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Miguel Sanches Neto

Memória do leite

  • Por
  • 06/11/2007 19:29

"Eu, que sou do tempo em que se podia viver sem saúde, em que o regime gorduroso era não só tolerado como defendido pelas famílias, pois ninguém agüentava um dia de trabalho sem comidas fortes, com muito carboidrato e gordura, pois bem, eu que vivo à sombra deste mundo perdido ainda prefiro o leite de antanho (explicação: antanho não tem nada a ver com anta)."

Chegamos ao cúmulo da corrupção – falsificar leite. Como o preço cresceu absurdamente, e conhecendo o altruísmo de nossos empresários, eu já vinha notando algo estranho nos derivados. Por exemplo, o requeijão em pote que consumimos aqui em casa, de uma marca-líder, deixou de ser pastoso para ficar quase líquido. Antes, passávamos o requeijão nas broas com uma faca de mesa – agora, estamos usando colher.

Adulterar o leite, convenhamos, sempre foi uma prática comum entre os produtores. Até aí, nenhum espanto. O que mais me assustou foi o que se acrescenta agora ao leite. Poderíamos voltar aos velhos métodos de só adicionar água. Era mais honesto. E causava efeitos colaterais positivos no consumidor. Pois é sabido que todo mundo está precisando perder uns quilinhos e o leite aguado tem um teor menor de gordura. E há de se reconhecer que, uma vez no laticínio, ele será mesmo acrescido de água para produzir esta maravilha da sensaboria que é o leite desnatado – a que me submeto na vã esperança de emagrecer. Tudo bem analisado, o acréscimo de água ao leite é medida preventiva, e não deve ser creditado ao desejo de lucro do produtor e dos intermediários. Acredito que o Ministério da Saúde deveria incentivar a adição de H2O em todos os níveis de processamento do leite. Pois todos queremos um país com mais saúde.

Eu, que sou do tempo em que se podia viver sem saúde, em que o regime gorduroso era não só tolerado como defendido pelas famílias, pois ninguém agüentava um dia de trabalho sem comidas fortes, com muito carboidrato e gordura, pois bem, eu que vivo à sombra desse mundo perdido ainda prefiro o leite de antanho (explicação: antanho não tem nada a ver com anta).

Digo para minha filha, criada já no leite de caixinha:

– Você nunca bebeu leite de verdade.

E ela apenas me olha com desânimo, indicando que começou a sessão retrô.

Gosto de chocar. Então conto os detalhes.

O gado ficava preso na mangueira – um quadrado cercado com madeiras na horizontal e com uma parte coberta. Hoje, temos que traduzir tudo, pois este mundo parece tão distante da maioria da população. A mangueira não tinha piso, era chão fertilizado pelas bostas das vacas e pelo mijo abundante, produzindo uma pasta pisoteada pelos animais. O cheiro que vinha da mangueira era ácido, lembrando uréia (leia-se urina), e até hoje me encanta. De vez quando, antes de ultrapassar algum caminhão que transporta gado, abro as janelas do carro e aspiro o perdido aroma da infância.

– Credo, que nojo! – protesta minha filha.

Naquela lama de dejetos e terra, meus tios e meu avô tiravam o leite. À tarde, as vacas eram separadas dos bezerros para que, pela manhã, pudessem dar o líquido esperado. Antes do nascer do sol, elas eram peadas. A pessoa encarregada da ordenha chegava com um balde, agachava-se, espirrava o primeiro jato de leite nas mãos rachadas e calosas, lubrificava as tetas e começava o movimento de apertar e puxar que, na minha cabeça suja, tinha algo de sexual.

Não obstante tudo isso, o leite saía branco, espesso, cheiroso. Terminada a ordenha de uma vaca, ela era solta para ficar com o bezerro, que procuraria o resto de leite. O conteúdo do balde ia para um tambor ou direto para os litros.

Estava ainda nascendo o Sol quando, depois de ser acordado por meu padrasto, eu seguia sonolento para a chácara de meus avós, que ficava a uns 300 metros de nossa casa – morávamos na última rua da cidade, naquela época sem calçamento. Seguia com dois litros vazios. Ia direto para a mangueira, onde os homens já estavam adiantados com a ordenha. Um deles se aproximava com o balde cheio, colocava o funil de alumínio na boca dos litros e despejava o leite morno. Eu tampava os litros com uma rolha e fazia o caminho de volta.

Chegava com a mesa sendo posta. A mãe fazia pão caseiro e lá estava um deles, rechonchudo. Ao lado, a lata de margarina. Havia também o bule de café. Faltava apenas o leite, que eu deixava na pia. A mãe tinha escolhido um guardanapo alvo, colocado sobre um caldeirão. Os dois litros eram coados. E no tecido branco eu podia encontrar, dependendo do dia, pequenas bolotas de terra, de fezes, capim, pêlos. Depois desta filtragem, o leite era fervido e chegava à mesa com uma espessa camada de nata.

Meu padrasto bebia algumas xícaras de leite puro e não comia nada. Nós o misturávamos ao café. Esta dose matinal e mais duas fatias grossas de pão lambuzadas de margarina eram todo o nosso alimento até a hora do almoço.

Naquele tempo, encontrávamos no leite apenas as impurezas próprias da ordenha manual e rústica. Com um senso aguçado de honestidade, meus parentes nunca adulteravam o produto que os vizinhos buscavam na chácara.

Comentava-se que um leiteiro conhecido, que fazia entrega a domicílio, não era mais confiável. Ao coar o leite, uma dona de casa tinha encontrado um lambari morto. Ele estava adicionando água do rio.

Muitos anos depois, um primo meu foi flagrado batizando o leite que ele entregava à cooperativa. Na mesma época, o motor do trator dele fundiu porque havia esquecido de colocar água no radiador. Meu padrasto pontificou, biblicamente:

– A água que ele põe no leite para ganhar uns centavos a mais por litro é a mesma que faltou no trator.

Ainda na infância, minha mãe fazia doce de leite com o excedente da produção. Minha avó preparava um requeijão duro e delicioso. Vinha em vasilhas de cozinha, de onde tirávamos pedaços para esquentar, numa panela com água, na hora de comer. Nunca mais experimentei esse requeijão rústico.

Talvez embalados por estas memórias, passando um dia por uma loja, minha mulher e eu compramos baldes de alumínio idênticos aos que eram usados na ordenha. Servem aqui em casa como cachepô para vasos de flores ou apenas para decorar a cozinha.

E é nesta cozinha contemporânea que abrimos caixas de leite longa-vida com o mesmo sentimento de logro que os baldes decorativos produzem em nós.

www.miguelsanches.com.br

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