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É a treva. Neste momento, "senhores passageiros", em algum aeroporto do país uma indefesa Santa Efigênia do século 18 ou um Menino Jesus de Praga de 30 centímetros – desses que cabem numa nécessaire – podem estar sendo incorporados a um acervo particular de obras barrocas. Tem sido assim nos últimos três séculos, de modo que afanar santos já faz parte de nosso caráter, tanto quanto o jeitinho e a fofoca.

O roubo de peças sacras inspirou, inclusive, nossos melhores prosadores. Antônio Callado chamou atenção para o assunto em 1957, ao escrever A Madona de cedro, espécie de novela das seis, mas de alto teor literário, na qual o apaixonado Delfino, um mineiro, rouba uma imagem feita por Aleijadinho. Quer o dinheiro da venda para se casar com a carioca Marta. Tudo culpa do amor.

Menos romântico foi Jorge Amado. No debochado O sumiço da santa, o baiano imagina Santa Bárbara descendo dos altares para virar Iansã, subir o Elevador Lacerda e dar um rolê em Salvador, como se fosse uma percussionista do Olodum. Nem Woody Allen faria melhor.

Há coisa de cinco anos, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, iniciou uma campanha para reaver 1.685 obras religiosas tombadas e surrupiadas de igrejas coloniais. Só no Rio de Janeiro são 550 itens procurados. O Cristo Redentor que se cuide.

Conseguir devolver ao nicho um Santo Antônio de Lisboa é quase um milagre de Santa Rita de Cássia. Somente há pouco tempo se adotou a tática de fazer boletins de ocorrência, os BOs. De modo que a queixa de roubo de um São Miguel divide a pilha de processos com a de uma Mercedes Benz "puxada no Paraguai" e a da carteira batida da dona Berenice, o que aumenta sobremaneira nossas esperanças.

De acordo com o Iphan, o Paraná tem uma dezena de obras sacras sumidas. Mas quem entende do riscado afirma que essa conta é uma lorota. O dentista aposentado José Maria Faria de Freitas, 72 anos, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá, lembra de cabeça pelo menos mais três santos escafedidos. Fora uma Nossa Senhora do Rocio, não catalogada como patrimônio: há 50 anos a padroeira da cidade dorme fora de casa. "Ah, tem uma Nossa Senhora das Mercês da Capelinha da Cotinga. Sumiu."

João tem tino e qualifica os casos como "roubo seguido de fogo". Explica. O carregamento das santas sempre vem acompanhado de incêndio nos altares, para apagar pistas. Um inferno. Outra tática é a do "turista espertalhão": ele pede ao vigia do templo que tire uma foto do grupo. Ou um copo d’água. Enquanto isso, um comparsa bota a santinha no saco e some no mundo. Seu único custo é o pedágio na 277. "Sabe cumé, quem poderia imaginar uma coisa dessas na pacata Pa­­ranaguá", re­­força o historiador Flo­­rindo Wis­­tuba, curioso em saber quais são as preces dos larápios a suas santinhas sequestradas. "Proteja-me da violência?..."

"É crime de gente graúda", afirmam a uma só voz os sete entusiastas no assunto ouvidos por esta coluna, todos com ganas de dar uns catiripapos nos excomungados. Não poucos sugeriram uma operação varredura por aqui mesmo, bem pertinho, para ver se a gente não encontra os bens do Iphan abençoando alguma rica sala de jantar.

De modo que se alguém, numa ceia de Páscoa, bater os olhos numa Nossa Senhora do Rosário, das Candeias ou de Bonsucesso combinando com o assoalho de jacarandá, denuncie. As duas primeiras supracitadas pertencem à Igreja de São Benedito, de Paranaguá; a última à Matriz de Guaratuba.

A propósito, a Virgem de Bonsucesso, 1,20 metro e formas serenas, não vê as águas da mais bela baía do estado desde 1974. Crueldade. Tudo indica que essa pequena portuguesa chegou àquelas plagas em 1771 – ou seja, arrancaram-na do altar onde viveu por 203 anos. Tadinha.

"O episódio caiu no esquecimento", lamenta Mário Natalino, diretor de Turismo do município, a respeito da sina que recai sobre Cristos e santos sumidos: eles são substituídos por badulaques de gesso que mais parecem promoções da Casa China. Nosso Senhor deve estar uma arara.

O ocorrido em Antônio Olinto, no sul do estado, serve de exemplo. Quem conta é o diácono João Karpovicz Neto, 74 anos. Em 24 de julho de 1995, a igreja ali erguida na virada do século amanheceu sem a sua maior joia: um ícone da Imaculada Conceição todo bordado com corais. Não é filme do Cecil B. de Mille, mas os céus se fecharam e foi tanta reza braba em ucraniano que em uma semana a peça foi localizada em um hotelzinho de quinta, em Ma­­tinhos, sem que a honra da Mãe de Deus fosse arranhada.

"A Virgem voltou de volta. Nunca vi emoção igual", relembra um pândego João, numa das raras histórias de sumiço com final feliz. Hoje, a igrejinha está em dias de ser tombada pelo Iphan. Sugiro que conste nos anais: ali mora uma Nossa Senhora Desaparecida. Rezemos por ela, amém.

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