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Já tive minhas noites de Valburga. Só não entro em detalhes porque alguma névoa sempre há de favorecer as orgias e os sabás. É ruim lembrar de tudo, convém deixar certas lacunas onde empregar a imaginação. Vocês sabem, o tempo embaralha as fantasias. Sorte o meu último carnaval já ter quase um quarto de século. Dançávamos ferozes lambadas, se não me engano. Uma dança prática, que nos permitia pular etapas. E tudo era urgente, questão de sobrevivência. Nos clubes do Litoral, a luta era por cigarro, bebida e companhia. Ganhava quem visse o dia nascer feliz.

Eu me divertia, mas jogava a toalha. No meio da madrugada, fugia do baile e ia me esconder pelos cantos do ginásio. Vergonha de que me flagrassem desanimado. Até parece que me perseguia aquele coro das bruxas do Fausto: “Quem não voar hoje não voará jamais”.

Bem, minhas asas nunca foram grande coisa. Bom perdedor, eu até topava encarar um poleiro. Me punha no alto das arquibancadas, a fim de assistir ao show dos dançarinos na cancha. Ver os paranaenses sambando era um refrigério. Eu admirava aquele esforço coletivo, e era emocionante ver tanta gente ciscando o chão, como se a felicidade fosse brotar entre seus pés, feito uma minhoca desentocada.

As praças e marquises estão coalhadas de sonhadores

Sim, aquele tempo passou, chorando se foi, e Mefistófeles já dizia que o mundo é assim mesmo, quando você vê, tudo está superado. Por isso, nem luto mais. Quer dizer, não nessas trincheiras. E a alegria, embora mascarada, hoje me vem mais fácil, tenho meus macetes. Continuo, porém, acompanhando os carnavais aqui de cima. Do meu terraço na Ébano Pereira, ouço as baterias da Marechal, e vejo o sábado passar, o domingo e a segunda, e nossas ruas esvaziadas de carros, alegóricos ou não. É Curitiba e seu desfile de zumbis e silêncios.

Aqui em casa, tudo quieto. Minha filha mais velha viajou com meus sogros, e a mais nova, vestida de gatinha preta, se enrodilha numa almofada. Dorme. Lá embaixo também dormem outras dezenas de homens e mulheres. Na verdade, apenas se deitam, esperando a hora de dar adeus à própria carne. Tento contar os seus colchões, os sofás espalhados pelas esquinas, mas não dá, são muitos. As praças e marquises estão coalhadas de sonhadores.

E é só falar em sonho para um socó-dorminhoco sobrevoar o terraço. Seguido de outro, e mais outro. Acho que são socós, tem quem os chame de savacus. Garças-noturnas. Bonito nome. Voam direto ao Passeio Público, onde dividem o arvoredo com as garças brancas. Sim, se alguém há de voar hoje à noite, serão estes socós. Amanhã ninguém sabe, talvez seja a nossa vez. Tomara.

Uma velha canção sertaneja sobe do ponto de táxi da Pracinha do Amor. Ah, é só um bêbado que aproveita a passagem das aves para cantar a uma plateia seleta de vagabundos: “Fosse coisa que eu pudesse / também queria voar / pra ir com a garça branca / aonde meu bem está”.

O cantor é vaiado pelos companheiros que, rindo, dividem um tubão como os socós e as garças fariam com um ninhal. Magoado, ele exige explicações para a zoeira, e um de seus camaradas, professoral, explica: “Precisa voar, não. A vantagem de ir pro inferno é que dá pra ir a pé”.

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