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Miguel Sanches Neto

Viagens interplanetárias

Em minha época de criança, eu adorava alguns seriados americanos. Terra de Gigantes, Os Waltons, Jornada nas Estrelas, Perdidos no Espaço, Bonanza e Túnel do Tempo. Ao ouvir estes nomes volto àquela improvável latitude, um lugar onde o imaginário norte-americano se encontrava com o interior do Paraná e fazia um menino sonhar com horizontes maiores.

Não tenho visto novamente mais esses seriados, disponíveis agora em DVD. Não me entrego a esta nostalgia talvez para manter vivo o universo retido em minha lembrança. Sou cético quanto aos meios tecnológicos de armazenamento de textos e imagens.

Numa visita ao crítico de cinema Marden Machado, comentamos algumas cenas dos seriados que são nosso tesouro de menino, o que foi suficiente para me levar de volta às minhas experiências de explorador das regiões selvagens dos Estados Unidos e dos espaços siderais.

Na minha geração, todos fomos norte-americanos, embora eu nunca tenha aprendido bem o inglês. Quando vejo os descendentes de imigrantes solicitando cidadania européia, penso que eu também poderia pleitear um passaporte dos Estados Unidos, pois não só sou descendente dos seriados americanos como fui também cosmonauta. Esse negócio do Marcos Pontes ser o primeiro astronauta tupiniquim é muito relativo. Na década de 70, todos éramos viajantes interplanetários. Subíamos em árvores e passávamos horas no espaço sideral, comandando nossa nave, enfrentando seres de outras galáxias e fazendo percursos imensos, bem mais emocionantes do que este pacote turístico que o coitado do nosso militar comprou.

E nossas viagens eram rápidas. Dava para ir a Plutão e voltar ainda a tempo de tomar o café da tarde. O erro foi não ter documentado tais aventuras; agora não podemos desmascarar o Marcos Pontes. Ele ficou com a glória. Nós ficamos com a memória. Mas levamos uma vantagem: nossas viagens não custaram nada ao governo. E há ainda outra: embora crianças, não perdíamos tempo fazendo experiências com a germinação de feijões. O nosso pé de feijão já havia crescido e nos ramos dele subíamos àquelas regiões jamais visitadas pelo homem. Só as crianças tinham a senha.

Um outro exemplo destas vivências imaginárias: nunca deixei de ser John-Boy, narrador de meu seriado favorito: Os Waltons. Ele contava as histórias de uma família interiorana dos Estados Unidos que, durante a depressão, vivia da madeira de sua floresta. Era uma latitude muito próxima da minha, pois várias serrarias ainda estavam em atividade em Peabiru.

Os episódios de Os Waltons sempre acabavam com as luzes da casa na montanha sendo apagadas, um ou outro comentário sobre os fatos acontecidos e a família desejando boa-noite. Eis um diálogo inesquecível:

– Boa-noite, Mary Ellen.

– Boa-noite, John-Boy.

Estas frases guardam todo um universo perdido. Vendo as vidas narradas por um escritor, formou-se o desejo de escrever num menino do interior do Brasil, que havia pouco conquistara o acesso à televisão, alargando seu mundo.

É este menino que ainda repete, na hora de dormir, entre os quartos de sua casa, dirigindo-se à filha de 11 anos:

– Boa-noite, Mary Ellen.

E sem saber quem foi Mary Ellen, ela responde:

– Boa-noite, John-Boy.

Neste e em outros momentos, estou na minha infância, preso a um imaginário que insiste em manter-se vivo não em fitas e discos mas em meu cinema interior, onde os filmes e seriados ficam eternamente em cartaz – eternamente até morrermos, é claro.

Conto tudo isso apenas para relatar um fato simbólico. Como vivemos num emaranhado de símbolos, sou muito atento a eles, que dizem mais do que as provas científicas sobre fenômenos verificáveis.

Faz umas semanas que meu computador apresentou um defeito técnico. Queimou uma pilha qualquer que mantém atualizadas a data e a hora. Já mandei trocar a pilha mas persistem os sintomas de demência, de perda da memória. Ele nunca sabe em que época se encontra. Aliás, em que época nos encontramos. Assim que o ligo de manhã, ele volta ao pretérito. E isso tem causado estranhamento nos amigos, que se divertem ao receber mensagens datadas de diferentes períodos. Até agora, o tempo mais antigo em que estivemos foi o ano de 1901.

Jamais imaginei que eu poderia escrever em computador no início do século 20, em pleno alvorecer da datilografia. Trata-se de um gritante anacronismo. Mas não é esta a data mais comum no meu computador. E sim o ano de 1980. O meu PC é como uma roleta viciada. Na grande maioria das vezes ele volta a este ano. Mais precisamente ao dia 4 de janeiro de 1980, uma sexta-feira. Estou preparando o enxoval para o Colégio Agrícola de Campo Mourão, onde passarei três anos como aluno interno. Minha mãe compra uma mala imensa, minha primeira mala. Ela também costura as barras de meus lençóis. Ganho ainda um pijama vermelho-diabo, que é quase uma roupa de astronauta russo. Não andarei mais pelos quintais vizinhos, não transformarei os pés de goiaba em naves espaciais, conhecerei novas rotas, que me levarão a um tempo muito estranho, em que as pessoas possuem computadores em casa e podem se comunicar eletronicamente. Eu ainda não sei nada disso, mas sinto um pequeno desespero ao pensar que faltam exatos 20 anos para o século 21. Como será este futuro distante? Eu não consigo me imaginar com 40 anos. Com quem terei me casado? Qual será minha profissão? Morarei numa estação espacial ou numa casa no interior dos Estados Unidos?

Em 4 de janeiro de 1980 eu estava entrando em outra temporalidade. Talvez por isso meu computador volte a este momento. Ele herdou minha fixação na infância. Confesso: gosto que meus e-mails saiam com esta data. Eu talvez pertença mais a ela do que a qualquer outra, pois a primeira vez que deixamos a casa dos pais é realmente um instante eterno. Nesta viagem, eu iria mais longe do que o mais ousado dos cosmonautas de minha infância. E não daria para voltar para o café, minha mãe ficaria preocupada com esta ausência, mas nunca deixaria de colocar minha xícara na mesa. Talvez um dia eu volte, mãe.

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