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José Carlos Fernandes

“Virge Maria que foi isso maquinista?”

A professora de Português era um dos nossos orgulhos em meio a uma escola autoritária, na qual havia pouco espaço para a poesia. Por que diabos não protestamos?

  • Porjcfernandes@gazetadopovo.com.br
  • 20/10/2016 23:01
 | Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima
| Foto: Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima

“Dona Vilma, lembra de mim?” Há três-quatro semanas criei coragem e abordei, numa rua aqui da Água Verde, minha professora de Português no ginásio. Repeti a mesma pergunta que os alunos me fazem, com a vantagem de que não faz 30 e cacetadas que não os vejo. Funcionou. “Você é o... [o Fernandes, digo]... claro, o Fernandes, mas por trás dessa barba, fica difícil...” Por felicidade, ela não achou que eu era um assaltante. Laís Groff – também do ginásio, professora de Educação Artística e com quem consegui manter relativa proximidade – me contou do susto que leva a cada vez que alguém a aborda na calçada, abre os braços cheio de amor para dar e diz: “Dona Laís, lembra de mim?”

Dona Vilma Fedalto e eu tivemos quatro quadras e dois semáforos para resumir o que fizemos de nós. Ela está na casa dos 80 anos, mas me parece a mesma mulher enérgica, recebida com silêncios, assim que entrava nas salas de janelas imensas do Colégio Estadual Pedro Macedo, no Portão. Ali nos conhecemos, em 1976. Para nós, era como se fosse uma representante da nobreza. Sabíamos que tinha parentesco com o arcebispo dom Pedro Fedalto – o que na nossa imaginação equivalia a ser sobrinha do papa Paulo VI.

A gente garganteava que não havia alguém na cidade que conhecesse a língua portuguesa melhor que ela. Lecionava no “Pedrão”, como era chamado o Pedro Macedo, mas apostávamos que o Colégio Estadual do Paraná – nosso arquirrival, considerado “mais forte” – não tinha em seus quadros um profissional do quilate da dona Vilma. Além de análise sintática, manjava de literatura. Por dedução, se sabia das letras, sabia de todo o resto. Não éramos só nós que achávamos. Diante de algum problema no colégio, alguém sempre dizia “vamos perguntar para a Vilma”. E no dia em que miseravelmente não foi recebida com o silêncio monástico com que costumava ser brindada, mas por 30 pirralhos com o diabo no corpo, ela se retirou em desagravo. “Fazer isso com uma professora como a Vilma? Francamente”, foi o que ouvimos de um dos muitos que nos passaram o sabão.

Depois do pito, a moralidade foi restabelecida. Bastava ela apontar na porta – com seus casaquinhos sóbrios e o cabelo Chanel – para que aquele exército de imberbes, trajando blusa vinho e calça vincada, esquecesse como é que se respira. Até que um dia... Suspeito que até hoje insisto para os alunos lerem em voz alta por causa da aula em que dona Vilma nos fez soltar o gogó de piá – quais máquinas a vapor arrancando chispas de um trilho – para recitar Trem de Ferro, de Manuel Bandeira. Confesso que a ludicidade não era seu forte, mas naquela manhã a professora severa se permitiu um jogral – um refresco que ajudou a amainar o clima sufocante das escolas públicas nos anos do regime militar.

A garotada está dizendo que quer uma experiência agora. Diz isso faz tempo

Havia professoras do gabarito de Vilma e de Laís – para citar duas. Havia também nos colégios públicos a convivência entre gente de todas as classes sociais, o que causava um bem danado à civilização. Lembro de na minha turma haver um menino da família Bettega – “dona do Portão, do Novo Mundo e do Capão Raso”, como repetíamos –, mas também um da CIC, bairro ainda em gatinhas, mas já com alguns dos rótulos que carrega até hoje. A turma sabia que era mais modesto que a média, mas também muito melhor nas matérias, um chamariz para que sentássemos a seu lado em dia de prova. Não dava cola. Não atrasava exercícios. Não se perdia entre os devassos que se agrupavam para ver baralhos eróticos atrás do muro da Via Rápida. Paulo César, se não me engano esse era o nome dele, seria um dia afortunado como o Bettega, graças à escola.

Por outro lado, tudo “funcionava” bem porque muitos alunos eram postos para correr. A imagem de um professor de Educação Física dando um pé-de-ouvido num guri de 13-14 anos até hoje me impressiona. Meninos, eu vi. Tem outras barbaridades. Um dos rituais mais sinistros daqueles tempos era a conferência do uniforme, na fila da entrada. Algum pesquisador devia contabilizar quantos dentre os que eram mandados para casa – porque estavam com uma meia azul-marinho, e não preta, como mandava o figurino – nunca mais voltaram aos bancos escolares. Na hora da chamada, dizia-se: “O ‘19’ não vem mais”; “o ‘36’ desistiu”. O palpite é que eles ou encontraram tarefas, digamos, mais estimulantes pelo caminho. Ou deduziram que estavam no lugar errado, afinal, tinham cometido o “crime da meia”. Na tentativa de nos endireitar, a escola nos “mandava passear”.

Recorro a essas memórias – se me permitem – para falar do movimento dos estudantes secundaristas e suas 800 ocupações nas escolas paranaenses. Nos anos do chumbo, nem sequer pensávamos nessa possibilidade, embora não faltassem motivos para carregar o colchãozinho para a sala 7. Seria justíssimo erguer uma trincheira no pátio, com as pilhas de medicine ball que o governo entulhava nos almoxarifados dos colégios (acredito piamente que algum aluno morreu ao ser atingido por uma). Devíamos ter protestado contra as aulas de Educação Moral e Cívica. Pedido a punição de professores que desciam o braço e gritavam nos nossos ouvidos. Usado os instrumentos da fanfarra para denunciar o teatro do absurdo que era vigiar com que meias os guris saíam de casa. Fosse tudo diferente, talvez dona Vilma tivesse lido mais poesias para nós – e contaríamos as horas para a próxima aula da melhor professora do pedaço. “Café com pão, café com pão, café com pão. Virge Maria o que foi isso maquinista?”

O ensino – o que nos custa reconhecer? – fez avanços, claro, mas permanece com sua vocação para a tortura. Dezesseis anos, de segunda a sexta, olhando para o cocuruto do colega da carteira da frente – isso não se faz. Na universidade, vejo alguns estudantes com a cabeça atirada por sobre a mochila, por certo se perguntando quanto tempo falta para tudo isso terminar. O sistema diz que a vida está sempre lá, na frente, deixada para depois. Os alunos se sentem numa infinita extensão do ensino médio, que foi uma extensão do ensino fundamental, e tudo isso pode não passar de uma recusa doentia de reconhecê-los como pessoas inteiras.

Tem aquela frase bacana do Oscar Wilde – “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. A garotada está dizendo que quer uma experiência agora. Diz isso faz tempo. A diferença de ontem para hoje é que, em vez de jogar tolas bolinhas de papel para o alto, escrevem o que pensam, postam nas redes sociais e acampam no colégio, sem conforto e com juízo. Por favor, não tentemos mandá-los para casa, alegando que devem trocar de meias.

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