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 | Foto: Antonio Costa/ Arte: Felipe Lima
| Foto: Foto: Antonio Costa/ Arte: Felipe Lima

O auditório da Rádio Guai­­racá, na Rua Barão do Rio Branco, balançava 5 graus na Escala Richter quando o locutor Aluísio Finzeto anunciava que a próxima atração era ela, a "Queridinha de To­­dos", Shirley Terezinha. A década, claro, escreve-se em dourado: 1950. Mas a estrela ainda usava chupeta e sua mãe, Er­­nes­­tina, por pouco não teria de esquentar a mamadeira na cantina do estúdio.

Não fazia mal. A turma queria era ver a "pequenina notável" imitar Carmen Miranda. Tinham motivos: a menina exibia tamanha desenvoltura no timbre e nas cadeiras que faria de outra Shirley, a Temple, uma capiau de Guaratinguetá. "O público a acha­­va uma espécie de garota prodígio", confirma Elon Garcia, 75, um dos veteranos da Era do Rádio no Paraná.

Shirley também acha. Se bem lembra, seus primeiros trinados vieram aos 3 anos de idade, fase em que as crianças gostam de dar gritinhos para testar a sanidade mental dos pais. Pois em vez de berrar, cantou de cor o hit "Ela diz que tem".

Fosse eu, lhe daria uma Crush de brinde. Mas a família deve ter se benzido. Dona Ernestina era fã de Carmen. Além de "tuitá-la" nos caixotões sonoros movidos a válvulas, esbaldava-se lendo re­­vistas de fofocas sobre as rádios Nacional e Mayrink Veiga. Mas daí à guriazinha sacolejar como se tivesse sido criada na Praça 11, parecia um pouco demais. Devia ter puxado ao pai – ah, puxou.

Ruy Castro dos Santos, o pai, fizera carreira como artilheiro do Internacional de Porto Alegre, onde recebeu o apelido de Motor­­zinho. Tinha sebo nas canelas. Em 1948, o craque se tornou técnico do Atlético e ganhou seu passaporte para entrar na galeria da fama paranaense. Fez jus, mas nos anos em que a filha se tornou celebridade havia quem o chamasse de "o pai da Shirley".

Pudera. Não bastasse a panca de corista do Cassino da Urca, a infanta tinha voz. Tanto é que além de cover da Carmen, atacava de Ademilde Fonseca – cantando chorinhos – e de Carmélia Alves – mostrando de onde vinha o baião: de um sobrado da Rua Conselheiro Laurindo, onde os Santos criavam os cinco filhos com a vitrola ligada e muita gemada.

Não dava outra. Em programas como o Ciranda Infantil, comandado por Ubiratan Lustosa na Rádio Marumbi, o reinado pertencia a Shirley. Aos outros, que chupassem o dedo. Quando muito, a diva em cueiros fazia duetos com Bráulio Prado, um garotinho vestido de caubói. Se Eisenhower soubesse, levaria os bons vizinhos para a Broadway.

Tudo indicava que Shirley seguiria Carmen. Tinha a seu dispor até um Bando da Lua, formado por Zé Pequeno no acordeão, Gedeão de Souza ao piano e Jan­­guinho do Rosário no cavaquinho. Gente de fora, como Mar­­lene, Lúcio Alves e Blecaute, cogitou levá-la para o Rio, onde seria recebida como a sambista que veio do frio. Mas nem pensar: estava destinada a cursar Ma­­gistério no Instituto de Edu­­cação e ponto.

Ela bem que tentou um drible à Motorzinho – foi crooner das bandas Garotos Unidos e Boneto, gravou um single e curtiu os poucos benefícios que um artista local então podia sonhar: ganhava calçados da Casas Lorusso e brindes de supermercado. "Bas­­tava eu dedicar uma música à mãe do Pedro Demeterco", diverte-se. O "adeus, batucada" veio nos anos 60, depois de ajudar Emerentino Pacce no programa de tevê Gurilândia. Era hora da "Marcha Nupcial".

A quem interessar possa, Shirley tem 61 anos, 1,54 m e os 48 quilos de sempre. Quanto à voz – pouca diferença: ela é a rainha do karaokê nas festas que promove em sua casa, no Jardim Social. Queridinha, manda lembranças a todos.

Há um mês, Cid Destefani pu­­blicou na página Nostalgia, da Gazeta, uma foto da cantora quando pimpolha, vestida para responder "o que é que baiana tem?" Para surpresa dela, radiouvintes brotaram das catacumbas. "Me ligou até uma fã de Pi­­raquara. Acredita?"

Cinquenta anos depois. É a glória.

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