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 | Felipe Lima
| Foto: Felipe Lima

Em algum lugar desta cidade uma mulher lamenta o fim do casamento. Vinte anos juntos. Ainda há amor. Mas ele quer ir embora. Ela admite que errou. Começou uma discussão, esbofeteou o companheiro, deu-lhe umas vassouradas. Sim, vassouradas. Foi uma briga feia. Ele revidou. Deu uns tapas nela. Pior, ameaçou se matar, atirando na cabeça com uma pistola. A polícia foi chamada. Um escândalo na vizinhança.

É isso que eu consegui ouvir da conversa entre a mulher que agora pede conselhos e uma amiga dela. A amiga falava alto no celular, conversava e andava de um lado para o outro. E eu, do lado de cá do muro, ouvindo quase tudo. Por que a briga? Por que ele tinha uma arma? E quem interrompeu a tentativa de suicídio? Essas explicações me escaparam. O que ficou evidente foi a falta de disposição da amiga para ajudá-la. "Nunca passei por isso e não sei o que te dizer", repetia ela enquanto repassava os detalhes da história. "Se o motivo era besta, por que você deu aquele tapa nele?"

Foi assim que eu compreendi algo que acontecia em algum outro bairro ou talvez aqui mesmo, na minha vizinhança. Os celulares colocaram as conversas nas ruas, até as mais íntimas. Os problemas de família agora circulam pelos corredores das empresas ("Você não cumpre a sua parte!"), os dramas financeiros são entreouvidos no ponto de ônibus ("Ainda faltam R$ 30 mil. De onde vou tirar isso?"). Imagine então o que seria se pudéssemos ler as mensagens escritas, trocadas às centenas pelos quase 100 milhões de brasileiros que usam celular?

A verdade seja dita: a maioria desses vislumbres da vida alheia que chegam a nós são totalmente desinteressantes, a não ser que você tenha muita imaginação e complete as lacunas com detalhes de amor e sordidez. Aliás, sordidez é fácil. O difícil é enfiar o amor nas histórias entreouvidas, a maioria delas comezinhas demais, passageiras demais. Inúteis. Oh, meu Senhor, por que perdemos tanto tempo com conversas inúteis? Bem fazem os que se calam, se escondem, emudecem. A fala humana é linda e mostra força quando vai além do uso instrumental. Quando se torna uma expressão original, que vem 100% da alma ou 100% do corpo. Um "ai" pode ser uma grande fala, dito na hora certa, para o ouvido certo. Ai – duas vogais e uma mensagem gigante e perfeita. Que brinca com quem fala e com quem ouve.

Falta amor nessas conversas via antena. Brigas por dinheiro (e briga-se por dinheiro quando ele sobra e quando ele falta, com a mesma intensidade) são tediosas e repetitivas. Brigas por amor, sim, rendem grandes desesperos pelos quais vale a pena parar tudo, interromper o passo, não mover nem um dedo para ouvir a voz que vem do outro lado do muro: "Se você ama ele, vai ter de lutar". Sim, a esposa desesperada ama ele e quer lutar, mas como? Um pedido sincero de desculpas não resolveria? Parece que não. Nem eu nem você poderemos ajudá-la. É mais uma história de amor que acaba, esta semana, em algum lugar desta cidade.

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