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Meu pai era um homem cheio de superstições. Quando entrou um passarinho em casa, ele intuiu que iria morrer alguém da família. Não sabia, pobrezito, que isso aconteceria dias depois e seria ele a vítima.

Isso explica o fato de não querer que seu primogênito fosse registrado no dia tão mal-afamado em que nasceu – 24 de julho de 1965. Acabei registrado no dia 25 – quando se comemora, fui saber muitos anos depois, o Dia Nacional do Escritor, instituído por decreto em 1960.

– Nada acontece por acaso – disse meu mestre, com um sorriso de deboche, quando soube desta coincidência.

Talvez ele quisesse significar que sim, sou um escritor que faz jus a comemorações desta natureza, um escritor confortável na pele apertada de um provinciano. Poderia até escrever um poema emotivo sobre esta data tão importante no calendário escolar, participar de um concurso de redação ou escrever uma crônica – aliás, é exatamente isso que estou fazendo agora.

Leitoras e leitores (para usar a mania de dirigir-se isoladamente aos dois sexos), vocês têm aqui um autor que foi registrado no Dia do Escritor. Um espécime raro, portanto. Existem muitos escritores maiores e melhores, mas será difícil encontrar em língua portuguesa alguém que recebe os parabéns por seu aniversário e pela honrosa data comemorativa. Muito obrigado.

– Uma das alegrias da literatura... – eu ia dizendo.

– E existe alguma? – me interrompeu meu mestre.

Tenho que rir. E pergunto: de fato, existe alguma alegria?

Mudo o rumo da conversa e passo a falar de política. Mas fico meditando: "Uma das poucas alegrias da literatura é..."

Não, realmente, nenhuma alegria plena nos dá a literatura. Meu mestre está coberto de razão. Sai um livro da gente e, por mais que ele aconteça na mídia, um pequeno episódio, um leitor amigo que não deu importância ao lançamento, já nos fere para sempre. O livro ganha uma matéria elogiosa no principal meio de comunicação, mas nosso nome aparece errado. Pronto, voltamos a ser o casmurro de sempre. São coisas assim, pequeninas, que machucam o escritor, este ser com os nervos à flor da pele. Se somos ignorados pelas entidades culturais, sentimo-nos terrivelmente tristes. Se nos homenageiam, não conseguimos nos contentar com os adjetivos usados, achando que merecemos mais, muito mais.

– A literatura – digo para meu mestre – não dá alegria para quem escreve, apenas para quem lê.

– Desde que não se leia com espírito crítico.

Verdade. Também são pequeninas as alegrias do leitor. Assim, não sei bem o que devemos comemorar no dia 25 de julho, esta data dedicada a depressivos, descontentes, tímidos, alcoólatras, ególatras, agressivos, perturbados, etc.

Mas gostamos de ser lembrados; até os mais reservados nutrem com amor suas vaidadezinhas, eles apenas não têm coragem de confessar publicamente. O mundo nos ignora durante todo o ano, então esta é uma chance de conquistar espaço e mostrar que não somos assim tão invisíveis. Então, todo mês de julho, fico esperando as merecidas homenagens.

Neste ano, recebi um telefonema de um jornal de uma cidade importante do interior. Estavam fazendo um caderno especial para o dia 25. Não sabiam que era o dia do meu aniversário, tinham resolvido me convidar por minha "trajetória de sucesso na literatura". O jornalista, muito educado, disse que eu iria abrilhantar o caderno.

Depois eu fico reclamando dos jornalistas. Dão sempre todo o apoio para quem realmente se destaca na cultura. O meu interlocutor forneceu detalhes. Seria um caderno colorido. De 32 páginas. Uma coisa para chamar a atenção. Perguntou-me se eu tinha fotos boas. Poderiam publicar uma bem grande. Ou um álbum com fotos dos vários períodos de minha vida, ao lado de uma cronologia que ele mesmo escreveria, com dados fornecidos por mim. Perguntou-me também se eu não possuía algum soneto para ‘ilustração’ – o termo era dele.

– Soneto, soneto mesmo não, mas poderia arrumar um poema.

– Perfeito, isto também serve, queremos contemplar todos os gêneros literários.

E ele listou os melhores tamanhos para poema, foto, cronologia.

– E uma entrevista? O senhor não gostaria que saísse uma entrevista sobre a sua OBRA?

A palavra ‘obra’ foi dita com tanta pompa que só pode ser escrita assim, em caixa alta.

– Quem faria a entrevista?

– Eu mesmo, se o senhor não se importa – ele foi ficando cada vez mais animado.

– Que tal publicar um conto?

– Sim, claro, um conto de, digamos, uma página inteira, a capa do caderno – ele estava feliz como o menino pobre que conquista o primeiro emprego.

– Prefiro conto, sabe como é, poema não é todo mundo que lê.

– Claro, claro. Um minuto, que estou vendo tudo para o senhor.

E ele anunciou rapidamente que para publicar tudo isso eu gastaria tantos reais.

– Mas podemos estudar um desconto para o senhor – completou, educadamente.

Achei que ele estivesse brincando.

– Meu caro, são os jornais que pagam para publicar meus textos.

– Este caderno vai divulgar o produto do senhor, o seu nome – ele argumentou, em tom profissional.

– Meu nome também vai divulgar o jornal.

– O jornal agradece sua atenção – concluiu a conversa, desligando o telefone.

Depois fiquei pensando que eu poderia ter sido mais flexível e pago o valor da publicação, seria um presente que eu estaria dando para mim mesmo, bem no dia do meu aniversário.

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