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Adoro aqueles textos de História da Vida Pri­­vada que afirmam ser o amor romântico uma invenção do século 18, um passatempo para donzelas entediadas. E fico admirado com a sabedoria dos biólogos que definem a paixão como "reação química", tão simples de curar quanto uma cefaleia. É só beber muita água, fazer xixi, pronto, vai-se a apaixonite para o departamento de saneamento básico, onde o cloro há de apagá-la.

Depois de ponderar sobre a estultícia das paixões, lamento as árvores abatidas para que romances tolos pudessem ser pu­­blicados. Reclamo o tempo desperdiçado com a cafonice dos ver­­sos que "não sabem falar de outra coisa que não seja o amor". Mas sempre tem um romântico de plantão, assobiando aquela canção do Roberto. Dia desses, fo­­focou-me um desses. "Você pre­­cisa conhecer a história do Gerdt e da Maria." Baixei a guarda e me mandei para a Martim Afonso. Gostei tanto que planejo voltar e fazer que nem criança: "Conta de novo, Maria. Repete, Gerdt".

Maria era ainda menina quando viu Gerdt pela primeira vez. Ela trabalhava numa loja de ferragens em Palmital, Santa Ca­­tarina. Ele tinha uma representada de facões e tesouras. Quan­­do o forasteiro de olhos azuis se achegou ao balcão, ela se pôs atrás da porta. Sempre que o ra­­paz voltava, a guria se escondia. "Ele nunca me viu."

Anos depois, uma amiga lhe arrumou emprego numa casa de família – Albino e Hedwig, os Hatschbach, donos da loja A Favorita, em Curitiba. Maria gostou do que viu: o chalé alemão na Carlos de Carvalho era um sonho. E dentro do sonho morava, ops, Gerdt, então longe dos facões e tesouras e já às voltas com as plantas que o transformariam num dos botânicos mais importantes do país, responsável pela descoberta de nada menos do que 180 espécies.

Maria continuou a olhá-lo, dessa vez da porta da cozinha. E assim se passaram 20 anos. Vin­­te. É verdade que tiveram namoricos, longe dos olhos de Hedwig. Mas nada. "Eu perguntava se ele ia casar comigo. Respondia ‘não sei’", diz brejeira, sem culpar o marido pelo atraso. O homem era um duro. Seu Vanguard in­­glês só enguiçava. O fusca que arrumou, uma carroça.

Quando Gerdt, enfim, saiu da moita, deu à namorada uma aliança feita com o arame da garrafa da champanha. Lua de mel, em Garuva. Logo nos primeiros tempos de núpcias, Maria caiu num banhado durante uma ex­­pedição em Minas Gerais. Riram feito dois piás de vila. Arrisco dizer: naquele dia entenderam que tinham tudo a ver. Ela somava 39 anos. Ele passava dos 50.

Casal sem filhos, os dois fizeram do apartamento em que vivem uma hospedaria para abrigar pesquisadores em visita ao Museu Botânico, criado por Gerdt em 1965. Cada um que passa deixa mensagens nos diários criados por Maria. Tem inscrições em japonês, inglês, alemão, espanhol, híndi, chinês..., todas decoradas com flores e figuras que a dona da casa recorta de revistas de tevê e até de embalagens de Leite Moça.

Além dos diários, a esposa fez livros com as fotos de Gerdt, os postais de Gerdt, as cartas de Gerdt. Pode-se dizer que ali é o Museu Gerdt Hatschbach. "Vou cobrar entrada", esvai-se a apaixonada do Bigorrilho, enquanto serve uma torta de requeijão. Nada mal para o homem que aos 86 anos é responsável por 320 mil exsicatas – nome difícil dado às folhas secas que dormem no herbário do Jardim Botânico.

Uma dessas milhares de plantas se chama Malpighiaceae byrsonima Maria – trepadeira que dá flores amarelas, "sinal de longa espera." Foi batizada assim pelo botânico Bill Anderson, da Uni­­versidade de Michigan – um dos hóspedes da cidadela Hatsch­­bach. Ele pediu licença, catalogou a descoberta, depois pegou o diário e em letra bonita fez a ciência se render ao amor. "Gerdt and Maria...Thank you."

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