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José Carlos Fernandes

No Bacacheri tem uma escola que é o bicho

“A gente está num momento de crise porque o velho não morreu e o novo não nasceu direito. A cultura está meio bagunçada. Sou um mecenas de ideias”, diz Alvaro Neves Junior

  • Porjcfernandes@gazetadopovo.com.br
  • 16/09/2016 03:00
 | Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima
| Foto: Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima

O publicitário Alvaro Neves Junior, 35 anos, tem um livro de cabeceira. Está sebento. Chama-se Pense como um artista ... e tenha uma vida mais criativa e produtiva. A obra leva a assinatura de Will Gompertz, editor de artes da BBC, e arrisca que muitos livreiros distraídos a colocaram na seção de autoajuda. Pois erraram. Gombertz é um iconoclasta, ocupado em profanar a aura de nomes como Vermeer, Van Gogh, Picasso, Duchamp, Abramovic e Hockney, para citar meia dúzia. Seu esporte preferido – mostrar o que há de banal na fatura de homens e mulheres alçados ao posto de semideuses, imunes aos suores e aos cecês. Não os desqualifica, pelo contrário, coloca-os como estivessem sentados no sofá da sala, rindo das Videocassetadas do Faustão. Tanto que ao final de cada capítulo concluímos que podemos ser um deles. Alvaro pelo menos é.

Talvez ele tenha errado a data, mas sua “certidão de nascimento criativa” foi lavrada quando contava por volta de 3 anos, logo que seus pais se separaram. Lembra do Álbum branco dos Beatles se repetindo na vitrola, da garrafa de Coca-Cola e de uma caixa de bombons que lhe deixaram de consolo, talvez ao lado da mamadeira. A refeição, assegura, lhe garantiu os futuros quilos a mais que tanto divertiriam a turma do colégio, anos a fio, debaixo do coro gritando “Bola, Bola”. Quanto aos Beatles, bem, os rapazes de Liverpool o salvaram das ressacas provocadas por carboidratos, açúcares, gases e gente sem coração.

Alvaro é um sujeito dado a sinapses tão ligeiras que um espectador desavisado pode se sentir no pico de uma crise de labirintite

Como a vida não lhe deu refresco, decidiu ser baterista, garantia de que nunca teria vizinhos lhe pedindo favores no portão. Um baterista que carregava a carga toda para os ensaios, numa idade em que mal conseguia acertar o buraco do cinto da calça. Para que se tenha uma ideia da logística, transportava o instrumento no ônibus de linha, à mercê da caridade do motorista e do cobrador. Tudo em nome do Extromodos, seu sonho de mocidade. “Cuida do bumbo para mim?”, implorava, na hora da descida. Foi uma época supimpa, da qual saiu um legítimo... educador.

Vale um aparte. Alvaro é um sujeito dado a sinapses tão ligeiras que um espectador desavisado pode se sentir no pico de uma crise de labirintite. Parece aqueles iluminados que pulam as pedras que cruzam um lago. Queria cursar Música, a mãe aconselhou Comunicação; o pai, Direito, mas ele, que é sobretudo um designer, descobriu-se como um cara dado a pedagogias. “DNA”, resume. Ensinar é sua praia, convicção reforçada no período de mais de uma década em que ofereceu oficinas livres num projeto – hoje extinto – na Rua da Cidadania da Boa Vista. Foram seus anos dourados. Se falar muito, chora.

Uma reportagem do jornalista Cristiano Castilho para a Gazeta do Povo, sobre a pilhagem do projeto, em 2014, está na parede da escola de artes que Alvaro abriu, há pouco mais de um ano, em resposta às rasteiras que tomou. Também na parede, um dos 12 alvarás de funcionamento do local, liberado a tantas penas que Jó lhe ofereceria um unguento grátis. “No Brasil todo mundo é suspeito, a não ser que tenha um advogado e um contador”, alfineta, sobre seus maus bofes com a burocracia municipal. Vencê-la foi um babado forte.

Bom, aconteceu que deu a sua escola o nome de “Contracultura”, palavra cuja origem explica com mesuras a quem lhe pede. Não dá marretadas no parafuso. Conta o que significa libertário, underground, marginal e de uma década chamada 60. Um ou outro quer saber de Woodstock. Informa, e mais do que depressa adianta que é straight edge – um filiado de carteirinha na tribo dos que não bebem, não fumam, não se drogam. Quanto às possibilidades de fazer contracultura hoje, mostra um picho, tipo criptografia, com o nome da escola. É sua criptonita. Fica tudo entendido e a moralidade criativa é restituída.

As instalações são um mimo, mais arrumadinhas do que as tendas hippies, mas tomadas de cartazes com duplos e triplos sentidos. Ficam no Bacacheri e são uma extensão do corpo de Alvaro. Têm dois pisos, e não mais de 80 metros quadrados granitados e vestidos de amarelos e vermelhos. A cozinha vintage combina com a lojinha, idem, vintage. Recebe uma centena de estudantes – apertando. As idades variam dos 6 aos 70 e pedra lascada. Detalhe – nada impede que pirralhos e vovôs dividam alguma das minúsculas salas para uma aula de violão, ou grafitagem, ou pandeiro, a depender do gosto do freguês.

Qualquer comparação com a Escola da Ponte, criada pelo educador José Pacheco, em Vila das Aves, Portugal, não é mera coincidência. Caso alguém esteja com pressa, melhor desviar do assunto. Ele estremece. Fala com gosto. Uma de suas peripécias que fariam José Pacheco virar os olhos têm a ver com a palavra BOSTA. Foi escrita assim mesmo, em maiúsculas, e presa a um cabide. Que os alunos fizessem o que bem entendessem – inclusive pesquisar por que diacho o povo do teatro gosta tanto dela, ou de sua variação para o tema: merda. Pois foi um tal de postar BOSTA nas redes sociais, de reproduzir a palavra nas camisetas – adoram usá-las no cursinho pré-vestibular – ou de fazer dela um “balão” de quadrinhos, perfeito para qualificar espaços de consumo da cidade. Saiu até no Catraca Livre.

Dia desses, um gurizote chegou lá com livros e cadernos do colégio – pedindo para fazer lição de casa. Um cantinho estava de bom tamanho. Sentia-se bem com todos aqueles recortes de jornal forrando as paredes e rostos de Bob Marley serigrafados nos batentes. Sem falar no som ao redor – os da Rápida da Rua Nicarágua formando arpejos com o ruído dos motores dos aviões que aterrissam no quartel. Um charme. Nem o gramado da Sociedade Duque de Caxias, ali em riba, vence a parada.

Alvaro não estranha mais o assédio da vizinhança. Tem adolescente que mal vê o pai e a mãe durante o dia. “Eles fazem Nescau sozinhos”. Bater ponto no ateliê é uma tentação juvenil. Na Contracultura, tudo pode acontecer. E pelo visto acontece. O nascimento de uma banda de rock autoral, por exemplo. Veio sem querer, num dos muitos festivais internos, e de repente virou uma cena de Quase famosos, de Cameron Crowe. Tem colega editando videoclipe. Outro fazendo capa de disco, tudo com temperatura máxima. “A banda se chama Telúrica. É um segredo industrial”, vacila Alvaro. Melhor, era.

Se o nascimento de um conjunto é por si só excitante demais, que dirá quando músicos, idealizadores, colaboradores e primeiros fãs circulam a bordo de uma Kombi, rumo a um show. O modelo é 1983, diesel, com logomarca na lataria e enguiços habituais, não raro na hora do rush. “Kombi não é carro, é Kombi. Desperta afeto. É perfeito. Não precisa chamar guincho. Tem sempre alguém para acudir”, festeja Alvaro.

No mais, rotina de escola. Todo dia alguma coisa sai fora do lugar, e com as coisas, as ideias, e com as ideias, a órbita da Terra. Tem até plantão da madrugada, para atender os mais afoitos. Neves aprova o descompasso: “O whatsapp é a coisa mais contracultura que inventaram”.

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