu exposta, sem refresco. Provou do fel nessa ordem – chantagem, difamação, violência física e sexual, privação de liberdade, exploração, furto, tudo à moda das mais sofisticadas torturas medievais. Ao escrever sobre o que passou, contudo, é sóbria como um escrivão. Não carrega nas tintas. Nem é preciso.

A descrição da jovem rodopiada pelos cabelos, esmurrada no ventre ou cravada sem piedade por um pedaço de pau é o bastante para deixar o leitor como que em náusea de roda-gigante. Sabe-se que tudo o que ela descreve existe. O que não se considera é que alguém pudesse carregar cruz tão pesada sem virar uma doida varrida.

Não tome, caro leitor, Marlene por uma mocinha de novela. Lambeu as feridas. Levou, mas também deu. Mostrou as presas. Criou as tais garras, como diz. Depois mergulhou na egotrip que marca a trajetória de muitos miseráveis. Entregou-se ao trabalho, para sustento e vingança. Foi cabeleireira, limpou chão, carregou tijolo em construção, não raro tudo isso num único dia. Ergueu no muque a casa onde mora. À noite, depois de voltar do emprego, jogava o longo cabelo no rosto e se fazia catadora de papel. No Câmbio Verde da prefeitura, trocava lixo por cabeças de cebola.

O traiçoeiro é que quanto mais reação, mais raios caíam nos calcanhares. A doença grave parecia ser a última peça pregada por algum deus distraído. Mas foi desse bagaço que saiu a escritora. E a pintora. A morada suburbana de Marlene tem as paredes lotadas pelas telas que criou. São sua via-sacra. Cada quadro parece invocar uma das estações de sua paixão, morte e ressurreição. Tem Marlene sendo expulsa de tudo que é canto. Apanhando. Erguendo paredes. Agonizando no hospital. O primeiro da série é um Jesus – assim como ela, dotado de estranhos olhos azuis.

Quando terminou a coleção, recebeu a migalha de um milagre. “Nunca mais senti medo.” Foi também nesse momento que começou a dançar, de saia bonita, enleada em correntes que vai atirando ao vento, uma a uma, num strip tease emocional. Chamem-na de pirada quem quiser, ela acha graça e faz pouco. Tem esse direito.

Em tempo, a estreia do balé cigano se deu no Memorial de Curitiba, há dois anos, durante uma exposição das pinturas de Marlene. Ao som de Gipsy Kings. Nunca mais parou. Não estranhe se neste exato momento ela estiver reunida com mulheres, em alguma associação perdida das periferias de Curitiba. Sua fala espinhosa termina com música alegre e rodopios mil. A quem interessar possa, passa bem.

  • Marlene de Oliveira e suas “estações de via-sacra””: telas foram pintadas como catarse pelas dores de uma vida.
  • Detalhes da roupa de cigana e a Bandeira do Brasil. As unhas deformadas são como “garras”.
  • O rosto de Jesus foi a tela que deu origem à coleção. Ao fundo, uma das cenas: agredida por policiais.
  • “À noite, com o cabelo no rosto, para não ser reconhecida, saía para catar papel. Minha família sentia vergonha de mim”.
  • Aposentada, Marlene fala da Lei Maria da Penha para mulheres oprimidas. A elas, presenteia com seu testemunho,
  • Na cozinha da casa que ela mesmo ergueu, no Jardim Acrópole, Cajuru.
  • Ao saber que tinha uma doença grave, “jogou a toalha”. Mas dr. Valle a mandou se erguer. “Foi um encontro de almas”.
  • Autografando Valle dos Sonhos: um passado real: livro segue a escola de Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus.
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