Casaram-se na cidadezinha onde passaram a infância e logo se mudaram para a capital. A viagem de núpcias não teve nenhum romantismo, eles dividiram um ônibus com um time de futebol que havia ido jogar no interior.

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– Foi a lua de mel mais coletiva de todos os tempos – ela gostava de dizer, para provocar o marido.

Mesmo assim, vieram abraçados num dos bancos da frente, ouvindo a algazarra dos jogadores, mas sem perceber a presença deles. Os jovens estavam seguindo direto para uma vida conjugal que pertenceria só aos dois.

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Na madrugada, durante a parada do ônibus, não abriram champanhe para comemorar a primeira noite juntos. Ele pediu duas garrafinhas de Choco Milk, virando-as de cabeça para baixo e batendo com força a palma da mão no fundo, para desprender o chocolate concentrado embaixo. O líquido foi se escurecendo rápido, depois o atendente abriu as duas garrafas e eles beberam no bico, sem nem pensar num brinde.

Chegando ao apartamento de bairro, dormiram juntos a manhã inteira. Na hora do almoço, improvisaram um macarrão alho-e-óleo. Foi a primeira refeição das muitas que viriam, algumas improvisadas, a maioria planejada em conjunto. Nenhuma mais saborosa, para ele, do que aquele primeiro macarrão.

– Todo macarrão para você é sempre o primeiro – ela diz, denunciando a sua queda por massas.

Ele ri com cara de glutão, de quem não dispensa o almoço completo – duas saladas, amido, feijão e carne, todos os dias, na hora certa: entre meio-dia e quinze e meio-dia e vinte cinco.

Ainda no começo da vida conjugal, quando a eternidade estava diante deles, e viver era de uma inconseqüência matinal, eles fizeram a primeira grande aprendizagem.

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Um amigo dele, solteirão com uma vida mais ou menos boêmia, convidou os jovens para uma tarde de música na casa de um amigo. Ele nunca foi bom nesse negócio de cantar, sempre detestou a própria voz, forçada ao extremo para se fazer audível e, por isso, agressiva. Ao natural, nos momentos íntimos, sua voz quase desaparece e tem uma suavidade de música de fundo. Mas para se comunicar, principalmente em público, ele força as cordas vocais e os músculos da boca, e se torna a dissonância em pessoa. Não se sente por isso à vontade em ambientes musicais.

Mesmo assim aceitou o convite. Chegaram ao endereço sem avisar. Era fim de tarde. A mulher os recebeu alegre, com roupas domésticas. O filho único logo saiu do quarto. A mãe pediu para que pegasse o violão. Ela trouxe cervejas, eles começaram a beber enquanto a mulher voltava para a cozinha, ia fritar batatinhas.

Nisso, ouviram o som longínquo de um violino. Todos ficaram em silêncio. A mulher voltou com mais cerveja, mas todos ficaram parados uns segundos.

– Está martirizando os vizinhos – a mulher disse, e todos riram.

– Vou chamá-lo – falou o filho.

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Que se levantou, abrindo uma porta e subindo por uma escada. O jovem casal se serviu de mais cerveja, ouvindo os passos nos degraus de madeira. Passos que subiam, apressados. Uns minutos depois, voltaram lentamente, duplicados.

Pai e filho entraram na sala estampando nos rostos uns sorrisos generosos.

O amigo solteirão brincou:

– Aí vem o músico.

Eles se abraçaram. Foram feitas as apresentações. Todos se sentaram. Chegaram mais cervejas e a primeira travessa de batatinha gordurenta e deliciosa. Eles já estavam se preparando para começar as músicas. O filho afinava o violão. O jovem, cuja timidez havia sido suspensa pelo álcool, perguntou se o dono da casa era músico profissional.

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– Bancário – ele falou, tirando uma batatinha da travessa.

– Ah, entendi – o jovem disse, mas não tinha entendido nada.

O dono da casa então explicou.

– Estou me preparando para a velhice.

– Pensei que ela já tivesse chegado – o amigo solteirão provocou.

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– Quando me aposentar do banco, daqui uns dez anos, quero ter no que me ocupar. Talvez participe de uns desses grupos que tocam chorinho na praça aos domingos. Talvez apenas continue tocando no sótão de casa.

– Isso se os vizinhos não fizerem um abaixo-assinado contra a poluição sonora – o amigo disse.

– Vou providenciar isolamento acústico – o bancário explicou, com uma paciência infinita – É preciso ter um projeto para quando a vida profissional não exigir mais da gente. Não quero ocupar o lugar dos mais novos, quero me aposentar e me trancar alegremente no sótão.

Não conversaram mais naquele começo de noite. Apenas cantaram e tomaram cerveja. Muita cerveja. O jovem acompanhou todas as músicas com sua voz mais suave. De tempos em tempos, beijava a esposa.

Os dois chegaram ao apartamento ainda cantando, e rindo. Dormiram muito aquela noite e acordaram tarde na manhã seguinte. Quase na hora do almoço.

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– Vou fritar batatinha – ela falou.

– Busco umas cervejas.

Mas não fizeram nada disso. Ela preparou um macarrão. Abriam um vinho que envelhecia no armário. E depois foram a um parque.

A vida passou rápido. Ele fez este ano a primeira contagem de tempo de serviço. Faltam 15 anos para se aposentar.

À noite, sorrateiramente, como quem foge de inimigos, ele finge buscar algo no quarto e não volta. A família – agora os filhos já estão moços – assiste a algum programa de televisão. Ele fecha cuidadosamente a porta, liga o rádio-relógio bem baixinho, veste o pijama, acomoda-se nas almofadas da cama, apagando as luzes e acendendo o abajur, para abrir um dos livros que se acumulam no criado-mudo. É assim que exerce o seu direito de habitar um sótão, mesmo morando em um prédio de apartamentos.

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