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José Carlos Fernandes

Cinco minutos de eternidade

  • Porjcfernandes@gazetadopovo.com.br
  • 18/12/2014 21:03
 | Foto: Aniele Nascimento / Arte: Felipe Lima
| Foto: Foto: Aniele Nascimento / Arte: Felipe Lima

Extra

Confira vídeo com Paulo Roberto Oliveira no endereço: http://www.gazetadopovo.com.br/videos/player/?id=16041.

"Um programa de rádio que dura cinco minutos... Isso é muito ou é pouco?", perguntou o presidente da Federação Espírita do Paraná a um dirigente da Rádio Ouro Verde, de Curitiba, durante uma negociação de horário na grade. "Uma eternidade", sentenciou o executivo. Foi em 1992. Nascia assim o Momento Espírita , programa que há 22 anos faz com que milhares de radiouvintes reservem cinco minutos do seu dia para escutar uma boa palavra.

Os números do Momento Espírita são superlativos. É reproduzido em 198 emissoras. Nesse quesito, quem não tem cão "faz um gato". Há relatos de ouvintes de uma cidade paraense onde não há conexão nem nada. Lá, a voz do locutor Paulo Roberto Oliveira, titular do programa, ecoa no meio da Floresta Amazônica, em alto-falantes presos a postes, vulgo "rádio cipó". Não tem galho – um dos 26 CDs com as melhores gravações do programa supre a falta de antenas e o que mais.

Há quem ouça Momento Espírita atrás das grades – como os detentos do Presídio Santa Adélia, em São Paulo. Ou em alto-mar. Um dos ouvintes mais fiéis conta que é tripulante de um navio que roda o mundo. Noite adentro, faz o download de um dos 3.554 textos postados no site. Sua trilha sonora, o barulho das ondas. Não está só. Um ex-piloto da Varig – hoje morador do rico Catar – leva o Momento Espírita para as arábias, um verdadeiro culto secreto nas catacumbas.

Em miúdos, no instante em que você está lendo essas linhas, alguém ouve o Momento Espírita, não importa o lugar, a tecnologia ou a língua – há versões em inglês, francês, italiano e espanhol. Nem o credo. Pois é, o Momento... não surgiu para morder o calcanhar de ninguém. Todos os deuses estão convidados. Já se falou no ar da médica Zilda Arns, de São João Paulo II, da diplomata Araci Guimarães Rosa. Refratário a apologias, o projeto ganhou freguesia sortida, convertendo-se numa espécie de instante universal, um esperanto em ondas médias e curtas.

"Se a gente esperava tamanho sucesso? Claro que não..." avisa, despachada, a servidora pública Maria Helena Marcon, 64 anos. Malena, como a chamam, é redatora-chefe desde 2007, mas sabe do bordado desde o início. Quando tudo começou, a ideia era nada mais do que gravar uma mensagem que atingisse toda e qualquer pessoa de boa vontade. Mas eis que o Momento Espírita virou um clássico radiofônico, levando o povo da Federação a se coçar.

Em poucos anos, a única entrada no ar era às 5 para as 7 da matina. Depois, ganhou versão vespertina. Hoje, são seis entradas, garantidas por quatro redatores, três revisores, técnicos de estúdio. O locutor Paulo Roberto Oliveira pode gravar até uma dezena de textos numa semana. Não raro, algum ao vivo, regalo que cabe a um campeão de audiência. Nessas ocasiões, não é preciso claquete e outros truques de auditório – aplausos e emoções brotam de graça.

Dá para dizer que o programa ocupa no imaginário lugar semelhante ao da hora do Angelus, uma tradição da piedade católica. O Angelus é rezado em dois momentos estratégicos – pela manhã, quando tudo começa e pede propósitos espirituais; e no fim da tarde, quando o melhor a fazer é faxinar a consciência. O Momento Espírita propõe a mesma manobra, com a vantagem de sua fórmula imbatível. A atmosfera solene dá impressão de que fazemos um rolê pela Cidade da Luz. Mas a linguagem é coloquial, sugerindo uma conexão rápida com a eternidade: em cinco minutos estamos de volta, oba.

Se Paulo é a alma do Momento Espírita, como gostam de dizer os federados, Malena é o corpo. Mulher enérgica, chega a escrever três textos numa semana, cobrindo as eventuais ausências dos demais redatores. Não sossega. Rigorosa na forma, pilota frases curtas, diretas, com poucos adjetivos e nunca além dos 3,1 mil caracteres permitidos. Pode surtar diante de uma cacofonia ou reprovar o texto de um colaborador. "Tem de fluir. E não pode ser açucarado, senão perde a mão", decreta.

Boa parte das mensagens que Malena escreve nascem de sua observação. Ela se fez flâneur, uma caçadora de belos relatos. Bate perna, puxa conversa, bota o olho. Dia desses, viu descer do ônibus um homem carregando nos braços o filho excepcional, como se o guri tivesse o peso de uma pena. Impressionada, rendeu-lhe uma homenagem. Ele nem imagina. Como nem sequer imaginam os homens e mulheres que ela encontra nas páginas do noticiário. Jornais são sua fonte. Qualquer notícia pode virar um Momento Espírita. Sabedores do faro de perdigueiro da redatora, há quem lhe cutuque e pergunte: "O de quinta-feira era seu, né?" Nunca erram. É do além.

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