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 | Foto: Arquivo familiar/ Arte: Felipe Lima
| Foto: Foto: Arquivo familiar/ Arte: Felipe Lima

Me avisaram que ao chegar à Vila Lindóia, era só perguntar on­­de morava o seu Gar­­cia, que todo mundo ia saber. Não precisei abrir a boca. Bastou o carro da reportagem dobrar a es­­quina e já dava para ver uma moça fazendo sinal de "é ali". Ali, no número 25 da Rua Galileu Galilei, não mora nenhum astrônomo, mas um homem bom. E é por isso que na Vila Lindóia qualquer um sabe quem é o Garcia.

Francisco Garcia da Luz tem 90 anos, 1,80 metro, poucos quilos, pouco estudo, voz de trovoada e sua vida não tem nada de­­mais. Ele nasceu em Itaiacoca, perto de Ponta Grossa. Lá se ca­­sou com Rosa e trabalhou na ro­­ça. Aos 30, deixou a enxada para vender árvores frutíferas. Se sua conta estiver certa, ajudou a vingar 50 mil pés de macieiras, parreiras e pereiras, numa rota que vai dos Campos Gerais a Apiaí, lugar mais longe onde acredita ter trocado uma muda por dois cruzeiros.

Mas tem uma conta que não fecha na contabilidade do Garcia – a de quantas pessoas ajudou, desde os tempos de Itaiacoca. Quando a gente provoca para sa­­ber, ele apita um "hiiiiii" e estala os dedos. É seu sinal para cálculos difíceis. E senta que lá vem histórias. Passam pelo Patronato Santo Antônio, pela antiga Peni­­tenciária do Ahú – onde brigava para liberar presos com penas vencidas – e, claro, pela Lindóia, onde mora há meio século.

Por partes. A bondade do Gar­­cia tem data de nascimento. Foi em 1969, quando um sujeito lhe pediu 100 cruzeiros emprestados para ir ao Rio Grande num encontro do movimento católico Foco­­lares. O vendedor ficou cismado. Para alguém se endividar por causa de uma reunião de igreja é porque o negócio devia ser muito bom. Juntou 200 cruzeiros e se mandou pra Porto Alegre, tchau.

O Focolares surgiu na Itália, em 1943, durante a Segunda Guerra, quando três moças se esconderam num abrigo antiaéreo. Uma delas, Chiara Lubich, tinha um Evangelho na bolsa. Ao ler – sem saber se sairia inteira dali – lembrou-se que a vida é breve e que a hora é agora. As gurias se safaram das bombas e criaram uma rede que distribui no mundo todo frases comentadas da Bíblia, todas para já.

Como a Lindóia faz parte do mundo, 450 folhetos por mês chegam à vila e são distribuídos, claro, pelo Garcia. O vileiro, por sua vez, já levou o nome do bairro para a Itália, Alemanha e Por­­tugal, onde contou seus causos de bondade instantânea para outros focolarinos.

Certa feita, o Garcia leu num texto de Chiara que os orfanatos deveriam ser esvaziados. Foi para já: correu atrás de famílias dispostas a abrigar a piazada. Mas "hiiiiii, havia muito órfão". Sem remédio, abriu sua casa de vez para os sem-lar. Tinha três adotados de faz tempo – a Aurísia, o Pedro e a Leonilda. Vieram mais o Nestor, o Yuri e... Ele e a Rosa se perdem na conta dos dedos. "E o João, mandou notícias?" A Rosa – fala grosso e encurta: "Um monte de filhos."

De uns tempos para cá, Gar­­cia, já com as pernas bambas, ajuda os outros é na Galileu Ga­­lilei, 25, mesmo. Um sino pendurado no portão avisa que tem visita. E que lá vem bomba: a turma entra e pede uma oração. Os donos anotam num cartão e levam para a "sala da Ave-Maria", um quartinho de fundos. É o abrigo antiaéreo do casal.

Garcia começa o expediente de rezador às 7 da matina. Ao longo do dia, desfia o rosário – 200 aves-marias. No resto do tempo, escreve pensamentos, que depois imprime e distribui – como uma Chiara Lubich do arrabalde. "Tô rezando para a Graça e pro Zigmundo e família..." Aproveita a prosa para saber se eu sei rezar. "É católico? Praticante? Hiiiiii." Digo adeus ao bom homem. Quando saio, o sino do portão tilinta. Hi, Sus­­peito que alguém reza por mim. Muito grato.

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