
Pelo excesso de chuva, nossa casa está sendo invadida por lesmas. Lesmas escuras, que lambuzam (há quanto tempo não usava esta palavra!) o chão e as paredes. É natural que todos tenham nojo de lesmas, pois elas negam a evolução da espécie animal.
Como descendente direto de caçadores, sou escalado para livrar a família do perigo de se confrontar com este ser espasmódico.
Também sou chamado para caçar aranhas, mariposas ou mesmo um ou outro passarinho que invade nossos domínios. Meu filho, na curiosidade de seus quase três anos, se diverte com a missão paterna. Não posso fraquejar na frente dele. E piso com força na aranha, esmagando-a. Ele tem que saber que o pai pertence à linhagem daqueles homens rudes que saíam em busca da caça para alimentar o clã.
Passarinhos eu costumo perdoar, não os mato tal como fazia na infância, quando eram tão comuns as passarinhadas com polenta. Não os sacrificamos mais porque nos tornamos contemplativos efeitos da civilização que nos dá tudo pronto. Deles só queremos o som, principalmente depois das 8 da manhã, quando já estamos acordados.
Passarinho entrou em casa, eu saio correndo atrás, o maior estardalhaço, o bichinho se estressa um pouco, meu filho se admira da minha coragem e, depois dessas perseguições farsescas, deixamos que ele escape.
Faço a mesma coisa com as mariposas. Mas como tratar as lesmas?
É difícil amar um ser tão primitivo, e que suja tudo por onde passa. A lesma nos remete às coisas mais horríveis. Ela é desprotegida demais. É como uma parte móvel de nossas vísceras. Não podemos ter piedade de algo assim. Devemos exercer toda a nossa fúria primata contra ela.
Queremos, lá no fundo, cultivar nossa ferocidade, nem que seja como teatro. Já percebi que, mesmo não gostando de churrasco mal-passado, de vez em quando me vem a vontade de provar desse tipo de carne. E ataco um pedaço de picanha rubra, mastigando com ódio aquele naco de carne ancestral. Ou peço um ovo frito meio cru e deixo a gema escorrer no arroz branco, sujando prato, garfo e meus lábios. Estou lutando com outras espécies para sobreviver, como descobriu titio Darwin.
E agora tenho diante de mim uma lesma. Meu filho olha a intrusa e diz:
Matar, papai.
Seus olhinhos brilham. Estamos num momento de perigo. A espécie humana contra os insetos invasores. Lá na mente de meu filho, uma lesma não se encaixa em nada que ele entenda como doméstico. Precisa ser eliminada impiedosamente.
Não posso correr atrás da lesma. Ela quase não se mexe. Tocada, contorce-se toda, revelando a parte de baixo, branca e em formato de vagina.
Dela barriga, papai?
Digo que sim. É o primeiro reconhecimento que meu filho faz do monstro.
Não vou também pisar nela no chão da sala. Além de sujar minhas sandálias, deixaria uma gosma no piso. É preciso tomar providências militares. Retirar o elemento da área social.
Uma folha de papel peço.
Meu filho sai correndo e volta com a folha, que retirou da impressora.
Ati, papai ele diz em seu idioma-mirim.
Recolho aquele ser que se retorce e, em ritmo de marcha, vamos para os fundos do quintal. Meu filho me segue multiplicando seus passinhos infantis.
Jogo a lesma numa pedra do jardim e volto para a cozinha; o soldado fica cuidando da prisioneira sem retirar os olhos dela.
Reapareço com um punhado de sal na mão. Meu filho não consegue entender o poder desta arma química.
Quando éramos crianças, adorávamos matar lesma com sal. Primeiro soltávamos umas poucas partículas sobre o corpinho esponjoso dela e ficávamos vendo as reações: ela começava a se dissolver. Os químicos devem saber explicar este fenômeno que nos divertia tanto. Depois, cobríamos a lesma com bastante sal para acompanhar a sua mudança de estado ela virava uma pasta escura.
Ia demonstrar isso a meu filho. Fazia parte de uma aprendizagem masculina. E teríamos coisas em comum em nossas infâncias.
Olha, papai! ele quase grita.
Abandono as recordações e vejo a lesma que, depois de se familiarizar com a pedra, começou a se arrastar para a grama, onde estará mais segura. Ou jogo o sal agora ou terei que trazê-la de volta para uma área livre.
Molho o dedo indicador no sal que trago na palma da outra mão e o coloco na boca. Meu filho pede para fazer o mesmo. Penso: a humanidade pôde evoluir quando aprendeu a usar o sal para conservar as carnes.
Igual o mar, papai.
A todo momento, ele repete a palavra "papai". A segurança que ele sente em casa vem do conforto que umas poucas palavras lhe dão. Papai. Mamãe. Cacá (a irmã). Tête (o leite). Pupú (a chupeta). Mólo (o travesseiro).
Bom ele diz, ao tocar de novo a língua no seu dedinho salgado.
Esquecidos do embate, buscamos a casa, aliás, a caverna, como dois caçadores que voltam de mãos abanando.
Olha, um cacol ele sempre engole algumas sílabas.
Na parede de casa, um caracol sobe com sua couraça transparente. O caracol é uma lesma evoluída. Perdeu a rusticidade, criou anteparamos entre si e o mundo, e já não nos assusta.
Bonito, né papai?
Sim, é bonito, muito bonito.
E ficamos admirando aquele serzinho lírico.







