
Desde que tive filhos, me preocupo como todo mundo, imagino com o que as crianças ouvem de música ou veem na tevê. Descobri como eu era megera quando meu filho mais velho entrou em desespero ao me ver caminhando em direção à sala de televisão enquanto ele assistia a Power Rangers. Alguns estilos de música, alguns filmes, alguns programas eram simplesmente proibidos. Aliás, nem videogame eles tiveram. Tadinhos...
Nós, pai e mãe, apresentamos pra eles Herivelto Martins, Led Zeppelin, Cocoricó, Stanley Kubrick... Na literatura o pai mostrou pro mais velho, quando ele demonstrou interesse, os policiais norte-americanos (Dashiell Hammett, Raymond Chandler...) e brasileiros (Rubem Fonseca, Garcia-Roza...). Uma vez mostrei os filmes A vida de Brian e O Sentido da Vida, do grupo inglês Monty Python. Eles, um a um, piraram. Nunca mais suportaram outro tipo de humor. Entenderam tudo. Todas as citações quando não entendiam, sabiam o que perguntar , todas as intertextualidades, todas as figuras de linguagem metáforas, hipérboles, antíteses. Com o advento dos relançamentos em DVD, mostramos a eles a TV Pirata. A cada 5 minutos tínhamos de pausar pra explicar que aquela era a referência a uma novela que passava na época, ou a uma propaganda. As piadas universais eles sempre entendiam...
Já há algum tempo liberamos suas escolhas. Na verdade, perdemos o controle! Só ficamos mais tranquilos quando vimos que, pra gostar do que eles gostam e pra entender o que eles assistem ou leem, é necessário o tal do repertório de que falei na semana passada. Agora é a vez de eles nos apresentarem as coisas.
Nestas férias, eles vieram com uma tal Comédia MTV. Olhei meio com má vontade, confesso. Mas de repente me aparece uma paródia desses programas "mundo cão", em que vão todos de uma família pra contar uma história de desentendimentos e brigar no ar. O público dá palpite na vida alheia com a autorização escancarada da apresentadora, dos participantes. E os telespectadores se divertem com as mazelas dos outros. Como disse Millôr Fernandes, comédia e tragédia são a mesma coisa. A diferença é que tragédia é quando acontece com a gente e comédia é quando acontece com os outros.
"Clássicos de Família". Hahaha... A família em questão era a do Darth Vader e da Padmé Amidala com seus filhos, Leia Organa e Luke Skywalker. Jovens desajustados. Irmãos gêmeos separados ao nascer em meio à saga de Guerra nas estrelas. Gente! Por que eu não pensei nisso antes?! A família mais baixaria dos anos 80! Ele passou pro "lado negro da força". Ela morreu dando à luz...
E desse vídeo no YouTube vieram muitos outros. Tem uma tal de "Gaiola das Cabeçudas", também da Comédia MTV, em que Marcelo Adnet apresentador, imitador, cantor, improvisador... faz um pout porri de funks. Valendo-se do espaço midiático avantajado e da indústria milionária que existe por trás desse estilo de música com apelo popular, letras repetitivas e cheias de insinuações sexuais, o humorista faz o caminho inverso. Toma conta dessa melodia de fácil acesso e mostra, nas letras, uma série de referências que só faz rir quem se dá conta de que o engraçado é a antítese.
Alguns exemplos: no tal do "créu", ele cria várias questões cujas repostas rimam em "éu" Maquiavel, Buñuel, George Orwell ; naquele funk "Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar", a paródia ataca: "Eu só quero é ser feliz, comprar a coleção toda do Machado de Assis e poder me orgulhar, aqui na minha estante os nacional (sic) têm seu lugar".
Pra mim nunca ficou tão evidente o tamanho do serviço público que esses artistas que se dedicam ao humor fazem. Inclui-se aqui o cartunista da casa Benett. Como bem nos esclareceu Alfredo Bosi professor do professor de Português aqui de casa , a cultura de massa se apropria da cultura popular e a destrói na medida em que é imposta pelas leis do consumo imediato. Adnet e turma subvertem o jogo: apropriam-se da cultura de massa pra produzir cultura erudita, que exige escolaridade pra se rir.
Com esse humor que foge dos bordões, da mesmice, das frases repetidas e nos brinda com o inusitado, recheado de repertório dá até pra ter esperança de que as boas produções serão um dia reconhecidas. De que pelo menos uma parte da juventude que vive nessa letargia de um projeto idiotizador, do qual eu já falei na minha coluna inaugural, perceba que tem um mundo com coisas bem diferentes daquelas que se travestem de única opção.
Aristóteles, na Arte Poética, considerava tragédia e comédia muito semelhantes. À espera da catarse dos expectadores teatrais, a tragédia viria para punir o público. Enquanto a comédia viria para corrigir os costumes. Parabéns a Marcelo Adnet, Dani Calabresa e companhia por serem babás eletrônicas preceptoras de nossos filhos.
Semana que vem já é fevereiro e a brilhante Marleth Silva volta à coluna. Quero dizer que foi um prazer substituí-la e que aqui estou quando precisarem de mim.
Luciana Worms é advogada, radialista, professora e autora de Brasil século XX Ao pé da letra da canção popular, vencedor do Prêmio Jabuti



